ficatempo

Contos e crônicas como passatempo

9.3.08

‘Não matarás’

 

O acompanhante duma paciente quer saber as horas. Respondo sem vontade que “são dez e dez”, para depois lembrar de uma coincidência. Acabo de deixar o carro na vaga número dez do estacionamento coberto, que fica grudado ao hospital. Fiz a manobra com calma porque o pai está sendo medicado neste instante. Bateram nele com a intenção de matá-lo. Talvez tenham êxito. De qualquer forma, eu acredito no pôr-do-sol.

Encontro a entrada de emergência, paro o carro sem dificuldade. O pai está inconsciente no banco de trás. Como retirá-lo do automóvel? Olho ao redor e só vejo palermas. O maior deles, o terceirizado que me recepciona, faz piada fora de hora, enquanto ameaça carregar o doente no colo. É que ele não percebe a convulsão, a tristeza, a perda que se aproxima. São as dores de um parto do avesso. “A cadeira de rodas, onde estão as cadeiras de roda?”, pergunto para a multidão. Num passe de mágica, o gorila risonho tira da cartola uma cadeira novinha em folha. Quer dizer, era velha e feia, mas tive a impressão de que era a melhor cadeira de rodas do planeta.

Cruz na parede

Agora preciso correr, porém não sei pra onde. Lá no fundo, uma porta daquelas que abrem no meio, tipo de cozinha. Deve ser a da emergência. “É da emergência!” Passo por ela e viro à direita, sentido obrigatório. “O que ele tem?”, quer saber a bonita auxiliar de enfermagem. “Ele foi espancado, a pressão caiu, acho que fraturou algum osso importante”, respondo, como se houvesse algum osso sem importância… Por incrível que pareça, ela sorri diversas vezes para mim e… deixa pra lá, depois eu conto. O fato de a loira de olhos claros ter me convidado para, digamos, conhecer melhor o hospital, não se encaixa nesta história. Não mesmo.

Voltando para o tratamento de emergência. Após os galões de soro na veia do velho, o médico chega, dá uma olhada no enfermo e diz: “há vinte anos ele estaria condenado, mas há chances de sobrevivência, vamos passá-lo por uma tomografia computadorizada e ver o que dá para fazer.” Foi aí que lamentei a vida de todos, crianças, jovens, adultos e anciãos. Homens e mulheres. Sempre haverá um alguém que verá “o que dá para fazer” na hora de nossa morte. O problema não está no auxílio, está na fragilidade.

Os pacientes estão em macas separadas por cortinas marrons – uma divisória bastante usada nos grandes cortiços da região do Brás, em São Paulo. Como a cara do médico e as cortinas me dão náuseas, olho para cima. Na parede, em vermelho, o número de novo… “Caramba, não pode ser… esse boxe é o dez!” Só que em vez de ser um dez de espada, como o do estacionamento, é um de ouro. Os tempos estão mudando. No lugar da cruz pendurada, um número pintado.

Rompimento do baço

“Não há de ser nada, não há de ser nada”, repito para mim mesmo. Mas a coisa é séria. “Você é o filho dele?” “Sim”, respondo. O cara de branco, que os demais chamam de Doutor, com letra maiúscula, dispara: “houve um rompimento do baço, portanto há hemorragia interna.” “E isso significa o quê?” “Significa que normalmente a vítima morre em dez horas, mais ou menos.” Olho no relógio. Mais algumas horas e estaremos no dia 10 de março.

criado por Julio Scarparo    21:18 — Arquivado em: Sem categoria

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