ficatempo

Contos e crônicas como passatempo

28.4.08

Elvis morreu

 

23h13 de quinta-feira passada. Elvis Presley encaixa seu automóvel numa estreita garagem de São Caetano do Sul, região do Grande ABC paulista. Minutos antes, com os pés sobre a mesa dum bar, ele assistia à televisão, enquanto engolia um bolinho de carne, seu salgado predileto desde os 15 anos de idade.

Dentro de casa, lava o rosto e as mãos; em seguida deita-se no quintal. O céu está limpo e as estrelas se exibem. Elvis olha, olha e pensa: “há centenas de anos alguém - bem aqui onde estou - também contemplou essas luzes. Daqui a cem anos outro estará neste meu lugar e dirá o mesmo.” Elvis não pode fazer nada. Passará como todos os reis.

Volta triste para o banheiro. A máscara de Elvis acaba de perder a graça. Pega uma tesoura, corta o topete. Com uma lâmina de barbear, arranca a comprida costeleta, da qual tanto se orgulhava. “Na verdade, era também uma homenagem à Chuck Berry e ao John Lennon.” Agora, Elvis não se reconhece porque não se parece com mais ninguém. “Sinto-me um fantasma perdido em São Caetano. Observo que a fala de cada um nada mais é do que excrescência: o que falamos não importa, o que precisamos saber já sabemos. Estou pelado e não há motivo algum pra me fantasiar novamente.”

Onde está Brigitte Bardot?

Resolve dar uma volta de carro. “É madrugada, mas que diferença faz?” Com a marcha à ré engatada, vê pelo retrovisor uma barreira humana que impede a sua saída: um velho de bengala está parado ganhando fôlego. “Vou perguntar se ele está bem.” Puxo o freio de mão e saio do automóvel. Quando o encaro, não consigo falar nada. O fato de ele estar desmontando na minha frente, na frente de todos, mostrando ao vivo o espetáculo da decadência humana, já diz tudo. “Onde foi parar a Brigitte Bardot dos anos de 1960?”

Diálogo iluminado

Mesmo assim, me esforço pra ser civilizado: “quer que eu o ajude?” Sei que ele não espera mais nada de ninguém e muito menos de mim. Cansou de se machucar com as palavras e as ações de seus semelhantes. No fundo, aposto que me considera um mero boneco de massa que, até o momento, ainda tem aceitação no mercado. De súbito, o velho abre a boca e diz:

- A sua vitória não quer dizer nada porque eu e você nos perdemos, a raça humana se perdeu!

- Não! Eu me encontrei hoje! As estrelas vieram de longe pra me contar que…

- Contar o que meu jovem?

- Pra me contar que eu partirei em breve…

- E daí? Qual a novidade disso?

- Perdoe-me, mas não sei quem sou…

- Eu também não. Entretanto, guardo isso comigo.

- Elvis Presley também não sabia quem era?

- Quem é Elvis Presley?

criado por Julio Scarparo    21:14 — Arquivado em: Sem categoria

21.4.08

Twilight Zone e Poltergeist

 

“Há uma quinta dimensão além daquelas conhecidas pelo homem. É uma dimensão tão vasta quanto o espaço e tão desprovida de tempo quanto o infinito; um espaço intermediário entre a luz e a sombra, a ciência e a superstição, e que se situa em algum lugar entre o abismo dos terrores do homem e o cume de seus conhecimentos. Uma dimensão da fantasia; uma região além da imaginação.”

Essas palavras fazem parte da abertura do antigo seriado de televisão Twilight Zone. Exibido em preto-e-branco, a série apresentou o medo e o suspense a várias gerações. As histórias vão desde manequins que circulam em lojas, passa por seres de outros planetas, até ao dia em que Adão conhece Eva. Sobretudo, os temas levam o telespectador a refletir sobre questões existenciais ou simplesmente a pensar na grandeza do amor.

