ficatempo

Contos e crônicas como passatempo

1.6.08

Repelentes de pessoa

 

Acabo de ler uma reportagem escrita por volta de 1904 sobre o dia-a-dia dos cariocas. Talvez Machado de Assis a tenha lido. De qualquer maneira, deu-me vontade de também escrever algo bacana a respeito do nosso cotidiano, aqui na cidade de São Paulo. Como não posso abandonar o emprego de porteiro pra fazer uma reportagem de fôlego, contarei algo que aconteceu comigo ao voltar do trabalho.

O frio começa a soprar em nós, é verdade. Mas o problema não está no frio propriamente dito, pelo menos para mim, um velho homem que possui um teto, dois cobertores e três jaquetas. A dificuldade surge quando ando de ônibus. Basta um ventinho um pouco mais gelado e o povo se recusa veementemente a abrir as janelas. Depois de uns 15 minutos, os vidros estão embaçados para a alegria dos vírus, que pulam facilmente de um corpo a outro.

Entretanto, se todo o problema da condução se resumisse a ser alvo de vírus, nem me importaria. Mas esses parasitas não são os nossos únicos inimigos. No ônibus, um homem de pernas longas e finas, semelhante a um pernilongo, senta-se ao meu lado. Tenho certeza de que ele está a serviço das baratas e dos demais insetos. Acho que foi contratado para vingar a morte dos milhares de pragas que morreram de inseticida. Isso porque, segundos antes de entrar no ônibus, ele passou um litro de perfume barato. Ao respirar esse repelente de pessoas, surge em mim uma violenta dor de cabeça. Ainda sem me recompor, um fumante ingressa no transporte coletivo. Mal passa a catraca, e o cheiro de cinzeiro se espalha como se fosse outro repelente de qualidade. Você não vai acreditar: o maldito se instala bem na minha frente. “Acho que é um complô, querem me aniquilar logo.” E como desgraça pouca é bobagem, atrás dele sobe um cara vestindo roupa molhada, não de chuva, mas de pouco tempo de varal mesmo, e encaixa o traseiro úmido no banco de trás ao meu.

Golpe de misericórdia

É a gota d’água. Com a palma da mão direita, escancaro a janela. Os fedorentos trocam olhares. Eles sabem que o plano foi descoberto, mas agem como se não fedessem. O da frente coça a cabeça portadora de caspa. O de trás espirra na minha nuca. E o do lado exibe as unhas compridas, que contêm toda a sujeira armazenada por um século de imundície.

Os três enviados de Satanás ganham um reforço do sexo feminino. Ela é feia e gorda. Come um pastel de carne com queijo dentro do ônibus, o que impregna o coletivo. Sem assento livre, resolve parar bem do meu lado. Então, sou obrigado a carregar as duas sacolas da gorda, pois não há escolha: ou as carrego ou elas continuarão a bater na minha bochecha por um tempão, além do risco de outra azeitona cair no meu cabelo. Tão logo a gorda engole o pastel, sinto outro cheiro desagradável: o de cândida pura. Não é possível… A esfomeada tomou banho de cândida antes de entrar no coletivo. Estou encurralado: o perfume de litro, o cinzeiro ambulante, o roupa molhada e agora vem essa senhora, que me dá o golpe de misericórdia.

“Então é assim que se sente um inseto quando é envenenado?”, penso. Mais do que depressa, levanto-me e dou sinal pra descer. Nunca imaginei que fosse desejar o ar que vem dos engarrafamentos. Duas horas mais tarde, chego em casa. Minha velha tem um olhar de reprovação. Ela diz:

- Você está fedendo, não está sentindo não?

- Não.

- Vai ver que a idade avançada afetou o seu olfato. Vai tomar banho! Você está fedendo a urina!

