ficatempo

Contos e crônicas como passatempo

23.3.08

Para que a criatividade volte

 

O que antes era comum, agora seria um milagre se acontecesse de novo. Quero muito, mas muito mesmo, voltar a acreditar em mim, no meu dom. O fato é que não consigo mais escrever uma historinha sequer. Já fiz de tudo para produzir textos de sucesso novamente, até busquei as receitas da “Clavícula de Salomão”, obra considerada por muitos entendidos como o primeiro manual de magia escrito no Ocidente, no século 12. Li a versão francesa que se baseou em edições do 19. Em um caldeirão, lancei morcegos, sangue mensal das mulheres, camundongos, rabos de gatos, etc. De quebra, lembrei-me do sapo de macumba, de Nelson Rodrigues, e afoguei um lá também. Bebi o caldo.

São Cipriano

Como não deu certo, tentei apelar para São Cipriano. O diabo é que o livro dele “o legítimo de capa preta”, não tinha nenhuma reza específica para escritores falidos. É verdade! Fui virando as páginas e as rezas não batiam com o meu caso: “Para o demônio deixar o enfermo”; “Para os doentes na hora da morte”; “Para se viver feliz sempre”; “A arte de fazer ouro” (depois eu leio este capítulo com calma); “Para se tornar invisível”; “Para que o anjo lhe seja favorável”, entre outras orientações.

Então respirei fundo, como sempre faço em momentos difíceis, ergui a cabeça e pensei: “terei de resolver esta parada sozinho. O que recomendo para mim mesmo?” Súbito, nasce uma idéia: da mesma forma que as pessoas passam bronzeador na pele, passarei textos de escritores consagrados para o dom reaparecer. Será a minha última chance: de acordo com o contrato, tenho de entregar à editora um romance até o fim deste mês, que termina daqui a uma semana.

Machado de Assis

Na estante, livros e mais livros. Dou preferência a um de nossos maiores escritores, Machado de Assis. Começo a passar o texto, ou melhor, a copiá-lo em Word para ver se o canal da criatividade é desobstruído.

“Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei no trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu. Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os versos pode ser que não fossem inteiramente maus. Sucedeu, porém, que, como eu estava cansado, fechei os olhos três ou quatro vezes; tanto bastou para que ele interrompesse a leitura e metesse os versos no bolso.

- Continue, disse eu acordando.

- Já acabei, murmurou ele.

- São muito bonitos.

Vi-lhe fazer um gesto para tirá-los outra vez do bolso, mas não passou do gesto; estava amuado. No dia seguinte entrou a dizer de mim nomes feios, e acabou alcunhando-me Dom Casmurro. Os vizinhos, que não gostam dos meus hábitos reclusos e calados, deram curso à alcunha, que afinal pegou.”

Não sou espírita. Acho que após a morte teremos mais coisas a fazer do que ficar assombrando amigos e inimigos. Mas confesso que agora, enquanto copio as linhas de Machado, sinto um par de olhos curiosos sobre os ombros que parecem expressar o seguinte: “ver meus textos brotando na tela é mágica pura.” Não sei por que, mas acabo de ter uma idéia pro romance.

criado por Julio Scarparo    15:25 — Arquivado em: Sem categoria

16.3.08

Perseguição anual

 

Mais um aniversário se aproxima. E com ele, um sonho que se repete todos os anos, na semana da comemoração: uma criança corre atrás de mim para me matar. Ela veste camiseta de listras amarelas e pretas. Tem olhos arregalados e muita força nos braços e pernas. Mesmo assim, não dispensa o facão, que combina perfeitamente com os cabelos desleixados.

A criança me viu, tenho de correr… se conseguir, entrarei neste quarto e fecharei a… porta! Ela a chuta feito vaca louca. Há uma janela, se a barreira não agüentar, terei de pular… Vá embora seu demônio!

Esta droga de janela não quer abrir, abre porcaria! Abre! Abriu! Vou ter de pulaaaar!

A descida é tranqüila, mas a antecipação mental do impacto no solo lembra-me que sou finito.

Acordo perturbado e me pergunto:

- Por que eu, aos oito anos de idade, tento assassinar o homem de 42 que sou eu mesmo?

