8.6.08
Maçã do Amor
“Por que tem de terminar assim?”, pergunto. Ela responde: “porque o amor acabou, simples.” Como a casa é dela, pego a mochila e saio andando. O problema é que não conheço nada em Oxford, nem em Londres. Pra dizer a verdade, embora ame a Inglaterra por causa dos Beatles, estou completamente perdido. Mas em vez de me preocupar com um teto ou com a próxima refeição, lembro-me destas palavras do cronista Paulo Mendes Campos: “o amor acaba.” E não é que ele acertou em cheio no meu caso? Infelizmente não soubemos alimentar o relacionamento.
Sem nada mais importante pra fazer, começo a andar. Durante o trajeto para o lugar-nenhum, fantasmas visitam a mente. Para ser mais exato, são vozes que vêm do passado: “você sabe que sempre estarei do seu lado, não sabe?”; sim, eu sei, porém tudo era perfeito demais…; “estou muito doente, mas mesmo assim atravessei o mundo para vê-lo”; boa lembrança, difícil esquecer; “como a data é especial, passei o batom de cor laranja”, legal, combina com a sua pele e cabelo.
C. S. Lewis
De repente, todas as vozes se calam quando me vejo diante do bar The Eagle end the Child. Era nesse pub que, no século passado, C. S. Lewis conversava a respeito de literatura com seus amigos, tipo J. R. R. Tolkien. Sento-me no lugar predileto deles. “Então este é o relógio de parede que era ignorado pelos nobres freqüentadores?” Fizeram bem. Afinal, o tempo passa depressa, mas e daí? Quem se importa? Somos o que somos, apesar da finitude.
Depois da farra dos fantasmas, a mulher de olhos verde-claros volta a invadir a minha cabeça. Buscando respostas, repito para mim mesmo um trecho duma obra de Lewis que decorei de tanto lê-la em três idiomas:
“Uns provavelmente irão sentir, a princípio, um mero apetite sexual por uma mulher e depois passam, num estágio posterior, a ‘sentir amor por ela.’ Mas duvido que isso seja comum. No geral, o que acontece primeiro é simplesmente uma deliciosa preocupação com o ser amado – uma preocupação geral, não-específica, com a mulher total. O homem nessas condições, na verdade, não tem tempo para pensar em sexo, pois está muito ocupado pensando numa pessoa. O fato de ela ser uma mulher é muito menos importante do que ser ela mesma. Ele está cheio de desejo, embora este não tenha uma tonalidade sexual. Se lhe perguntasse o que quer, sua resposta sincera geralmente seria: ‘continuar pensando nela.’ É o amor contemplativo. E quando mais tarde desperta o desejo explicitamente sexual, não irá sentir (a não ser que teorias científicas estejam a influenciá-lo) que desde o princípio fora essa a razão de tudo.”
Jane Birkin no auge
Continuo sem entender o fim do romance. Mas de tudo o que aprendi, uma coisa é certa: os olhares são perigosíssimos. São como as lanças que capturam as baleias dos mares, como disse não sei qual escritor. E o pior é que, se a mulher for parecida com a atriz Jane Birkin, por exemplo, basta uma espiada para a perdição total. (E por falar em Jane Birkin, a revista Joyce Pascowitch traz, na edição desta semana, um ensaio baseado nessa atriz dos anos de 1960.) Bom, falei tudo isso pra dizer que a roda-gigante não pára nunca. Cabe a nós esticarmos o braço para colher a maçã do amor.
criado por Julio Scarparo
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