- Mas está frio… E quando está frio só tomo banho duas vezes por semana…

- Porco!

criado por Julio Scarparo    20:11 — Arquivado em: Sem categoria

25.5.08

Perigosa Emília

 

Mesmo dentro do carro, a voz dela combina com o som da chuva e do vento. Meu rival, o outro pretendente, está debaixo da árvore, esperando que a conversa passe logo. Quanto a mim, estou bem tranqüilo. Poderia ouvi-la durante toda a eternidade, desde que prometa não evaporar de novo.

Ela diz que vai embora quando quiser porque tomou gosto pela liberdade. “Não quero ninguém vivendo na minha sombra”, explica. Respondo que a única sombra assombrada vem do imbecil que toma chuva lá fora. “O cara tem problema. Acho que o excesso de academia diminuiu-lhe o cérebro.” Ela o defende: “músculos são melhores do que a arrogância.” Que seja. “Mas o fato é que ele tem problema mental”, insisto. “Querido, ser terrivelmente feio não significa ser portador de debilidade mental. Prefiro um feio do meu lado a um homem que se ache o mais lindo do mundo.” Disparo: “então por que se perde quando olha para mim?”

A moça, que é semelhante à atriz Faye Dunaway, ergue os olhos para o teto do carro, como quem é acertado em cheio por uma bala. “Estou confusa.” Mas eu não. Tenho de aproveitar o momento de fragilidade e indecisão. Ligo o automóvel, engato a primeira, abaixo o freio de mão. O horroroso ficará a ver navios. Ou pelo menos essa era a intenção. “Quer desligar… Quer desligar esta porcaria?”, exige ela, demonstrando que continua no comando da situação. Puxo o freio de mão, ponto morto, e silêncio novamente. Droga…

Destino

“Chega de brincadeira. Escolha um de nós dois e ponto. É só isso que lhe peço”, digo com firmeza. “Que rapaz decidido… Para a sua informação, eu não sou um de seus textos de jornal, que lhe obedecem, porém se quiser escrever sobre nós, coloque este título: ‘linda mulher escolhe os dois.’”

- Por favor, sem ironia.

- Com ironia! Se o destino é irônico, por que não eu?

- O destino não é irônico, ele somente está a serviço da Providência Divina. A impressão de ironia vem de observarmos uma determinada contingência por apenas um ângulo.

- Ai meu Deus… Guarde no bolso as suas teorias de ex-seminarista. Então o que me diz de o Superman (o Christopher Reeve) cair do cavalo e ficar tetraplégico? O homem de aço agonizou por quase dez anos em uma cadeira de rodas. Careca, teve um infarto e finalmente morreu em 2004, se não me engano. E se quer outro exemplo, lhe dou: o que dizer sobre o Titanic? Será que a frase “nem Deus afunda o Titanic” despertou a vingança divina? Ia parar por aqui, porém lembrei-me de que o famoso escritor argentino, Jorge Luis Borges, ficou cego. Basicamente a mãe e um assessor de confiança é que ficavam lendo pra ele e escrevendo o que ditava…

Tchau

Com tanta filosofia de botequim, percebi que a conversa havia saído dos trilhos:

- Está ficando tarde. Vou deixá-la na companhia do homem mais feio do Universo, OK?

- Obrigada, querido. A fila anda.

- Só mais uma coisa. Sabe por que estou tirando o meu time de campo? Porque no fundo, tenho medo de você. Sem papas na língua, é tão briguenta e impulsiva quanto a personagem Emília, do Sítio do Picapau Amarelo. O pior é que você também guarda semelhança com a atriz que interpretou a boneca de pano, Reny de Oliveira. Ela se perdeu numa ética esquisita. Sabia que Reny posou para a Playboy em 1984, pouco depois de deixar o Sítio? A carreira dela terminou aí. Com curiosidade, acompanharei de longe o que o destino lhe aprontará. Pode ir. Tchau.

criado por Julio Scarparo    16:38 — Arquivado em: Sem categoria

18.5.08

Luz amiga

 

A desavisada luz não conseguiu fazer a curva porque corria a 300 mil quilômetros por segundo. Entrou direto no tão falado e pouco conhecido buraco negro. Agora terá de se virar. Sem a presença do Sol, a luz está sozinha. O pequeno ponto luminoso segue em frente resignado, tal como nos encontramos nos fins de tarde. Mas ela é nova, ainda acredita na alegria circense dos elefantes, leões e chipanzés que também foram capturados.