Mas tudo bem. Hoje irei me encontrar com uma bela e perfumada senhora. Ela é infeliz, mas isso não importa. O importante é que ela serve de alimento à minha carne e, em troca, sirvo de bengala a ela. Sempre quis ter uma otária assim.

Ele deita-se e adormece rapidamente.

A criança me viu, tenho de correr… se conseguir, entrarei neste quarto e fecharei a… porta! Ela a chuta feito vaca louca. Há uma janela, se a barreira não agüentar, terei de pular… Vá embora seu demônio!

Ela arromba a porta e finalmente, depois de 42 anos, consegue me agarrar, antes de eu pular a janela. Com a mão esquerda, aperta o meu pescoço. A outra levantada, ao lado da cabeça, causa um efeito assustador: o facão brilha como se fosse um terceiro olho a me sentenciar:

- Você não acabará com essa família inocente. O adultério você conseguiu, porém não conseguirá fazê-la dependente química!

- Mas ela é louca, é uma tola, vive chorando, está cheia de minhoca na cabeça, ela precisa de mim, precisa de uma bengala humana pra viver…

- Você não presta! Vive a tirar proveito da fraqueza dos enfermos. Morra, morra, morra, morra, desgraçado!

criado por Julio Scarparo    19:58 — Arquivado em: Sem categoria

9.3.08

‘Não matarás’

 

O acompanhante duma paciente quer saber as horas. Respondo sem vontade que “são dez e dez”, para depois lembrar de uma coincidência. Acabo de deixar o carro na vaga número dez do estacionamento coberto, que fica grudado ao hospital. Fiz a manobra com calma porque o pai está sendo medicado neste instante. Bateram nele com a intenção de matá-lo. Talvez tenham êxito. De qualquer forma, eu acredito no pôr-do-sol.

Encontro a entrada de emergência, paro o carro sem dificuldade. O pai está inconsciente no banco de trás. Como retirá-lo do automóvel? Olho ao redor e só vejo palermas. O maior deles, o terceirizado que me recepciona, faz piada fora de hora, enquanto ameaça carregar o doente no colo. É que ele não percebe a convulsão, a tristeza, a perda que se aproxima. São as dores de um parto do avesso. “A cadeira de rodas, onde estão as cadeiras de roda?”, pergunto para a multidão. Num passe de mágica, o gorila risonho tira da cartola uma cadeira novinha em folha. Quer dizer, era velha e feia, mas tive a impressão de que era a melhor cadeira de rodas do planeta.

Cruz na parede

Agora preciso correr, porém não sei pra onde. Lá no fundo, uma porta daquelas que abrem no meio, tipo de cozinha. Deve ser a da emergência. “É da emergência!” Passo por ela e viro à direita, sentido obrigatório. “O que ele tem?”, quer saber a bonita auxiliar de enfermagem. “Ele foi espancado, a pressão caiu, acho que fraturou algum osso importante”, respondo, como se houvesse algum osso sem importância… Por incrível que pareça, ela sorri diversas vezes para mim e… deixa pra lá, depois eu conto. O fato de a loira de olhos claros ter me convidado para, digamos, conhecer melhor o hospital, não se encaixa nesta história. Não mesmo.

Voltando para o tratamento de emergência. Após os galões de soro na veia do velho, o médico chega, dá uma olhada no enfermo e diz: “há vinte anos ele estaria condenado, mas há chances de sobrevivência, vamos passá-lo por uma tomografia computadorizada e ver o que dá para fazer.” Foi aí que lamentei a vida de todos, crianças, jovens, adultos e anciãos. Homens e mulheres. Sempre haverá um alguém que verá “o que dá para fazer” na hora de nossa morte. O problema não está no auxílio, está na fragilidade.

Os pacientes estão em macas separadas por cortinas marrons – uma divisória bastante usada nos grandes cortiços da região do Brás, em São Paulo. Como a cara do médico e as cortinas me dão náuseas, olho para cima. Na parede, em vermelho, o número de novo… “Caramba, não pode ser… esse boxe é o dez!” Só que em vez de ser um dez de espada, como o do estacionamento, é um de ouro. Os tempos estão mudando. No lugar da cruz pendurada, um número pintado.

