ficatempo

Contos e crônicas como passatempo

25.5.08

Perigosa Emília

 

Mesmo dentro do carro, a voz dela combina com o som da chuva e do vento. Meu rival, o outro pretendente, está debaixo da árvore, esperando que a conversa passe logo. Quanto a mim, estou bem tranqüilo. Poderia ouvi-la durante toda a eternidade, desde que prometa não evaporar de novo.

Ela diz que vai embora quando quiser porque tomou gosto pela liberdade. “Não quero ninguém vivendo na minha sombra”, explica. Respondo que a única sombra assombrada vem do imbecil que toma chuva lá fora. “O cara tem problema. Acho que o excesso de academia diminuiu-lhe o cérebro.” Ela o defende: “músculos são melhores do que a arrogância.” Que seja. “Mas o fato é que ele tem problema mental”, insisto. “Querido, ser terrivelmente feio não significa ser portador de debilidade mental. Prefiro um feio do meu lado a um homem que se ache o mais lindo do mundo.” Disparo: “então por que se perde quando olha para mim?”

A moça, que é semelhante à atriz Faye Dunaway, ergue os olhos para o teto do carro, como quem é acertado em cheio por uma bala. “Estou confusa.” Mas eu não. Tenho de aproveitar o momento de fragilidade e indecisão. Ligo o automóvel, engato a primeira, abaixo o freio de mão. O horroroso ficará a ver navios. Ou pelo menos essa era a intenção. “Quer desligar… Quer desligar esta porcaria?”, exige ela, demonstrando que continua no comando da situação. Puxo o freio de mão, ponto morto, e silêncio novamente. Droga…

Destino

“Chega de brincadeira. Escolha um de nós dois e ponto. É só isso que lhe peço”, digo com firmeza. “Que rapaz decidido… Para a sua informação, eu não sou um de seus textos de jornal, que lhe obedecem, porém se quiser escrever sobre nós, coloque este título: ‘linda mulher escolhe os dois.’”

- Por favor, sem ironia.

- Com ironia! Se o destino é irônico, por que não eu?

- O destino não é irônico, ele somente está a serviço da Providência Divina. A impressão de ironia vem de observarmos uma determinada contingência por apenas um ângulo.

- Ai meu Deus… Guarde no bolso as suas teorias de ex-seminarista. Então o que me diz de o Superman (o Christopher Reeve) cair do cavalo e ficar tetraplégico? O homem de aço agonizou por quase dez anos em uma cadeira de rodas. Careca, teve um infarto e finalmente morreu em 2004, se não me engano. E se quer outro exemplo, lhe dou: o que dizer sobre o Titanic? Será que a frase “nem Deus afunda o Titanic” despertou a vingança divina? Ia parar por aqui, porém lembrei-me de que o famoso escritor argentino, Jorge Luis Borges, ficou cego. Basicamente a mãe e um assessor de confiança é que ficavam lendo pra ele e escrevendo o que ditava…

Tchau

Com tanta filosofia de botequim, percebi que a conversa havia saído dos trilhos:

- Está ficando tarde. Vou deixá-la na companhia do homem mais feio do Universo, OK?

- Obrigada, querido. A fila anda.

- Só mais uma coisa. Sabe por que estou tirando o meu time de campo? Porque no fundo, tenho medo de você. Sem papas na língua, é tão briguenta e impulsiva quanto a personagem Emília, do Sítio do Picapau Amarelo. O pior é que você também guarda semelhança com a atriz que interpretou a boneca de pano, Reny de Oliveira. Ela se perdeu numa ética esquisita. Sabia que Reny posou para a Playboy em 1984, pouco depois de deixar o Sítio? A carreira dela terminou aí. Com curiosidade, acompanharei de longe o que o destino lhe aprontará. Pode ir. Tchau.

criado por Julio Scarparo    16:38 — Arquivado em: Sem categoria

18.5.08

Luz amiga

 

A desavisada luz não conseguiu fazer a curva porque corria a 300 mil quilômetros por segundo. Entrou direto no tão falado e pouco conhecido buraco negro. Agora terá de se virar. Sem a presença do Sol, a luz está sozinha. O pequeno ponto luminoso segue em frente resignado, tal como nos encontramos nos fins de tarde. Mas ela é nova, ainda acredita na alegria circense dos elefantes, leões e chipanzés que também foram capturados.