Durante a trajetória para o desconhecido, ela se encanta com o próprio brilho, embora reconheça que, tempos atrás, era bem mais reluzente. “Antes a minha passagem provocava reações positivas, eu era a moldura de todas as satisfações, agora parece que não agrado tanto.” Coitadinha, ninguém falou pra você que a natureza desbota o colorido do nosso ser?

Enquanto a queda parece distante, dance a música do Universo. Ouça a expansão, se estique com ele. Mastigue o cosmos, adube as estrelas. Brinque com os pequenos raios de Sol, gire sem parar. A sua testa é sagrada. Conte para mim como é ter uma calda galáctica. É verdade que os cometas lhe mandam flores? Você é bonita quando dá gargalhada.

Barreira

Cuidado! VIRE, VIRE, VIRE, A MATÉRIA ESCURA ESTÁ BEM AÍ… Maldita barreira… A colisão foi violenta… Eu gostaria de ter alertado sobre essa matéria que é invisível porque não reflete luz. Apesar do grave acidente, a cambaleante luz dá seqüência à viagem, mas sem aquela estrondosa potência. Por mais que pise, não sai dos 50 por hora. Um carro mil dos anos de 1990, com cinco pessoas dentro, a ultrapassaria tranqüilamente.

O caminho de volta não existe. Todos os lugares são apenas um. A própria natureza não tem tanto poder assim. Ela é somente parte da realidade. “Você apagou? Cadê você minha amiga? Ainda hoje a vi passar, estava contente por continuar andando. Lembro-me de seus olhos: eram vida. Duvido que algo consiga vazá-los. Aguarde por mim, prometo que a encontrarei.”

 

criado por Julio Scarparo    18:34 — Arquivado em: Sem categoria

11.5.08

O Santo Casamenteiro

 

As crianças correm pelas ruas a gritar: “morreu o santo, morreu o santo, morreu o santo.” Sim, o Santo Antônio de Pádua, amigo de São Francisco de Assis, não resiste a uma crise de hidropisia (acumulação de líquido numa parte do corpo) e falece no dia 13 de junho de 1231, na Itália, aos 36 anos de idade, segundo alguns historiadores. Por que escrevo sobre isso? Não sei. Talvez porque hoje tenha me lembrado de pelo menos dois dons que ele tinha: o da oratória e o da ubiqüidade.

O primeiro você conhece. Quem domina a oratória carrega um auditório inteiro na palma da mão. A platéia nem pisca e só ri quando você dá o comando. O mesmo acontece com o choro. As lágrimas seguem à risca o script do palestrante. À medida que o orador vai falando, a massa vai fazendo “sins” com a cabeça. É engraçado. Concordam com tudo o que ouvem porque a mensagem está certinha, a lógica é perfeita, o maniqueísmo é bem bolado.

Desconheço as técnicas retóricas utilizadas por Santo Antônio. Só me disseram que o púlpito dele não era tão bacana quanto o do santo brasileiro, Frei Galvão, que tinha um banco embutido, como podemos ver no Museu de Arte Sacra de São Paulo. Mas não são todos os que gostam de pregar sentados. De pé, numa tarde ensolarada, Santo Antônio faz gestos e muda a entonação da voz, enquanto fala a respeito da injustiça social, diante de uma multidão magnetizada.