Rompimento do baço

“Não há de ser nada, não há de ser nada”, repito para mim mesmo. Mas a coisa é séria. “Você é o filho dele?” “Sim”, respondo. O cara de branco, que os demais chamam de Doutor, com letra maiúscula, dispara: “houve um rompimento do baço, portanto há hemorragia interna.” “E isso significa o quê?” “Significa que normalmente a vítima morre em dez horas, mais ou menos.” Olho no relógio. Mais algumas horas e estaremos no dia 10 de março.

criado por Julio Scarparo    21:18 — Arquivado em: Sem categoria

2.3.08

Mensagens para você

 

- Alguém colocou no meu cérebro várias garrafas de vidro que ficam boiando.

- Então você também as abriu?

- Sim, eu tirei a tampa de uma delas. Aí a mensagem surgiu sem palavras, entende?

- Sei como é que é. A idéia brota de repente; temos a impressão de que a mensagem foi dita há tempos idos e só agora a recordamos, não é assim?

- Exatamente.

Ele olha ao redor, pensa, pede mais uma cerveja, respira fundo e decide aprofundar a questão:

- Como você conseguiu notá-las, vou lhe contar algo: a Razão não faz parte da Natureza.

- Então…

- Deixe-me explicar melhor: a Natureza tem a ver com vida, dor, nascimento, circulação do sangue, instinto, morte, etc. Já a Razão rompe com o Sistema Natural. É por isso que, dependendo da garrafa aberta, alguns resolvem se suicidar, o que é antinatural.

- Mas estou confuso com a mensagem. Por um lado, sei que seria certo e óbvio. Por outro lado, evidentemente, a atitude seria errada. O que fazer quando não se sabe o que fazer?

- Na dúvida, abra outra garrafa. Não prossiga.

- Quem joga as garrafas em nossa mente?

- Alguém muito próximo de nós.

- Então por que a comunicação por meio de garrafas?

- Você não precisa mais delas.

criado por Julio Scarparo    16:10 — Arquivado em: Sem categoria

24.2.08

Paredes vermelhas

 

Vovô comprou a casa de um senhor que não batia bem da cabeça, nos anos de 1950. Com o passar do tempo, vários detalhes entraram no relato da “conquista” dessa casa própria. O velho gabava-se de ter, segundo ele, comprado a casa pela metade do preço de mercado e a demolido a fim de construir tudo do jeito que sempre quisera. “Mas você não trocou somente o portão?”, contradizia vovó. Seja como for, descobri que um fato não entrou em nenhuma das versões contadas pelos familiares. As paredes do interior da casa eram todas vermelhas.

Eu tinha 8 anos de idade quando disseram pra minha total surpresa:

- Filho, a partir de agora teremos de trancar a porta da frente toda vez que entrarmos ou sairmos de casa. Ontem assaltaram o vizinho, levaram a TV em cores e o Três Em Um da Gradiente. Esta é a sua chave, cuidado para não perdê-la!

- Que coisa doida… Já não basta trancarmos a porta todas as noites antes de dormir?, resmungo eu, enquanto ouço o LP Thriller, de Michael Jackson. Mas ordens são ordens. Arrumo um chaveiro amarelo em forma de colar, feito daquele fio encaracolado do aparelho de telefone. Pronto. Jamais perderia a chave jogando bola, brincando de esconde-esconde ou de polícia e ladrão.

Túnel do tempo

Numa noite, acordo com dor de garganta. Levanto da cama e noto que a casa está diferente. Um aspirador de pó, que mais parece vassoura, se encontra no meio da sala. Também vejo um rádio do tamanho de uma televisão, acredite se quiser. Sobre a mesinha, um relógio de bolso da marca Mecum. Dou corda no relógio e o tique-taque dispara: ele corre para mostrar cada um dos 60 segundos que se diluem por aí. Há mais coisas interessantes sobre a mesa. A moeda dourada, por exemplo, leva o rosto de alguém de óculos, barba e bigode. Leio o seu nome: Machado de Assis. O outro lado da moeda indica que ela vale 500 réis. Pequeno, embaixo do número 500, vem o ano de 1939.