Steven Spielberg

Dos 156 episódios que foram ao ar nos cinco anos de duração da série, de 1959 a 1964, noventa e dois foram escritos por Rod Serling, o criador de Além da Imaginação, nome que a série norte-americana ganhou no Brasil. Uma dessas histórias, Little Girl Lost, transmitida pela primeira vez no dia 16 de março de 1962, nos EUA, foi usada como base para o cineasta Steven Spielberg escrever e produzir o filme Poltergeist, de 1982.

Abro um parêntese para afirmar que Poltergeist é um clássico. Conheço gente que jamais assiste a essa película de noite. Para muitos é impossível ver Poltergeist sozinho, independente da hora. No longa-metragem, a criança Carol Anne é levada à outra dimensão por meio de um aparelho de TV. Quando a paranormal baixinha entra em cena, a fim de resgatar Carol, o negócio fica pra lá de assustador…

Maldição

Segundo dizem, há uma maldição que acompanha o elenco de Poltergeist. Exemplos? Logo após as filmagens, falece no dia 4 de novembro de 1982, aos 22 anos de idade, a atriz Dominique Dunne, que fez o papel da irmã de Carol Anne, Dana Freeling. Ela foi estrangulada pelo namorado John Sweeney. E a própria loirinha Carol, que na vida real se chamava Heather Michele O’Rourke, morre aos 12 anos de idade, no dia 1º de fevereiro de 1988. De acordo com algumas fontes, ela não teria conseguido se livrar de uma giárdia, isto é, de um protozoário microscópico que causa vômitos, diarréias e impede o corpo de absorver os nutrientes dos alimentos.

Na verdade, eu não ia escrever nem sobre Além da Imaginação, nem sobre Poltergeist. Apenas ia dizer que tive vontade de contar a Rod Serling (o criador do Além da Imaginação) algo muito sobrenatural que aconteceu comigo nesta semana. Mas como Rod foi enterrado em 1975, acho que eu mesmo terei que registrar a história. No entanto, isso fica pra uma outra postagem.

criado por Julio Scarparo    21:46 — Arquivado em: Sem categoria

13.4.08

A garota da motocicleta

 

Eu vi os cinco numa esquina clara. Um deles raspava o muro pichado com a sola da bota. Pelos semblantes, pareciam que jogavam conversa fora. A loira é um arco-íris, segundo Jagger. Olhando assim meio de longe, tive a impressão de que a vida é um presente único. O mais engraçado de tudo é que ninguém percebia que ali se dava o nascimento duma nova percepção das coisas. A partir daquela noite de Lua, as cores voltariam a reinar no corpo dos homens. Os colares, as pulseiras e os longos cabelos medievais ressurgiriam com força.

Com o passar do tempo, eu envelheci. Mas eles não. Continuam apoiados naquele muro, sem eira nem beira. Seriam feitos de mármore? As canções estão por aí, é só fechar os olhos para ouvir. Eles ainda se apresentam perto de casa, o que contribui para a derrubada de ternos, gravatas e canetas. Não quero ver a sua assinatura. Vamos almoçar sempre juntos e o resto será conseqüência.

Na roda, a garota da motocicleta, aquela que teve um caso com Alain Delon, pede a palavra. Ela veste um macacão de couro preto e pilota como ninguém. Essa loira tem passagem livre entre os rapazes porque namora o líder de uma banda amiga. Ambos os grupos se encontram com freqüência, produzindo um caldo espiritual delicioso. “Podemos assistir à apresentação de “All you need is love?”, ela pergunta.

Assim como Lennon, o maior guitarrista que conheço está no Japão. Bem verdade que também deixou o instrumento atrás da porta, mas prometeu voltar a tocar. Aposto que os músicos acabarão se encontrando em um restaurante. Quanto a mim, fico na saudade do som e da companhia.

criado por Julio Scarparo    15:43 — Arquivado em: Sem categoria

6.4.08

Sou o entregador de pizza

 

Estranho que todos os orelhões da cidade estejam ocupados. Sento-me na praça e aguardo a minha vez. Não que eu queira ligar para alguém, detesto telefones. “O senhor prefere bem ou mal passado?”, pergunta o garçom. Respondo que não importa, “o importante é juntar forças para prosseguir.” Gosto da maneira com que os animais descansam. Enquanto me seguro para não cair no ônibus intermunicipal, o gato dorme no sofá. Os ratos sempre estarão no meio de nós.