Milagre

Foi então que todos se espantam ao vê-lo cruzar os braços sobre o púlpito para em seguida descansar a cabeça. Ninguém entende a pausa. “Será que ele está passando mal?”, pergunta uma doméstica da época. Um menino, ao levar um copo d’água ao pregador, como orientou a mãe, puxa as vestes do Santo e diz “tio, tio, toma água.” Mas nada. O homem não se move. De repente, o Santo se recompõe e dá continuidade à explanação do texto bíblico.

No outro dia, uma notícia toma conta da cidade: na tarde anterior, com uma poderosa argumentação, Santo Antônio de Pádua livra o pai de ser enforcado. Provou por A mais B que o pai não tinha matado ninguém. Para não deixar nenhuma dúvida, o argumento B do Santo foi um milagre: ele teria levantado dos mortos o dito-cujo assassinado. “Mas isso não pode ter acontecido, eu o vi pregar ontem para nós, ele até passou mal”, afirmou a doméstica ao filho da vizinha. “A senhora está enganada, ele foi o advogado de defesa do pai, vi tudo com estes olhos que a terra há de comer”, garantiu o filho da vizinha, um dos vários que comentaram o livramento da forca e a ressurreição do dito-cujo. As imagens dos milagres de Santo Antônio foram feitas pelo espanhol Francisco Goya.

A doméstica e o filho da vizinha não desconfiaram que naquele dia o Santo colocou em prática o dom da ubiqüidade, isto é, a capacidade de estar em dois locais ao mesmo tempo. Sabe que não é uma má idéia? Já que o Santo Antônio é também o santo casamenteiro, aproveito para pedir esta benção: quero receber o dom da ubiqüidade para estar agora ao lado da mais bela leitora do meu blog. 10, 9, 8, 7, 6, 5, (ainda não funcionou), 4…

criado por Julio Scarparo    17:48 — Arquivado em: Sem categoria

4.5.08

Grimbled Gromble

 

Era quarta-feira, véspera de feriado. Todos felizes pra fazerem o que bem entender. No meu caso, preferi aproveitar o período pra ler Moby Dick. A poltrona eleita foi a da chácara porque é a mais confortável que conheço. Enquanto todos se divertem na piscina, faço uma pausa na leitura e vou caminhar um pouco. De súbito, ouço pés que esmagam folhas secas, mas não vejo ninguém. Acendo um cigarro, por não ter outra testemunha a invocar, e sigo em frente.

Próximo do laguinho feio, um troço dispara na diagonal. “Será um camundongo ou um esquilo?” Paro e observo as árvores. Elas também devem ter visto aquilo correr. Novamente surge o barulho das folhas secas, porém agora atrás de mim. “Deve ser apenas impressão.” Sento-me no banco de madeira feito pelo avô, anos atrás. Olho o céu aberto e depois vejo o lago brilhante. “Isso não é bom?”, digo pra mim mesmo. Quebrando a paz do ambiente, uma pedrinha acerta a ponta do meu nariz. Em seguida, os lábios são o alvo. “Está claro que não se trata de coincidência, mas de uma brincadeira sem graça.”

Cambalhota

Com os olhos, reconstruo a trajetória das pedrinhas. Chego à estátua de um gnomo e, de cócoras, a observo. Sabe aqueles duendes que aparecem na capa do CD “All things must pass”, do George Harrison? Então, o gnomo é idêntico ao que se encontra no fundo à direita do ex-beatle. Está com os braços cruzados na grama, de cabeça erguida, com um semblante de quem acaba de fazer travessura. A enorme barba branca não toca o solo. Enquanto reparo nos detalhes, a imagem pisca para mim. O susto me faz dar uma cambalhota ao contrário.

Tiro a terra da camiseta, respiro fundo e procuro o gnomo, que veste túnica escarlate e usa uma touca azul-esverdeada. Um toque na batata da perna me deixa gelado:

- Olá grandalhão!

- O que é você?

- Não seria melhor perguntar “quem sou eu”?

- Estou sonhando, logo acordarei…

- Enquanto não acorda, me responda, por favor. Onde posso deixar o tempo passar sem problemas?