Ouço passos, só dá tempo de me esconder atrás da cortina. Vejo um quarentão de face perturbada, meio tantã. Ele gesticula muito e seus pensamentos são confusos. A bagunça mental é constatada pela falta de objetividade dos olhos. Ficam pra lá e pra cá sem descansar nalgum objeto, nem ao menos nos olhos do interlocutor, um homem negro vestido de branco.

Cada vez que o perturbado fala, tenho a impressão de que tenta colocar a orelha no ombro direito, depois no esquerdo e assim sucessivamente. Ele diz:

- Vamos enterrá-la no quarto das crianças, bem embaixo da cama do menino que está atrás… desta cortina!

Fugir

Quando ouço o perturbado dizer “desta cortina!” saio correndo para saltar do meu sonho. Acordo onde seria o “quarto das crianças.” “Será que existe uma criança enterrada neste cômodo?”, pergunto a mim mesmo. Antes de buscar a pá dum amigo pedreiro, preciso tirar a prova real. Pego a chave pendurada no pescoço e raspo a tinta da parede. Arranco facilmente a parte que está descascada. A chave vai abrindo o tempo à medida que revela camadas. Brancas, verde, algo misturado, parece cinza, e finalmente rosa, ou melhor, vermelha.

criado por Julio Scarparo    15:13 — Arquivado em: Sem categoria

17.2.08

A imaginação

 

“Nem vem que não tem”, disse ao colega após a sugestão de imitarmos o camarada que, naquele instante, enfrenta a pé todos os carros da Avenida Paulista, na hora do rush. Em vez de andar pela calçada, o jovem anda no meio da avenida tal qual um veículo. Sem dar seta, o rapaz de terno, gravata, gel e de mala esportiva nas costas, muda de faixa até se transformar em um pedestre de novo.

Confesso que me diverti com a visão surreal, apesar de não aprovar, evidentemente, tal comportamento. Mas andar sem olhar para trás, no meio da avenida, com a naturalidade de quem manda todo mundo às favas, foi tremendo, reconheçamos. Na hora, lembrei-me do Cristo caminhando sobre o mar agitado. Jesus segue em direção ao barco onde estão seus discípulos, que não acreditam na aparição. “Sou eu, não temais”, afirma o Filho de Deus.

Deveríamos respeitar mais o estilo de vida dos outros, o que não significa aceitar ou aprová-lo. Um caminha no meio da rua, outro anda sobre as águas, há também o que toma banho de chapéu para depois discutir Carlos Gardel e outro ainda acredita que é mais bonito do que Alain Delon. E daí? O que menos importa nisso tudo é o nosso glorioso conceito de certo e errado. É preciso ter imaginação para compensar o que os sentidos nos trazem.

Amuleto do amor

Pensando nisso, continuo a caminhar na avenida, sem prestar atenção no que diz o meu colega. De súbito, avisto uma flor murcha. Aposto que a mulher deve ter uns 80 anos de idade, porém a aura da beleza não a abandonou. Ao contemplá-la, sei que estou diante de uma pessoa que foi assustadoramente bela na juventude. Sem dúvida a princesa de antanho teve poderes de enfeitiçar qualquer homem, todos os homens, desde que não tivessem o amuleto do amor pendurado no coração.

A mulher espeta-me com os olhos porque nota a minha lamentação. Na realidade eu a encaro como um turista fascinado pelas ruínas do Império Romano. Ela abre totalmente os olhos, ergue a cabeça e diz de espírito para espírito:

- Não me venha com dó nem piedade. Eu sei quem sou e quem fui. Sorte a sua nos encontrarmos somente agora. Décadas atrás e você entregaria a tua alma na minha mão. Afaste-se de mim, pimpolho.

criado por Julio Scarparo    12:04 — Arquivado em: Sem categoria

10.2.08

Zorba

 

Bastaria uma simples passagem de câmera pelo local para revelar os horrores presentes no boteco onde almoço, de segunda a sexta-feira. Veja as imagens: um senhor palita os dentes com fúria; a moça da última mesa mexe o gelo do copo com o cabo do garfo; e no balcão, o rapaz que arruma o esgoto da avenida come sem lavar as mãos. Nem dá bola quando ele mesmo, por acidente, derrama refrigerante no prato, na mão direita e na calça. Com a mão pingando e o feijão boiando na coca-cola, continua a comer como se nada tivesse acontecido.