Durante a trajetória para o desconhecido, ela se encanta com o próprio brilho, embora reconheça que, tempos atrás, era bem mais reluzente. “Antes a minha passagem provocava reações positivas, eu era a moldura de todas as satisfações, agora parece que não agrado tanto.” Coitadinha, ninguém falou pra você que a natureza desbota o colorido do nosso ser?

Enquanto a queda parece distante, dance a música do Universo. Ouça a expansão, se estique com ele. Mastigue o cosmos, adube as estrelas. Brinque com os pequenos raios de Sol, gire sem parar. A sua testa é sagrada. Conte para mim como é ter uma calda galáctica. É verdade que os cometas lhe mandam flores? Você é bonita quando dá gargalhada.

Barreira

Cuidado! VIRE, VIRE, VIRE, A MATÉRIA ESCURA ESTÁ BEM AÍ… Maldita barreira… A colisão foi violenta… Eu gostaria de ter alertado sobre essa matéria que é invisível porque não reflete luz. Apesar do grave acidente, a cambaleante luz dá seqüência à viagem, mas sem aquela estrondosa potência. Por mais que pise, não sai dos 50 por hora. Um carro mil dos anos de 1990, com cinco pessoas dentro, a ultrapassaria tranqüilamente.

O caminho de volta não existe. Todos os lugares são apenas um. A própria natureza não tem tanto poder assim. Ela é somente parte da realidade. “Você apagou? Cadê você minha amiga? Ainda hoje a vi passar, estava contente por continuar andando. Lembro-me de seus olhos: eram vida. Duvido que algo consiga vazá-los. Aguarde por mim, prometo que a encontrarei.”

 

criado por Julio Scarparo    18:34 — Arquivado em: Sem categoria

11.5.08

O Santo Casamenteiro

 

As crianças correm pelas ruas a gritar: “morreu o santo, morreu o santo, morreu o santo.” Sim, o Santo Antônio de Pádua, amigo de São Francisco de Assis, não resiste a uma crise de hidropisia (acumulação de líquido numa parte do corpo) e falece no dia 13 de junho de 1231, na Itália, aos 36 anos de idade, segundo alguns historiadores. Por que escrevo sobre isso? Não sei. Talvez porque hoje tenha me lembrado de pelo menos dois dons que ele tinha: o da oratória e o da ubiqüidade.

O primeiro você conhece. Quem domina a oratória carrega um auditório inteiro na palma da mão. A platéia nem pisca e só ri quando você dá o comando. O mesmo acontece com o choro. As lágrimas seguem à risca o script do palestrante. À medida que o orador vai falando, a massa vai fazendo “sins” com a cabeça. É engraçado. Concordam com tudo o que ouvem porque a mensagem está certinha, a lógica é perfeita, o maniqueísmo é bem bolado.

Desconheço as técnicas retóricas utilizadas por Santo Antônio. Só me disseram que o púlpito dele não era tão bacana quanto o do santo brasileiro, Frei Galvão, que tinha um banco embutido, como podemos ver no Museu de Arte Sacra de São Paulo. Mas não são todos os que gostam de pregar sentados. De pé, numa tarde ensolarada, Santo Antônio faz gestos e muda a entonação da voz, enquanto fala a respeito da injustiça social, diante de uma multidão magnetizada.

Milagre

Foi então que todos se espantam ao vê-lo cruzar os braços sobre o púlpito para em seguida descansar a cabeça. Ninguém entende a pausa. “Será que ele está passando mal?”, pergunta uma doméstica da época. Um menino, ao levar um copo d’água ao pregador, como orientou a mãe, puxa as vestes do Santo e diz “tio, tio, toma água.” Mas nada. O homem não se move. De repente, o Santo se recompõe e dá continuidade à explanação do texto bíblico.