- Como?

- Eu só quero ar puro, beber vinho, comer e dormir.

- Qual o seu nome?

- Grimbled Gromble.

- Grimbled, diga-me uma coisa: é verdade que os gnomos têm tesouros escondidos?

- Sim.

- Que tipo de vinho você quer tomar?

- Qualquer um, desde que a garrafa seja aberta na presença de Syd Barrett.

criado por Julio Scarparo    19:15 — Arquivado em: Sem categoria

28.4.08

Elvis morreu

 

23h13 de quinta-feira passada. Elvis Presley encaixa seu automóvel numa estreita garagem de São Caetano do Sul, região do Grande ABC paulista. Minutos antes, com os pés sobre a mesa dum bar, ele assistia à televisão, enquanto engolia um bolinho de carne, seu salgado predileto desde os 15 anos de idade.

Dentro de casa, lava o rosto e as mãos; em seguida deita-se no quintal. O céu está limpo e as estrelas se exibem. Elvis olha, olha e pensa: “há centenas de anos alguém - bem aqui onde estou - também contemplou essas luzes. Daqui a cem anos outro estará neste meu lugar e dirá o mesmo.” Elvis não pode fazer nada. Passará como todos os reis.

Volta triste para o banheiro. A máscara de Elvis acaba de perder a graça. Pega uma tesoura, corta o topete. Com uma lâmina de barbear, arranca a comprida costeleta, da qual tanto se orgulhava. “Na verdade, era também uma homenagem à Chuck Berry e ao John Lennon.” Agora, Elvis não se reconhece porque não se parece com mais ninguém. “Sinto-me um fantasma perdido em São Caetano. Observo que a fala de cada um nada mais é do que excrescência: o que falamos não importa, o que precisamos saber já sabemos. Estou pelado e não há motivo algum pra me fantasiar novamente.”

Onde está Brigitte Bardot?

Resolve dar uma volta de carro. “É madrugada, mas que diferença faz?” Com a marcha à ré engatada, vê pelo retrovisor uma barreira humana que impede a sua saída: um velho de bengala está parado ganhando fôlego. “Vou perguntar se ele está bem.” Puxo o freio de mão e saio do automóvel. Quando o encaro, não consigo falar nada. O fato de ele estar desmontando na minha frente, na frente de todos, mostrando ao vivo o espetáculo da decadência humana, já diz tudo. “Onde foi parar a Brigitte Bardot dos anos de 1960?”

Diálogo iluminado

Mesmo assim, me esforço pra ser civilizado: “quer que eu o ajude?” Sei que ele não espera mais nada de ninguém e muito menos de mim. Cansou de se machucar com as palavras e as ações de seus semelhantes. No fundo, aposto que me considera um mero boneco de massa que, até o momento, ainda tem aceitação no mercado. De súbito, o velho abre a boca e diz:

- A sua vitória não quer dizer nada porque eu e você nos perdemos, a raça humana se perdeu!

- Não! Eu me encontrei hoje! As estrelas vieram de longe pra me contar que…

- Contar o que meu jovem?

- Pra me contar que eu partirei em breve…

- E daí? Qual a novidade disso?

- Perdoe-me, mas não sei quem sou…

- Eu também não. Entretanto, guardo isso comigo.

- Elvis Presley também não sabia quem era?

- Quem é Elvis Presley?

criado por Julio Scarparo    21:14 — Arquivado em: Sem categoria

21.4.08

Twilight Zone e Poltergeist

 

“Há uma quinta dimensão além daquelas conhecidas pelo homem. É uma dimensão tão vasta quanto o espaço e tão desprovida de tempo quanto o infinito; um espaço intermediário entre a luz e a sombra, a ciência e a superstição, e que se situa em algum lugar entre o abismo dos terrores do homem e o cume de seus conhecimentos. Uma dimensão da fantasia; uma região além da imaginação.”