Sou um entregador de pizza. Você também é, só que faz do seu jeito. Vejo um moinho de gente, é pra lá que vou, tal como os bichos que, ao nascerem na areia, correm para o mar. No céu uma armadilha está preparada: quem foi um mau menino ficará sem bolo de chocolate até se arrepender. “E no meu caso, que sou falsificado de nascença?” O policial diz que seremos todos apreendidos. “Alguém viu o meu avental?” Talvez esteja dentro do maior formigueiro do Jardim. “Fernanda continua morando lá?” Toda a vez que tento pular, abro os braços, mas agora preciso levantá-los para segurar-me no galho mais grosso da árvore de casa.

Deu zebra

Desculpe moça, mas você deixou cair a sua calça. “Tudo bem, estou sem meias.” Eu durmo sem cobertor, porém quando esfria não abro mão de um edredom antialérgico. “Olha lá! Por que eles estão correndo?” Lembro-me da Zebra do programa Fantástico, da TV Globo. Ela dizia “coluna do meio”, com uma voz tão assustadora que eu me escondia atrás do sofá. Na época, o gato não matava rato, só barata. O Sol está bonito, o que deixa a grama mais verde e bela. Assim, o sangue também brilha bastante, além de parecer mais grosso e malcheiroso.

Se tudo correr bem, amanhã seremos pássaros. Vai ser engraçado ver o brutamonte voar. Ele só pensa em comida, comida, comida, feijoada. O 6º sentido é a maior mentira que inventaram. Somos pau, pedra, terra, água. Nossa! A girafa se curvou diante do nascer do Sol… Quero ver Corinthians e Palmeiras na final do paulistão. Que coisa, a chuva está tirando o pigmento da pele. Sou mais branco do que antes, já não sou o mesmo depois do temporal. Deixei de ser o que sou? “Coitado, pensa que o corte de cabelo e a ginástica têm o poder de transportá-lo a uma outra espécie."

Elástico

Abra o guarda-chuva, por favor. Olhe pra cima, consegue ler o que está escrito? EU, EU, EU, EU. O que você vê? Como você dorme? Não vale responder “de pijama.” Ontem, sonhei que um pirralho me assaltava. Tive dó de bater nele, apenas desviei-me dos tiros. O carro de elástico não foi danificado porque nunca funcionou. Sem música não sou nada. No silêncio tudo fica muito real, sem fantasia. Perde a graça brincar de valorizar ou desvalorizar a representação social.

“Quero estar sempre ao seu lado.” Dei um pontapé em Edgar Allan Poe, não se pode destacar-se tanto numa atividade. “Eu sou um entregador de pizza, como você…” A casa já está pronta? Então vamos derrubá-la, é gostoso ver o construído se misturar ao sujo. Você tem cigarro sem filtro? O de patrão não vale. Alguém pode me explicar por que estas estrelas resplandecem tanto? Acho que pegarei uma com as mãos. “É quente, muito quente, a torta de maçã.” Na boca saudades, não sei mais chorar. Foram os garotos de Liverpool que me ensinaram “I’m the Walrus”, em 1967.

 

criado por Julio Scarparo    15:58 — Arquivado em: Sem categoria

Report abuse Close
Am I a spambot? yes definately
http://ficatempo.blog.terra.com.br
 
 
 
Thank you Close

Sua denúncia foi enviada.

Em breve estaremos processando seu chamado para tomar as providências necessárias. Esperamos que continue aproveitando o serviço e siga participando do Terra Blog.