No outro dia, uma notícia toma conta da cidade: na tarde anterior, com uma poderosa argumentação, Santo Antônio de Pádua livra o pai de ser enforcado. Provou por A mais B que o pai não tinha matado ninguém. Para não deixar nenhuma dúvida, o argumento B do Santo foi um milagre: ele teria levantado dos mortos o dito-cujo assassinado. “Mas isso não pode ter acontecido, eu o vi pregar ontem para nós, ele até passou mal”, afirmou a doméstica ao filho da vizinha. “A senhora está enganada, ele foi o advogado de defesa do pai, vi tudo com estes olhos que a terra há de comer”, garantiu o filho da vizinha, um dos vários que comentaram o livramento da forca e a ressurreição do dito-cujo. As imagens dos milagres de Santo Antônio foram feitas pelo espanhol Francisco Goya.

A doméstica e o filho da vizinha não desconfiaram que naquele dia o Santo colocou em prática o dom da ubiqüidade, isto é, a capacidade de estar em dois locais ao mesmo tempo. Sabe que não é uma má idéia? Já que o Santo Antônio é também o santo casamenteiro, aproveito para pedir esta benção: quero receber o dom da ubiqüidade para estar agora ao lado da mais bela leitora do meu blog. 10, 9, 8, 7, 6, 5, (ainda não funcionou), 4…

criado por Julio Scarparo    17:48 — Arquivado em: Sem categoria

4.5.08

Grimbled Gromble

 

Era quarta-feira, véspera de feriado. Todos felizes pra fazerem o que bem entender. No meu caso, preferi aproveitar o período pra ler Moby Dick. A poltrona eleita foi a da chácara porque é a mais confortável que conheço. Enquanto todos se divertem na piscina, faço uma pausa na leitura e vou caminhar um pouco. De súbito, ouço pés que esmagam folhas secas, mas não vejo ninguém. Acendo um cigarro, por não ter outra testemunha a invocar, e sigo em frente.

Próximo do laguinho feio, um troço dispara na diagonal. “Será um camundongo ou um esquilo?” Paro e observo as árvores. Elas também devem ter visto aquilo correr. Novamente surge o barulho das folhas secas, porém agora atrás de mim. “Deve ser apenas impressão.” Sento-me no banco de madeira feito pelo avô, anos atrás. Olho o céu aberto e depois vejo o lago brilhante. “Isso não é bom?”, digo pra mim mesmo. Quebrando a paz do ambiente, uma pedrinha acerta a ponta do meu nariz. Em seguida, os lábios são o alvo. “Está claro que não se trata de coincidência, mas de uma brincadeira sem graça.”

Cambalhota

Com os olhos, reconstruo a trajetória das pedrinhas. Chego à estátua de um gnomo e, de cócoras, a observo. Sabe aqueles duendes que aparecem na capa do CD “All things must pass”, do George Harrison? Então, o gnomo é idêntico ao que se encontra no fundo à direita do ex-beatle. Está com os braços cruzados na grama, de cabeça erguida, com um semblante de quem acaba de fazer travessura. A enorme barba branca não toca o solo. Enquanto reparo nos detalhes, a imagem pisca para mim. O susto me faz dar uma cambalhota ao contrário.

Tiro a terra da camiseta, respiro fundo e procuro o gnomo, que veste túnica escarlate e usa uma touca azul-esverdeada. Um toque na batata da perna me deixa gelado:

- Olá grandalhão!

- O que é você?

- Não seria melhor perguntar “quem sou eu”?

- Estou sonhando, logo acordarei…

- Enquanto não acorda, me responda, por favor. Onde posso deixar o tempo passar sem problemas?

- Como?

- Eu só quero ar puro, beber vinho, comer e dormir.

- Qual o seu nome?

- Grimbled Gromble.

- Grimbled, diga-me uma coisa: é verdade que os gnomos têm tesouros escondidos?

- Sim.

- Que tipo de vinho você quer tomar?

- Qualquer um, desde que a garrafa seja aberta na presença de Syd Barrett.

criado por Julio Scarparo    19:15 — Arquivado em: Sem categoria

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