Essas palavras fazem parte da abertura do antigo seriado de televisão Twilight Zone. Exibido em preto-e-branco, a série apresentou o medo e o suspense a várias gerações. As histórias vão desde manequins que circulam em lojas, passa por seres de outros planetas, até ao dia em que Adão conhece Eva. Sobretudo, os temas levam o telespectador a refletir sobre questões existenciais ou simplesmente a pensar na grandeza do amor.

Steven Spielberg

Dos 156 episódios que foram ao ar nos cinco anos de duração da série, de 1959 a 1964, noventa e dois foram escritos por Rod Serling, o criador de Além da Imaginação, nome que a série norte-americana ganhou no Brasil. Uma dessas histórias, Little Girl Lost, transmitida pela primeira vez no dia 16 de março de 1962, nos EUA, foi usada como base para o cineasta Steven Spielberg escrever e produzir o filme Poltergeist, de 1982.

Abro um parêntese para afirmar que Poltergeist é um clássico. Conheço gente que jamais assiste a essa película de noite. Para muitos é impossível ver Poltergeist sozinho, independente da hora. No longa-metragem, a criança Carol Anne é levada à outra dimensão por meio de um aparelho de TV. Quando a paranormal baixinha entra em cena, a fim de resgatar Carol, o negócio fica pra lá de assustador…

Maldição

Segundo dizem, há uma maldição que acompanha o elenco de Poltergeist. Exemplos? Logo após as filmagens, falece no dia 4 de novembro de 1982, aos 22 anos de idade, a atriz Dominique Dunne, que fez o papel da irmã de Carol Anne, Dana Freeling. Ela foi estrangulada pelo namorado John Sweeney. E a própria loirinha Carol, que na vida real se chamava Heather Michele O’Rourke, morre aos 12 anos de idade, no dia 1º de fevereiro de 1988. De acordo com algumas fontes, ela não teria conseguido se livrar de uma giárdia, isto é, de um protozoário microscópico que causa vômitos, diarréias e impede o corpo de absorver os nutrientes dos alimentos.

Na verdade, eu não ia escrever nem sobre Além da Imaginação, nem sobre Poltergeist. Apenas ia dizer que tive vontade de contar a Rod Serling (o criador do Além da Imaginação) algo muito sobrenatural que aconteceu comigo nesta semana. Mas como Rod foi enterrado em 1975, acho que eu mesmo terei que registrar a história. No entanto, isso fica pra uma outra postagem.

criado por Julio Scarparo    21:46 — Arquivado em: Sem categoria

13.4.08

A garota da motocicleta

 

Eu vi os cinco numa esquina clara. Um deles raspava o muro pichado com a sola da bota. Pelos semblantes, pareciam que jogavam conversa fora. A loira é um arco-íris, segundo Jagger. Olhando assim meio de longe, tive a impressão de que a vida é um presente único. O mais engraçado de tudo é que ninguém percebia que ali se dava o nascimento duma nova percepção das coisas. A partir daquela noite de Lua, as cores voltariam a reinar no corpo dos homens. Os colares, as pulseiras e os longos cabelos medievais ressurgiriam com força.

Com o passar do tempo, eu envelheci. Mas eles não. Continuam apoiados naquele muro, sem eira nem beira. Seriam feitos de mármore? As canções estão por aí, é só fechar os olhos para ouvir. Eles ainda se apresentam perto de casa, o que contribui para a derrubada de ternos, gravatas e canetas. Não quero ver a sua assinatura. Vamos almoçar sempre juntos e o resto será conseqüência.

Na roda, a garota da motocicleta, aquela que teve um caso com Alain Delon, pede a palavra. Ela veste um macacão de couro preto e pilota como ninguém. Essa loira tem passagem livre entre os rapazes porque namora o líder de uma banda amiga. Ambos os grupos se encontram com freqüência, produzindo um caldo espiritual delicioso. “Podemos assistir à apresentação de “All you need is love?”, ela pergunta.