E para ajudar a compor o ambiente, uma velha puxa a fita dental da bolsa para usá-la na frente de todos, com a maior naturalidade do mundo. Mas isso não é o suficiente. Ela caminha em direção à calçada com a intenção de colocar, de novo, aquele troço sujo na boca. “Pela estrada afora eu vou bem sozinha levar essa fita para a boquinha.” Um charme, coisa linda.

No “restaurante”, o que mais me chama a atenção é um senhor gordo e careca. Só não o rotulo de mendigo porque ele tem uma força incomum nos olhos. Talvez força não seja a palavra certa. Quero dizer que ele possui um semblante que pensa, reflete. A maior parte dos mendigos é alienada, preocupa-se em levantar grana pro cigarro, pra bebida e o mais é lucro. No entanto, esse cara de óculos fabricados em 1970, que veste uma aberração de colete verde sobre uma camisa social amarela, transborda lucidez. Ou alto grau de insanidade.

Curiosidade

Diante do caixa do estabelecimento, o senhor gordo usa o antebraço para segurar guarda-chuva e livro, enquanto tira da carteira uma nota de cinco reais. “Qual será o título da obra?”, penso com muita curiosidade. Interrompo a minha refeição e também corro pro caixa. Tinha que descobrir o nome do livro. “Um homem que se alimenta aqui se interessaria por qual tipo de leitura?”

Para a minha sorte, o camarada permanece no local para tomar café. Ainda próximo do caixa, com uma das mãos na cintura, ele saboreia o cafezinho gostoso. Sobre o balcão, guarda-chuva e livro aguardam sem pressa o dono terminar o ritual. Assim fica fácil demais. Nem dono, nem guarda-chuva, nem mesmo o livro percebem a secada que eu dou no título: “Zorba, o grego.” É mole? Jamais imaginaria tamanha violência. Esperava, no máximo, um Paulo Coelho da vida.

“Mas Zorba não é marca de cueca?”, certamente diria uma das madames que forram a barriga num restaurante chique, perto dali. “Claro que é cueca!”, responderia a ilustríssima amiga. No fim das contas, cada um paga o preço de ser o que é.

 

criado por Julio Scarparo    8:38 — Arquivado em: Sem categoria

3.2.08

O jardim não existe mais

 

Após o último encontro do grupo, cada um seguiu o seu caminho. O meu era em direção à linha verde do metrô de São Paulo. Na plataforma, vejo que uma antiga amiga se aproxima de mim, sem me reconhecer. “Não é possível, seria muita coincidência…” Trabalhei com ela há dez anos numa agência de comunicação. Além de publicitária, a mulher é escritora espírita, costumava comentar sobre o que um nobre falecido teria dito a respeito dum assunto qualquer. Uma noite, ela quis me iniciar na coisa:

- Querido, me ajude. Apague a luz e acenda a vela, por favor. Toma aqui o fósforo.

- Mas esta vela não é de macumba?

- É, e daí?

- Mas hoje não vamos jantar?

- Não. Segura a fome. Chegou o momento de você ter as suas próprias experiências espirituais. Nada de teoria, nada de livros, nada de acreditar no que os outros lhe dizem.

- Olha, você é linda como um jardim de flores, porém esse papo de falar com espírito não combina com você. Na boa: a entidade pode até afirmar que é Machado de Assis ou Gandhi. No entanto, serei mal-educado, darei as costas ao desencarnado, ou melhor, acenderei a luz pra terminar a sessão.

- Deixa de bobagem… Acenda logo a vela!

Serpente

Risco o palito sem vontade. Mesmo assim o fogo surge, como num passe de mágica, para envolver lentamente o pavio, tornando o ambiente tenebroso. A cortina balança sem vento e, não sei por que, o microondas faz um sinal sonoro, talvez saiba que é meia-noite.

De súbito, ela se transforma. Não a reconheço mais. Lança-se no chão e rasteja feito cobra. Com as pernas, derruba cadeiras, empurra o sofá e vira de ponta-cabeça a mesa de centro. “Gênesis revela que o diabo encarnou numa serpente para a raça humana cair”, lembro. Saio correndo do apartamento dela pra nunca mais encontrá-la (foi despedida do serviço no dia seguinte, noutro texto eu explico a razão, agora deu preguiça de falar sobre isso).

