30.3.08
Botões de comando
Em algum lugar de nós existe um botão. Pensando bem, talvez existam vários botões. Conheço a função de um deles. Sei porque com freqüência o vejo ser ativado nos outros. Esse comando deve ter a cor vermelha em razão de seu efeito imediato. Sabe quando o avião está caindo e o piloto não tem outra escolha a não ser a de apertar um botão que o faz saltar para, segundos depois, abrir o pára-quedas? Ele funciona mais ou menos assim.
A mulher anda tranqüilamente em uma calçada que é um tapete, diria até macia. O tênis também contribui com a caminhada perfeita, aquela que esquece o relógio e contempla a beleza da lua, do parque e da esperança. A jovem é serena, transmite paz. De repente, a moça bonita se transforma por completo. Sem mais nem menos, dá um cavalo-de-pau esquisito, por causa da baixa velocidade, e acelera o passo como quem está prestes a perder um vôo. Com um tapa em si mesma, gruda uma das mãos na cabeça, olha para o pulso, pede conselho ao relógio, e parte em disparada seguindo a voz do seu destino. “Acabaram de acionar o comando”, penso com os meus botões.
Poucas horas mais tarde, vejo um homem sentado num auditório à espera do palestrante. O desocupado é gordo, careca, tem um rosto muito branco e, bem debaixo do nariz, leva um bigodinho de dar dó. Ele está paralisado. De cabeça inclinada e abraçado à poltrona vazia ao lado, parece que aguarda o par de olhos cair de maduro para voltar a se mexer. Ao seu redor está o restante do público, que também não tem o que fazer. Por isso, eles falam bobagens enquanto esperam o nobre expositor comentar a respeito de como ganhar dinheiro fácil ou ser mais produtivo. Então noto que alguém invisível aperta o botão do gordo, liberando-o para interagir com os demais. Feito mola, ergue a cabeça e começa a falar sem papas na língua, para a infelicidade geral: ele vomita asneira em todos com a pressão de uma supermangueira.
Defeito de fabricação
Um dia alguém aperta o meu botão vermelho, que na mesma hora emperra. Explico: sou de uma remessa que veio com defeito de fabricação. Tive e tenho problemas físicos e psicológicos. Meus dentes da frente, por exemplo, nasceram no céu da boca. Além disso, tenho dedos indicadores estranhos, o direito é diferente do esquerdo, acho que é a unha, sei lá. Agora um exemplo de pane psicológica, digna de recall. Aos quatro anos de idade, só tinha um pensamento: “quero dar o fora daqui, mas como?” Era uma criança desajustada. Estava de saco cheio do que chamam de planeta Terra. Incapaz de ir para Marte ou Júpiter, fui ficando. Mais velho, por volta dos sete ou oito anos, só gostava de três coisas: Bruna Lombardi, Leonardo da Vinci e Corinthians.
Mas voltando ao assunto do botão. Ele emperrou e, para a minha perdição, estou condenado a correr até o fim de meus dias. No entanto, acelero de um jeito diferente dos demais. Por ser excessivamente introvertido (compartilho da mesma opinião do cronista Carlos Heitor Cony, “mais de três pessoas é multidão”), em vez de falar pelos cotovelos, ou dar uma de maratonista, escrevo sem parar. Azar o seu.
criado por Julio Scarparo
16:59 — Arquivado em: 