Assim como Lennon, o maior guitarrista que conheço está no Japão. Bem verdade que também deixou o instrumento atrás da porta, mas prometeu voltar a tocar. Aposto que os músicos acabarão se encontrando em um restaurante. Quanto a mim, fico na saudade do som e da companhia.

criado por Julio Scarparo    15:43 — Arquivado em: Sem categoria

6.4.08

Sou o entregador de pizza

 

Estranho que todos os orelhões da cidade estejam ocupados. Sento-me na praça e aguardo a minha vez. Não que eu queira ligar para alguém, detesto telefones. “O senhor prefere bem ou mal passado?”, pergunta o garçom. Respondo que não importa, “o importante é juntar forças para prosseguir.” Gosto da maneira com que os animais descansam. Enquanto me seguro para não cair no ônibus intermunicipal, o gato dorme no sofá. Os ratos sempre estarão no meio de nós.

Sou um entregador de pizza. Você também é, só que faz do seu jeito. Vejo um moinho de gente, é pra lá que vou, tal como os bichos que, ao nascerem na areia, correm para o mar. No céu uma armadilha está preparada: quem foi um mau menino ficará sem bolo de chocolate até se arrepender. “E no meu caso, que sou falsificado de nascença?” O policial diz que seremos todos apreendidos. “Alguém viu o meu avental?” Talvez esteja dentro do maior formigueiro do Jardim. “Fernanda continua morando lá?” Toda a vez que tento pular, abro os braços, mas agora preciso levantá-los para segurar-me no galho mais grosso da árvore de casa.

Deu zebra

Desculpe moça, mas você deixou cair a sua calça. “Tudo bem, estou sem meias.” Eu durmo sem cobertor, porém quando esfria não abro mão de um edredom antialérgico. “Olha lá! Por que eles estão correndo?” Lembro-me da Zebra do programa Fantástico, da TV Globo. Ela dizia “coluna do meio”, com uma voz tão assustadora que eu me escondia atrás do sofá. Na época, o gato não matava rato, só barata. O Sol está bonito, o que deixa a grama mais verde e bela. Assim, o sangue também brilha bastante, além de parecer mais grosso e malcheiroso.

Se tudo correr bem, amanhã seremos pássaros. Vai ser engraçado ver o brutamonte voar. Ele só pensa em comida, comida, comida, feijoada. O 6º sentido é a maior mentira que inventaram. Somos pau, pedra, terra, água. Nossa! A girafa se curvou diante do nascer do Sol… Quero ver Corinthians e Palmeiras na final do paulistão. Que coisa, a chuva está tirando o pigmento da pele. Sou mais branco do que antes, já não sou o mesmo depois do temporal. Deixei de ser o que sou? “Coitado, pensa que o corte de cabelo e a ginástica têm o poder de transportá-lo a uma outra espécie."

Elástico

Abra o guarda-chuva, por favor. Olhe pra cima, consegue ler o que está escrito? EU, EU, EU, EU. O que você vê? Como você dorme? Não vale responder “de pijama.” Ontem, sonhei que um pirralho me assaltava. Tive dó de bater nele, apenas desviei-me dos tiros. O carro de elástico não foi danificado porque nunca funcionou. Sem música não sou nada. No silêncio tudo fica muito real, sem fantasia. Perde a graça brincar de valorizar ou desvalorizar a representação social.

“Quero estar sempre ao seu lado.” Dei um pontapé em Edgar Allan Poe, não se pode destacar-se tanto numa atividade. “Eu sou um entregador de pizza, como você…” A casa já está pronta? Então vamos derrubá-la, é gostoso ver o construído se misturar ao sujo. Você tem cigarro sem filtro? O de patrão não vale. Alguém pode me explicar por que estas estrelas resplandecem tanto? Acho que pegarei uma com as mãos. “É quente, muito quente, a torta de maçã.” Na boca saudades, não sei mais chorar. Foram os garotos de Liverpool que me ensinaram “I’m the Walrus”, em 1967.

