22.6.08
Tudo sob controle
É a segunda metade dos anos de 1980. A festa animada ocorre num prédio sem graça - talvez durante o dia seu aspecto melhore. No momento, colocamos os pés nas 23 horas. As tribos estão bem representadas pelos rapazes que trazem a erva nos bolsos. Em parte, eles são os responsáveis pelo sucesso do encontro. Ao som da banda norueguesa A-ha, que toca We are the one, cada um dá uma baforada no cigarro, até um cabaço acabar com a brincadeira, jogando num ralo dois centímetros da descontração: “o que você fez sua besta! Tinha muito pra queimar ainda! Isso aí não é Hollywood, cara!”
O som continua. A meu pedido, colocam Summer ‘68, do Pink Floyd, que é bem mais adequado ao cachimbo da paz. Como o povo reclama, a agulha da vitrola volta ao pop, trilhando New Order, com a vibrante Blue Monday. O pessoal dança engraçado: cola os joelhos pra depois balançá-los dum lado pro outro, enquanto a mão imita um cisne. Acho que o camarada oxigenado que usa brinco em uma das orelhas é bicha. Mais tarde saberia que era: em meio a putas que descansam na escada, o babaca faz sexo oral em um nordestino iletrado. Da escuridão dos degraus, é possível ouvir Voyage, Voyage, da Desireless.
Depois de passar pela torcida do Corinthians, a chave do apartamento finalmente chega até mim. A garota de cabelo vermelho gosta da idéia de sumirmos da multidão por alguns minutos, “porque tanto barulho já me deu dor de cabeça”, diz com toda a sinceridade do mundo. Mas antes de subir ela quer ouvir a Cyndi Lauper. “Feio, toca True Colors da Cyndi Lauper pra moça, pelo amor de Deus!” A música acaba, mas a noite está apenas começando. Giro a chave e abro a porta. Uma cortina de pedrinhas, ou de sei lá o que, marca a divisão da sala pro quarto. Fomos direto pra cama de casal. “Dá pra ligar o rádio?”, pergunta ela. “Só tem essa porcaria de rádio-relógio, vamos ver se funciona”, respondo. A primeira música que vem da FM é Luka, da Suzanne Vega. E por mais incrível que pareça, a segunda é Here, There and Everywhere, dos Beatles, minha banda predileta. A terceira, a quarta, a quinta, a sexta, assim como todas as demais, eu não me lembro.
Tentação
“A melhor maneira de vencer a tentação é cair nela”, foi o que, mais ou menos, escreveu o Oscar Wilde. Na prática, é a filosofia dos jovens reunidos aqui. Agora, o fundo musical é Build, do Housemartins. É tranqüilo o suficiente pra picharmos o nome de nossos chefes – e no meu caso específico, tenho toda a redação de um jornal pra maldizer, pois sou um “contínuo de redação”, personagem imortalizado pelo Nelson Rodrigues.
Na volta pra casa, em direção à estação de trem, paramos numa praça pra ver a lua cheia com mais atenção. “Ela é tão bonita, impossível Deus não existir”, afirma a moça de cabelos vermelhos. Eu também tenho a mesma impressão:
- Tudo está sob o controle Dele. A gente pode brincar de fazer dinheiro, de tapear os outros, de matar, de fornicar e o diabo, mas tudo está sob controle Dele…
criado por Julio Scarparo
21:59 — Arquivado em: 
