13.4.08
A garota da motocicleta
Eu vi os cinco numa esquina clara. Um deles raspava o muro pichado com a sola da bota. Pelos semblantes, pareciam que jogavam conversa fora. A loira é um arco-íris, segundo Jagger. Olhando assim meio de longe, tive a impressão de que a vida é um presente único. O mais engraçado de tudo é que ninguém percebia que ali se dava o nascimento duma nova percepção das coisas. A partir daquela noite de Lua, as cores voltariam a reinar no corpo dos homens. Os colares, as pulseiras e os longos cabelos medievais ressurgiriam com força.
Com o passar do tempo, eu envelheci. Mas eles não. Continuam apoiados naquele muro, sem eira nem beira. Seriam feitos de mármore? As canções estão por aí, é só fechar os olhos para ouvir. Eles ainda se apresentam perto de casa, o que contribui para a derrubada de ternos, gravatas e canetas. Não quero ver a sua assinatura. Vamos almoçar sempre juntos e o resto será conseqüência.
Na roda, a garota da motocicleta, aquela que teve um caso com Alain Delon, pede a palavra. Ela veste um macacão de couro preto e pilota como ninguém. Essa loira tem passagem livre entre os rapazes porque namora o líder de uma banda amiga. Ambos os grupos se encontram com freqüência, produzindo um caldo espiritual delicioso. “Podemos assistir à apresentação de “All you need is love?”, ela pergunta.
Assim como Lennon, o maior guitarrista que conheço está no Japão. Bem verdade que também deixou o instrumento atrás da porta, mas prometeu voltar a tocar. Aposto que os músicos acabarão se encontrando em um restaurante. Quanto a mim, fico na saudade do som e da companhia.
criado por Julio Scarparo
15:43 — Arquivado em: 