 

criado por Julio Scarparo    15:58 — Arquivado em: Sem categoria

30.3.08

Botões de comando

 

Em algum lugar de nós existe um botão. Pensando bem, talvez existam vários botões. Conheço a função de um deles. Sei porque com freqüência o vejo ser ativado nos outros. Esse comando deve ter a cor vermelha em razão de seu efeito imediato. Sabe quando o avião está caindo e o piloto não tem outra escolha a não ser a de apertar um botão que o faz saltar para, segundos depois, abrir o pára-quedas? Ele funciona mais ou menos assim.

A mulher anda tranqüilamente em uma calçada que é um tapete, diria até macia. O tênis também contribui com a caminhada perfeita, aquela que esquece o relógio e contempla a beleza da lua, do parque e da esperança. A jovem é serena, transmite paz. De repente, a moça bonita se transforma por completo. Sem mais nem menos, dá um cavalo-de-pau esquisito, por causa da baixa velocidade, e acelera o passo como quem está prestes a perder um vôo. Com um tapa em si mesma, gruda uma das mãos na cabeça, olha para o pulso, pede conselho ao relógio, e parte em disparada seguindo a voz do seu destino. “Acabaram de acionar o comando”, penso com os meus botões.

Poucas horas mais tarde, vejo um homem sentado num auditório à espera do palestrante. O desocupado é gordo, careca, tem um rosto muito branco e, bem debaixo do nariz, leva um bigodinho de dar dó. Ele está paralisado. De cabeça inclinada e abraçado à poltrona vazia ao lado, parece que aguarda o par de olhos cair de maduro para voltar a se mexer. Ao seu redor está o restante do público, que também não tem o que fazer. Por isso, eles falam bobagens enquanto esperam o nobre expositor comentar a respeito de como ganhar dinheiro fácil ou ser mais produtivo. Então noto que alguém invisível aperta o botão do gordo, liberando-o para interagir com os demais. Feito mola, ergue a cabeça e começa a falar sem papas na língua, para a infelicidade geral: ele vomita asneira em todos com a pressão de uma supermangueira.

Defeito de fabricação

Um dia alguém aperta o meu botão vermelho, que na mesma hora emperra. Explico: sou de uma remessa que veio com defeito de fabricação. Tive e tenho problemas físicos e psicológicos. Meus dentes da frente, por exemplo, nasceram no céu da boca. Além disso, tenho dedos indicadores estranhos, o direito é diferente do esquerdo, acho que é a unha, sei lá. Agora um exemplo de pane psicológica, digna de recall. Aos quatro anos de idade, só tinha um pensamento: “quero dar o fora daqui, mas como?” Era uma criança desajustada. Estava de saco cheio do que chamam de planeta Terra. Incapaz de ir para Marte ou Júpiter, fui ficando. Mais velho, por volta dos sete ou oito anos, só gostava de três coisas: Bruna Lombardi, Leonardo da Vinci e Corinthians.

Mas voltando ao assunto do botão. Ele emperrou e, para a minha perdição, estou condenado a correr até o fim de meus dias. No entanto, acelero de um jeito diferente dos demais. Por ser excessivamente introvertido (compartilho da mesma opinião do cronista Carlos Heitor Cony, “mais de três pessoas é multidão”), em vez de falar pelos cotovelos, ou dar uma de maratonista, escrevo sem parar. Azar o seu.

criado por Julio Scarparo    16:59 — Arquivado em: Sem categoria

« Posts mais novosPosts mais antigos »
Report abuse Close
Am I a spambot? yes definately
http://ficatempo.blog.terra.com.br
 
 
 
Thank you Close

Sua denúncia foi enviada.

Em breve estaremos processando seu chamado para tomar as providências necessárias. Esperamos que continue aproveitando o serviço e siga participando do Terra Blog.