ficatempo

Contos e crônicas como passatempo

15.6.08

Lilith

 

Todas as noites, quando eu volto da faculdade, vejo um morador do bairro jogar um copo d’água no meio da rua. Quando não é ele, é a esposa. “Seria uma espécie de ritual ou apenas o resultado de uma simples goteira?” De qualquer forma, mexeu com a minha curiosidade. Um dia apertei o passo e perguntei:

- Boa noite! Desculpe perguntar, mas por que vocês jogam água na rua todas as noites?

A moça me olha com espanto e engole a saliva. Depois pisca forte, enxuga as mãos na apertada bermuda e diz:

- Não é dá sua conta!

Evidentemente, após a resposta, saio como quem diz: “OK, não está mais aqui quem falou…” Na noite seguinte é a vez de o homem jogar a bendita água. O avisto de longe. Corro e dou o bote:

- Amigo, boa noite! Posso perguntar por que você joga água aqui todos os dias?

- Você acredita em criaturas sobrenaturais?

- Sim.

- Pois bem. Para não nos atormentar com pesadelos, uma dessas criaturas exigiu água. A “chantagem” [ele faz aspas com os dedos] foi feita no início do ano à minha esposa, de madrugada: “enquanto jogares água em frente desta casa, vocês não terão sonhos maus.”

- E vocês acham mesmo que alguém bebe essa água?

- Com certeza a entidade bebe… Ei, eu sei quem você é. É o filho da costureira. Mora no fim da rua, não é?

- Isso mesmo.

- Se quiser entrar, explico mais sobre o fantasma.

Casa velha

A casa não é feia nem bonita. Olhando bem, parece que todos os móveis foram comprados nos anos de 1970. Para mim, um quadro está de ponta-cabeça. Também não sei como vivem sem um livro sequer. No mais, tudo é muito limpo e silencioso. A dona da casa, agora gentil comigo, conta os fatos:

- Aqui desta janela eu a vejo lamber a água que jogamos na rua.

- Como é que é?

- Ela passa por aqui sempre à meia-noite.

- Mas afinal de contas, quem é ela?

- Acho que é um espírito que resolveu morar em casa. E o pior é que ninguém acredita na gente, e quem acredita não sabe como nos ajudar – afirma o marido.

- São onze e meia. Quer esperar pra vê-la? – pergunta a esposa.

- Quero.

O corvo

É chegada a hora. Meia-noite em ponto. Apagamos todas as luzes e espiamos pela janela. Meu Deus do céu! Quem se aproxima da água não pertence à raça humana. A mulher nua que lambe o chão tem pés e asas de coruja. Usa uma coroa estranhíssima, parece feita de vime, tipo cesta de piquenique. Seus cabelos são pretos como as penas de um corvo e a sua pele é cinza. Não sei o que segura em cada uma das mãos, acho que são grandes argolas. Quando se ergue, ela olha em nossa direção. Apresenta o sorriso mais macabro que vi em toda a minha vida. É difícil descrevê-lo, mas vou tentar: num primeiro momento as pontas dos lábios negros sobem ligeiramente, de forma bem discreta. Terrível! Em seguida, ela abre apenas a metade da boca, como quem segura um riso… Tenho medo. Aos poucos, devagar, ela some do nosso campo de visão. Sou o primeiro a falar:

- Como estudei teologia, trombei com vários deuses e demônios. Posso apostar que aquele bicho lá fora se chama Lilith, um demônio feminino que apavorou muitos hebreus no passado. Ela tem o poder de invadir os sonhos das pessoas. É dessa maneira, por exemplo, que ela age para colher as ejaculações noturnas dos homens, os tornando impotentes. Tinham tanto medo dela que recomendavam jogar cinzas ao redor da cama pra ver as pegadas deixadas por esse espírito maligno.

- E como a gente se livra dela?

- Eu não sei.

criado por Julio Scarparo    20:08 — Arquivado em: Sem categoria

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