29.6.08
Sentimento fora do dicionário
Viro a esquina e uma mulher estranha se aproxima de mim para entregar-me um papel que está em sua mão. A folha parece que acabou de ser arrancada dum caderno pequeno. “O senhor é o Julio?” Sim, sim, mas e daí? Assim me chamam há 34 anos. “Sou eu. Qual o problema?” “Pediram pra eu lhe entregar este recado. Toma e lê.” Na hora, lembrei-me da conversão do pervertido filósofo Agostinho de Hipona, lá pelas bandas do quarto século. Ele estava num jardim quando ouviu a voz duma criança dizer: “toma e lê.” O texto era Romanos 13.13 e 14: “Andemos dignamente, como em pleno dia, não em orgias e bebedices, não em impudicícias e dissoluções, não em contendas e ciúmes; mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo, e nada disponhais para a carne, no tocante às suas concupiscências.”
“Será que também acabo de receber uma mensagem do céu?”, penso eu. Observo atentamente o material. A caligrafia é de mulher, a cor da caneta é preta e o texto deve dar mais ou menos uns 700 caracteres, se digitado em Word (sei disso porque sou jornalista, he, he):
Querido Julio, ninguém me conhece, nem poderá conhecer-me depois. De onde estou, sei que você já morreu faz um tempão. Mesmo assim, não há nenhum problema nisso, pelo menos para mim, que viva estou. É que hoje recebi o seguinte ensinamento: ‘como não existe passado ou futuro, ore pelos que já morreram, afinal tudo é hoje - agora - um mesmo instante.’ Por isso, peço a Deus que você, meu querido ancestral, saia do Brasil. Nele, há muita violência e a maioria esmagadora dos políticos é corrupta. Que o Soberano o proteja e guarde sempre. Mudando de assunto: a minha falecida mamãe contava que você era escritor. Deus, não permita que ele abandone esse dom. Que você supere os obstáculos e ganhe notoriedade.
Grande abraço!
Vitória
Ex-colega de trabalho
A carta é completamente maluca. Ora a remetente se dirige a mim, ora se dirige a Deus. Mas tem algo que me deixa com a pulga atrás da orelha. “Como alguém pode saber que tento ser escritor? Nunca mostrei nada do que escrevi pra ninguém. Sou capaz de apostar que meus familiares mal sabem que escrevo crônicas num blog de meia-tigela…”
Todos só sabem o que querem saber. E eu quero saber de almoçar. Desvio-me das pessoas que correm pela estreita calçada e entro no modesto restaurante. Escolho de propósito o lugar mais afastado. Vou reler a carta com calma. “Ou iria reler:”
- Olá, Julio, tudo bom com você?
- Tudo.
- Dando uma passada pela antiga região de trabalho?
- A nostalgia me faz bem. Ela ajuda a enfrentar o futuro com mais dignidade e força.
- Nossa… Que pensamento profundo… Posso ter a honra da sua companhia?
- Por favor, sente-se.
- Como vão as coisas?
- Olha, recebi agorinha mesmo este recado duma maluca. Quer ler?
A bonita morena de cabelo encaracolado lê com atenção a carta enigmática. Ela morde metade dos grossos lábios inferiores, olha para mim com cara de espanto e depois diz:
- Eu acredito nessa tal de Vitória. Acho que ela deve ser uma fã sua.
- Mas eu não tenho fãs por um motivo óbvio: não sei fazer nada digno de nota.
- Corta essa! Até eu tenho um montão de fãs. Sempre influenciamos uma porção de gente, quer queiramos ou não. Vai ver que é apenas uma religiosa desmiolada que admira você.
- Sabia que sou seu fã? Hoje, o Acaso me deu você de bandeja. Não posso ser mal-educado com ele, tenho que desfrutá-la a tarde inteira.
- Então não serei mal-educada também… No mesmo lugar?
- No mesmo lugar.
Popó
Na manhã seguinte saio para trabalhar. Caminho tranqüilamente pela rua deserta que leva ao ponto de ônibus. No outro lado, dois caras surgem do nada, ambos de cabeça baixa. De repente, um deles atravessa a rua e vem em minha direção feito míssil teleguiado ou abelha brava. Em questão de segundos haverá o impacto dos dois corpos. A uma distância de três metros, ele começa a me encarar, ao mesmo tempo em que ginga com as mãos debaixo da camiseta, insinuando que está armado. Olho de relance no parceiro: ele continua de cabeça baixa no outro lado da rua. O rapaz que lutará comigo é de estatura mediana, cabelos tingidos de amarelo e é idêntico ao ex-pugilista Acelino “Popó” Freitas, só que os olhos são claros, acho que azuis.
O rapaz passa por mim como se eu, de súbito, tivesse me tornado invisível. Não olho para trás. Apenas me lembro das palavras da Vitória, que nascerá daqui a algumas décadas: Que o Soberano o proteja e guarde sempre. Pela primeira vez na vida sinto “saudades do futuro” - um sentimento ainda não-rotulado nos dicionário do mundo.
criado por Julio Scarparo
13:16 — Arquivado em: 
