17.2.08
A imaginação
“Nem vem que não tem”, disse ao colega após a sugestão de imitarmos o camarada que, naquele instante, enfrenta a pé todos os carros da Avenida Paulista, na hora do rush. Em vez de andar pela calçada, o jovem anda no meio da avenida tal qual um veículo. Sem dar seta, o rapaz de terno, gravata, gel e de mala esportiva nas costas, muda de faixa até se transformar em um pedestre de novo.
Confesso que me diverti com a visão surreal, apesar de não aprovar, evidentemente, tal comportamento. Mas andar sem olhar para trás, no meio da avenida, com a naturalidade de quem manda todo mundo às favas, foi tremendo, reconheçamos. Na hora, lembrei-me do Cristo caminhando sobre o mar agitado. Jesus segue em direção ao barco onde estão seus discípulos, que não acreditam na aparição. “Sou eu, não temais”, afirma o Filho de Deus.
Deveríamos respeitar mais o estilo de vida dos outros, o que não significa aceitar ou aprová-lo. Um caminha no meio da rua, outro anda sobre as águas, há também o que toma banho de chapéu para depois discutir Carlos Gardel e outro ainda acredita que é mais bonito do que Alain Delon. E daí? O que menos importa nisso tudo é o nosso glorioso conceito de certo e errado. É preciso ter imaginação para compensar o que os sentidos nos trazem.
Amuleto do amor
Pensando nisso, continuo a caminhar na avenida, sem prestar atenção no que diz o meu colega. De súbito, avisto uma flor murcha. Aposto que a mulher deve ter uns 80 anos de idade, porém a aura da beleza não a abandonou. Ao contemplá-la, sei que estou diante de uma pessoa que foi assustadoramente bela na juventude. Sem dúvida a princesa de antanho teve poderes de enfeitiçar qualquer homem, todos os homens, desde que não tivessem o amuleto do amor pendurado no coração.
A mulher espeta-me com os olhos porque nota a minha lamentação. Na realidade eu a encaro como um turista fascinado pelas ruínas do Império Romano. Ela abre totalmente os olhos, ergue a cabeça e diz de espírito para espírito:
- Não me venha com dó nem piedade. Eu sei quem sou e quem fui. Sorte a sua nos encontrarmos somente agora. Décadas atrás e você entregaria a tua alma na minha mão. Afaste-se de mim, pimpolho.
criado por Julio Scarparo
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