27.7.08
Torre de Babel
Parte Um: A escada
Sem identificar-se, o jornalista entra no edifício. Está atrasado e o editor-chefe talvez tenha ido embora. Dentro do elevador, uma fraca luz ilumina a porta de madeira, que deve ser fechada manualmente. Luz, porta e vontade lhe fazem optar pela escada, afinal o terceiro andar é pertinho.
Desde criança ele gosta de subir escadas correndo. Aquele caminho pro alto lhe dá a sensação de ser livre, porque não precisa escolher entre esquerda e direita. Também gosta das escadas porque elas o deixam longe das pessoas, ao contrário do elevador, gaiola horrível. Cabos de aço e molas de segurança revelam a fragilidade humana em cada parada.
No segundo lance de escada, mergulhado na escuridão, o rapaz ouve vozes. Não são grunhidos de fantasmas, mas de gente. São duas pessoas conversando, velha e criança. Lembra que detesta ouvir essas duas pontas. Aliás, não gosta de nenhuma voz, nem da própria. Apenas respeita os que falam com olhos e coração.
Apartamento número 9 — indica o mapa feito num papel de pão. Discretamente, o editor-chefe abre a porta. Segundos depois, ele amassa a reportagem do jornalista e lança a bolinha pela janela. Agora só resta ir embora. Após acender um cigarro em frente do edifício, o jornalista teve de optar entre esquerda e direita. Voltar, nunca mais.
Parte Dois: A subida
Ainda em frente do edifício, lembra-se do “nunca mais apareça aqui!”, lançado pela boca da ex-namorada. Como ela mora ali perto, arrisca aparecer novamente. Segundo andar, apartamento 4. Arruma os óculos e bate na porta, a mesma que bateu na sua cara, há três anos.
— Oi, tudo bem? - diz ele.
— Tudo. Entra.
— Pelo que vejo, está de saída.
— Estou. Hoje tem culto na igreja. Vamos?
— Mas eu estou de camiseta…
— E Deus está interessado em moda? Ele acompanha o interior.
— Então eu topo, mas não solte a minha mão. OK?
O templo está forrado de gente. A única chance é a galeria. A escada da galeria é estreita e bastante iluminada. Uns descem sem dificuldades, outros lutam bravamente pelo direito de subir — é o caso dele, em desvantagem como sempre. Tão logo se ajusta na cadeira de plástico, percebe que o pastor não olha pra cima. Em compensação, os crentes do local o engolem com a beira dos olhos. Faz o mesmo.
Talvez por causa da profissão, percebe alguns erros de português lançados pela estranha boca do pastor. Estranha porque era meio oval, de lado. Combina com o dedo em riste, que aponta para um lugar não-identificado. De repente, a pregação começa a encontrar espaço em sua cabeça. A palavra-chave é “discórdia”.
O pregador fala sobre uma das maiores discussões que o mundo já tinha presenciado: a discórdia entre dois apóstolos. De um lado, Paulo — que era íntimo do Homem — do outro, Barnabé, discípulo de ponta. Eles eram tão usados por Deus que, durante a primeira viagem missionária, foram confundidos com os deuses Mercúrio e Júpiter. O motivo da discórdia era Marcos, que abandonara a missão e queria voltar. Segundo Paulo, esse negócio de abandonar o barco de Jesus não era legal. Por isso, o rapaz não retornaria à equipe. Mas Barnabé era flexível, queria porque queria levar o Marcos. O restante da história você encontra em Atos 15.36–41.
Parte Final: A descida
Depois da mensagem, ouve a música de vanguarda dos adolescentes, a benção apostólica e o amém. Agora ele desce a escada. E como ninguém luta para subir, a vantagem da descida perde a graça. Ainda com o pé esquerdo no último degrau, é apresentado ao pastor:
— Pastor, este é meu ex-namorado.
“Ex-namorado” é a senha para o repórter se lembrar dos três dias e dois seios em Ubatuba, verão de 1998.
— Tudo bem, jovem?
— Tudo… Olha… pra dizer a verdade, não está tudo bem. Os editores de hoje gostam de notícias banais. Um deles jogou meu texto pela janela porque não era banal. Pastor, se Deus está em todas as religiões Ele também é banal. Deus é uma bengala banal?
A provocação fora de hora faz a garota arregalar os olhos. Ele próprio se sente o homem mais idiota da face da Terra. Mas o pastor está acostumado a lidar com sujeitos em conflito. Respira fundo e responde:
— Garoto, você ouviu o meu sermão. Os discípulos continuaram o trabalho missionário porque conheciam o inefável amor de Deus. Uma coisa eu aprendi com um pensador chamado Francis Schaeffer, e por isso estou aqui. Ele dizia: “é ridículo afirmar que todas as religiões dizem a mesma coisa, quando, na verdade, discordam no ponto central, acerca de como Deus é .” Rapaz, estude seriamente a Bíblia e a compare com as religiões. Nenhuma prega tanto o amor como o cristianismo. A Bíblia diz que Deus é amor, não bengala. Expressar amor é uma coisa, ser bengala é outra completamente diferente. É difícil entender a diferença entre Pai e bengala?
criado por Julio Scarparo
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