ficatempo

Contos e crônicas como passatempo

1.6.08

Repelentes de pessoa

 

Acabo de ler uma reportagem escrita por volta de 1904 sobre o dia-a-dia dos cariocas. Talvez Machado de Assis a tenha lido. De qualquer maneira, deu-me vontade de também escrever algo bacana a respeito do nosso cotidiano, aqui na cidade de São Paulo. Como não posso abandonar o emprego de porteiro pra fazer uma reportagem de fôlego, contarei algo que aconteceu comigo ao voltar do trabalho.

O frio começa a soprar em nós, é verdade. Mas o problema não está no frio propriamente dito, pelo menos para mim, um velho homem que possui um teto, dois cobertores e três jaquetas. A dificuldade surge quando ando de ônibus. Basta um ventinho um pouco mais gelado e o povo se recusa veementemente a abrir as janelas. Depois de uns 15 minutos, os vidros estão embaçados para a alegria dos vírus, que pulam facilmente de um corpo a outro.

Entretanto, se todo o problema da condução se resumisse a ser alvo de vírus, nem me importaria. Mas esses parasitas não são os nossos únicos inimigos. No ônibus, um homem de pernas longas e finas, semelhante a um pernilongo, senta-se ao meu lado. Tenho certeza de que ele está a serviço das baratas e dos demais insetos. Acho que foi contratado para vingar a morte dos milhares de pragas que morreram de inseticida. Isso porque, segundos antes de entrar no ônibus, ele passou um litro de perfume barato. Ao respirar esse repelente de pessoas, surge em mim uma violenta dor de cabeça. Ainda sem me recompor, um fumante ingressa no transporte coletivo. Mal passa a catraca, e o cheiro de cinzeiro se espalha como se fosse outro repelente de qualidade. Você não vai acreditar: o maldito se instala bem na minha frente. “Acho que é um complô, querem me aniquilar logo.” E como desgraça pouca é bobagem, atrás dele sobe um cara vestindo roupa molhada, não de chuva, mas de pouco tempo de varal mesmo, e encaixa o traseiro úmido no banco de trás ao meu.

Golpe de misericórdia

É a gota d’água. Com a palma da mão direita, escancaro a janela. Os fedorentos trocam olhares. Eles sabem que o plano foi descoberto, mas agem como se não fedessem. O da frente coça a cabeça portadora de caspa. O de trás espirra na minha nuca. E o do lado exibe as unhas compridas, que contêm toda a sujeira armazenada por um século de imundície.

Os três enviados de Satanás ganham um reforço do sexo feminino. Ela é feia e gorda. Come um pastel de carne com queijo dentro do ônibus, o que impregna o coletivo. Sem assento livre, resolve parar bem do meu lado. Então, sou obrigado a carregar as duas sacolas da gorda, pois não há escolha: ou as carrego ou elas continuarão a bater na minha bochecha por um tempão, além do risco de outra azeitona cair no meu cabelo. Tão logo a gorda engole o pastel, sinto outro cheiro desagradável: o de cândida pura. Não é possível… A esfomeada tomou banho de cândida antes de entrar no coletivo. Estou encurralado: o perfume de litro, o cinzeiro ambulante, o roupa molhada e agora vem essa senhora, que me dá o golpe de misericórdia.

“Então é assim que se sente um inseto quando é envenenado?”, penso. Mais do que depressa, levanto-me e dou sinal pra descer. Nunca imaginei que fosse desejar o ar que vem dos engarrafamentos. Duas horas mais tarde, chego em casa. Minha velha tem um olhar de reprovação. Ela diz:

- Você está fedendo, não está sentindo não?

- Não.

- Vai ver que a idade avançada afetou o seu olfato. Vai tomar banho! Você está fedendo a urina!

- Mas está frio… E quando está frio só tomo banho duas vezes por semana…

- Porco!

criado por Julio Scarparo    20:11 — Arquivado em: Sem categoria

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