6.4.08
Sou o entregador de pizza
Estranho que todos os orelhões da cidade estejam ocupados. Sento-me na praça e aguardo a minha vez. Não que eu queira ligar para alguém, detesto telefones. “O senhor prefere bem ou mal passado?”, pergunta o garçom. Respondo que não importa, “o importante é juntar forças para prosseguir.” Gosto da maneira com que os animais descansam. Enquanto me seguro para não cair no ônibus intermunicipal, o gato dorme no sofá. Os ratos sempre estarão no meio de nós.
Sou um entregador de pizza. Você também é, só que faz do seu jeito. Vejo um moinho de gente, é pra lá que vou, tal como os bichos que, ao nascerem na areia, correm para o mar. No céu uma armadilha está preparada: quem foi um mau menino ficará sem bolo de chocolate até se arrepender. “E no meu caso, que sou falsificado de nascença?” O policial diz que seremos todos apreendidos. “Alguém viu o meu avental?” Talvez esteja dentro do maior formigueiro do Jardim. “Fernanda continua morando lá?” Toda a vez que tento pular, abro os braços, mas agora preciso levantá-los para segurar-me no galho mais grosso da árvore de casa.
Deu zebra
Desculpe moça, mas você deixou cair a sua calça. “Tudo bem, estou sem meias.” Eu durmo sem cobertor, porém quando esfria não abro mão de um edredom antialérgico. “Olha lá! Por que eles estão correndo?” Lembro-me da Zebra do programa Fantástico, da TV Globo. Ela dizia “coluna do meio”, com uma voz tão assustadora que eu me escondia atrás do sofá. Na época, o gato não matava rato, só barata. O Sol está bonito, o que deixa a grama mais verde e bela. Assim, o sangue também brilha bastante, além de parecer mais grosso e malcheiroso.
Se tudo correr bem, amanhã seremos pássaros. Vai ser engraçado ver o brutamonte voar. Ele só pensa em comida, comida, comida, feijoada. O 6º sentido é a maior mentira que inventaram. Somos pau, pedra, terra, água. Nossa! A girafa se curvou diante do nascer do Sol… Quero ver Corinthians e Palmeiras na final do paulistão. Que coisa, a chuva está tirando o pigmento da pele. Sou mais branco do que antes, já não sou o mesmo depois do temporal. Deixei de ser o que sou? “Coitado, pensa que o corte de cabelo e a ginástica têm o poder de transportá-lo a uma outra espécie."
Elástico
Abra o guarda-chuva, por favor. Olhe pra cima, consegue ler o que está escrito? EU, EU, EU, EU. O que você vê? Como você dorme? Não vale responder “de pijama.” Ontem, sonhei que um pirralho me assaltava. Tive dó de bater nele, apenas desviei-me dos tiros. O carro de elástico não foi danificado porque nunca funcionou. Sem música não sou nada. No silêncio tudo fica muito real, sem fantasia. Perde a graça brincar de valorizar ou desvalorizar a representação social.
“Quero estar sempre ao seu lado.” Dei um pontapé em Edgar Allan Poe, não se pode destacar-se tanto numa atividade. “Eu sou um entregador de pizza, como você…” A casa já está pronta? Então vamos derrubá-la, é gostoso ver o construído se misturar ao sujo. Você tem cigarro sem filtro? O de patrão não vale. Alguém pode me explicar por que estas estrelas resplandecem tanto? Acho que pegarei uma com as mãos. “É quente, muito quente, a torta de maçã.” Na boca saudades, não sei mais chorar. Foram os garotos de Liverpool que me ensinaram “I’m the Walrus”, em 1967.
criado por Julio Scarparo
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