ficatempo

Contos e crônicas como passatempo

11.5.08

O Santo Casamenteiro

 

As crianças correm pelas ruas a gritar: “morreu o santo, morreu o santo, morreu o santo.” Sim, o Santo Antônio de Pádua, amigo de São Francisco de Assis, não resiste a uma crise de hidropisia (acumulação de líquido numa parte do corpo) e falece no dia 13 de junho de 1231, na Itália, aos 36 anos de idade, segundo alguns historiadores. Por que escrevo sobre isso? Não sei. Talvez porque hoje tenha me lembrado de pelo menos dois dons que ele tinha: o da oratória e o da ubiqüidade.

O primeiro você conhece. Quem domina a oratória carrega um auditório inteiro na palma da mão. A platéia nem pisca e só ri quando você dá o comando. O mesmo acontece com o choro. As lágrimas seguem à risca o script do palestrante. À medida que o orador vai falando, a massa vai fazendo “sins” com a cabeça. É engraçado. Concordam com tudo o que ouvem porque a mensagem está certinha, a lógica é perfeita, o maniqueísmo é bem bolado.

Desconheço as técnicas retóricas utilizadas por Santo Antônio. Só me disseram que o púlpito dele não era tão bacana quanto o do santo brasileiro, Frei Galvão, que tinha um banco embutido, como podemos ver no Museu de Arte Sacra de São Paulo. Mas não são todos os que gostam de pregar sentados. De pé, numa tarde ensolarada, Santo Antônio faz gestos e muda a entonação da voz, enquanto fala a respeito da injustiça social, diante de uma multidão magnetizada.

Milagre

Foi então que todos se espantam ao vê-lo cruzar os braços sobre o púlpito para em seguida descansar a cabeça. Ninguém entende a pausa. “Será que ele está passando mal?”, pergunta uma doméstica da época. Um menino, ao levar um copo d’água ao pregador, como orientou a mãe, puxa as vestes do Santo e diz “tio, tio, toma água.” Mas nada. O homem não se move. De repente, o Santo se recompõe e dá continuidade à explanação do texto bíblico.

No outro dia, uma notícia toma conta da cidade: na tarde anterior, com uma poderosa argumentação, Santo Antônio de Pádua livra o pai de ser enforcado. Provou por A mais B que o pai não tinha matado ninguém. Para não deixar nenhuma dúvida, o argumento B do Santo foi um milagre: ele teria levantado dos mortos o dito-cujo assassinado. “Mas isso não pode ter acontecido, eu o vi pregar ontem para nós, ele até passou mal”, afirmou a doméstica ao filho da vizinha. “A senhora está enganada, ele foi o advogado de defesa do pai, vi tudo com estes olhos que a terra há de comer”, garantiu o filho da vizinha, um dos vários que comentaram o livramento da forca e a ressurreição do dito-cujo. As imagens dos milagres de Santo Antônio foram feitas pelo espanhol Francisco Goya.

A doméstica e o filho da vizinha não desconfiaram que naquele dia o Santo colocou em prática o dom da ubiqüidade, isto é, a capacidade de estar em dois locais ao mesmo tempo. Sabe que não é uma má idéia? Já que o Santo Antônio é também o santo casamenteiro, aproveito para pedir esta benção: quero receber o dom da ubiqüidade para estar agora ao lado da mais bela leitora do meu blog. 10, 9, 8, 7, 6, 5, (ainda não funcionou), 4…

criado por Julio Scarparo    17:48 — Arquivado em: Sem categoria

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