ficatempo

Contos e crônicas como passatempo

6.7.08

Três pedras na mão

 

Sócrates permaneceu imóvel por 24 horas, completamente perdido em seus pensamentos, garantem os estudiosos do filósofo grego (470 - 399 a.C.). Guardada as devidas proporções, eu também fiquei imóvel (uns 20 minutinhos, mas fiquei), e perdido em somente um pensamento: “tomara que a minha seja a escolhida, tomara que a minha seja a escolhida.” Era uma tarde de 1984. As três melhores redações seriam lidas na classe. O monte de folhas descansava nas mãos da irmã Petronila, a professora de língua portuguesa da 4ª série do então primário, duma escola de freiras da região do Grande ABC paulista.

Eu vinha dum bom desempenho: uma competição e uma vitória. É que dois anos antes, deixara todos os coleguinhas para trás, ao apresentar uma redação fora do comum. Enquanto todos escreveram sobre “como foram as minhas férias”, eu escrevi a respeito dum gigante formigueiro de vidro. Entre pipas, bolas, praia, papai e mamãe, a professora Elisabeth elegeu a minha descrição das formigas como a melhor de todas. Tudo bem que ganhei a fama de esquisito, que dura até hoje, mas foi uma vitória legal.

A irmã Petronila coloca todos papéis sobre a mesa. “Antes de passarmos para as redações, vamos cantar a música da semana.” Não, ela só pode estar de brincadeira. Como adiar a leitura do meu texto especial, escrito com caneta Pilot preta, com direito a verde no título? Ao contrário de mim, todos optaram pelas tradicionais azul e vermelho.

Atire a primeira

Ela é a autoridade máxima. Então, resignadamente, junto-me a todos no que, para mim, parece um comercial que serve apenas para prolongar a expectativa e aumentar o Ibope. Vou simular que canto. “Crianças, guardem esta letra, quando forem adultos terão saudades desse tempo:”

Atire a primeira pedra quem não tem pecado
Se o seu telhado for de vidro tome cuidadinho
Não jogue pedra no telhado de nenhum vizinho
Que é feito de vidro
Também seu telhado,
Que é feito de vidro
Também seu telhado
Assim, a vida é mais serena
Assim, a vida é mais amena
Quem erra é porque precisa de ser ajudado
Não atire pedra, em nenhum telhado
Não atire pedra, em nenhum telhado
Não atire pedra, em nenhum
Não atire pedra
Não atire
Não
*

Astronautas

Que droga, ela vai ler ou não? Sim, agora ela vai. “Uma redação que eu adorei foi a do Juvenal. “Ouçam: ‘Na feira. Fui comer pastel na feira com papai…’” (Deus do céu! Que lixo, o cara não sabe escrever?) “Outra que eu amei começa assim: ‘Dei um beijo na mamãe no aniversário dela.’” (Não é possível! Que coisa babaca!) “E agora, a última que eu vou ler é a da Bianca: ‘Ganhei no fim de semana uma boneca que fala…’” (Argh!) Lamentavelmente, a Petronila teve a coragem de não ler a minha redação intitulada “Eram os deuses astronautas?”

Pois tá narrado: a minha primeira e única vitória literária, que ocorreu na 2ª série do primário, com “O formigueiro”, e a maior derrota da minha vida, quando ninguém quis saber dos meus astronautas. No finzinho daquela aula, todos me viram atirar as três pedras que tinha na mão: uma na barraca do pastel, outra no bolo de aniversário e a última, bem no meio da testa da boneca que fala…

criado por Julio Scarparo    19:58 — Arquivado em: Sem categoria

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