ficatempo

Contos e crônicas como passatempo

13.7.08

A luva é de quem?

 

Nosso corpo é a luva de alguém. Ou é parte do mouse dum internauta, tanto faz. Seja o que for, o fato é que você e eu fazemos o trabalho duro, isto é, botamos a cara pra bater, tocamos na sujeira dos pratos e nos vírus de computador. Em pouco tempo, a luva rasga e o mouse fica obsoleto, o que significa vida curta.

Somente os que são capazes de notar a beleza da vida é que deveriam se manifestar via luva, via mouse. Dessa forma, o mal diminuiria de tamanho. No entanto, os monstros estão por toda parte, dispostos a ferir seus semelhantes. É difícil de acreditar, mas o detentor da luva direita se alegra quando a luva esquerda se rasga. E o botão do lado esquerdo do mouse fica feliz quando o do lado direito dá pau.

Então sugiro lançar todas as luvas e todos os mouses dentro dum imenso saco de lixo preto. Depois, jogar litros e mais litros de álcool ou gasolina. Será só riscar o fósforo mais próximo e jogá-lo no monte. “Mas vamos desperdiçar as boas luvas e os bons mouses?”, alguém perguntaria. Sim, vamos desperdiçar tudo porque uma andorinha só não faz verão.

Leonardo da Vinci

Não declaro a vitória definitiva do mal. Só vejo o que ocorre no âmago da questão. Os filhos de Satã, que são de carne e sangue, continuarão a invadir objetos pra encher o saco. Lamento que outras espécies também sofram com tudo isso. Os porcos mencionados na Bíblia, que se jogaram do precipício, não tinham nada a ver com os demônios, mas pagaram o pato. Pois é. Acho que a maneira como os animais são tratados é uma espécie de termômetro da índole humana. Cito de memória o que Leonardo da Vinci disse: “chegará o dia em que os homens conhecerão o íntimo dos animais. E nesse dia, todo o crime contra um animal será um crime contra a humanidade.”

Em São Paulo, aposto que esse dia demorará muito pra chegar, se chegar. Ontem mesmo eu conversava com um amigo, que contou o seguinte:

- Julio, o cara atropelou o cachorro e seguiu em frente. Os demais carros, que vinham atrás, só se preocupavam em não sujar os pneus. Eu fiquei desesperado. Encostei meu carro e desviei o trânsito pro coitado não ser esmagado de novo. O cão não gritava, apesar das fraturas expostas. Simplesmente o cachorro tentava, mas não conseguia se mover. Morreu na minha frente. Limparam o asfalto com uma pá. Tudo diante de meus olhos e de minha insignificância.

Luva, mouse e automóvel são usados por diversas personalidades. Com um clique dos espíritos de porco, a história se repete. Azar nosso porque todo o sistema operacional está em pane. Assim caminha a humanidade, conseguimos.

criado por Julio Scarparo    19:26 — Arquivado em: Sem categoria

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