Metrô 

Na estação, a mulher se aproxima. “Tem de ser ela, tem de ser ela, tem de ser ela. Mas parece que não é, acho que não é. Infelizmente não é…” A mulher passa e pára bem atrás de mim. Sinto o perfume tradicional da escritora espírita. Resolvo olhar para trás, mas não encontro ninguém. O jardim não existe mais.

criado por Julio Scarparo    11:37 — Arquivado em: Sem categoria

27.1.08

Dorian e Doris

 

O Sol reina absoluto no céu azul, ao contrário de mim, que não passo de mais um transeunte na calçada. Para piorar o cenário, estou aqui de uniforme verde. “Um Dorian Gray não se veste assim”, sopra a moça fashion enquanto me ultrapassa. Não sei quem é Dorian Gray, mas parece que fui elogiado, pelo menos em parte.

Volta e meia as mulheres me param por aí. Verdade. Os que andam comigo sabem. Acho que é o Diabo querendo sempre me tentar. Outro dia, num supermercado em São Paulo, fui fisgado por uma garota parecida com a ex-apresentadora de TV, famosa nos anos de 1980, Doris Giesse - só que de cabelo comprido. Seríamos um casal muito bacana: Dorian e Doris.

Ela pára do meu lado e pergunta:

- Você sabe onde estão os desodorantes sem perfume?

- Olha, tem este aqui, serve?

- Não, esse mancha a roupa… Nossa… estou enganada ou é barulho de chuva? Acho que lá fora está caindo um temporal…

- Está de carro? – pergunto.

- Não.

- Eu te deixo no ponto de ônibus.

LSD

Eu realmente a deixei no ponto. Bem no ponto. Viajo dentro de seus olhos. Ela seria a “Lucy no Céu com Diamantes”? Resolvo perguntar. “Você é a versão brasileira da ‘Lucy in the Sky with Diamonds?’” “Não sei quem é Lucy”, ela responde secamente – é assim que fala quando tenta esconder a ignorância. A fumaça do quarto sufoca. Tudo gira, gira, gira. “Mas a Lucy Ball você conhece, não conhece?”

Cubro o tempo com gargalhada pra ele machucar menos. Quanto mais dou risada, mais pesado ela dorme. O piercing dela, no nariz, perde a graça sem o auxílio dos olhos verdes. O da língua acho que já engoli. No teto há uma lâmpada que me esmaga. Ou melhor, a luz que sai da lâmpada me afoga. A falta de ar é insuportável, porém não consigo levantar pra abrir a janela ou ligar o ar-condicionado. Seres invisíveis congestionam o ambiente. Ouço vozes num idioma estranhíssimo. Alguém coloca os pés no meu peito. Outro (a) se diverte com a minha orelha. Acho que vou ser despedaçado.

Tentação

“Infelizmente chega a hora de nos juntarmos aos mortos”, diz uma voz feminina. A multidão que está no quarto parece que me puxa, me invoca. A experiência passa dos limites, sinto-me na obrigação de dizer algo: “sumam daqui seus desgraçados, ainda não é a hora!” No entanto, a ira não funciona, afundo de abismo em abismo. De repente, Lucy desce do céu pra me salvar, posso senti-la sobre mim.

Ela gruda seu nariz ao meu e diz:

- Você tá passando bem?

- Só sei que seus cabelos estão me sufocando…

- Desculpe, seu mal-educado!

Por que será que me lembrei da Doris? “Um Dorian Gray não se veste assim.” Cadê ela? Preciso apertar o passo.

- Moça! Espere um pouco! Quem é Dorian Gray?

criado por Julio Scarparo    11:08 — Arquivado em: Sem categoria

29.12.07

Aviso

 

Estou em férias. Por isso, o próximo texto deve ser publicado no dia 27 de janeiro. Sim, é preciso parar um pouco com a rotina para renovar as forças. Que você tenha um Feliz Ano Novo!

Julio Scarparo.

criado por Julio Scarparo    18:40 — Arquivado em: Sem categoria

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