ficatempo

Contos e crônicas como passatempo

10.2.08

Zorba

 

Bastaria uma simples passagem de câmera pelo local para revelar os horrores presentes no boteco onde almoço, de segunda a sexta-feira. Veja as imagens: um senhor palita os dentes com fúria; a moça da última mesa mexe o gelo do copo com o cabo do garfo; e no balcão, o rapaz que arruma o esgoto da avenida come sem lavar as mãos. Nem dá bola quando ele mesmo, por acidente, derrama refrigerante no prato, na mão direita e na calça. Com a mão pingando e o feijão boiando na coca-cola, continua a comer como se nada tivesse acontecido.

E para ajudar a compor o ambiente, uma velha puxa a fita dental da bolsa para usá-la na frente de todos, com a maior naturalidade do mundo. Mas isso não é o suficiente. Ela caminha em direção à calçada com a intenção de colocar, de novo, aquele troço sujo na boca. “Pela estrada afora eu vou bem sozinha levar essa fita para a boquinha.” Um charme, coisa linda.

No “restaurante”, o que mais me chama a atenção é um senhor gordo e careca. Só não o rotulo de mendigo porque ele tem uma força incomum nos olhos. Talvez força não seja a palavra certa. Quero dizer que ele possui um semblante que pensa, reflete. A maior parte dos mendigos é alienada, preocupa-se em levantar grana pro cigarro, pra bebida e o mais é lucro. No entanto, esse cara de óculos fabricados em 1970, que veste uma aberração de colete verde sobre uma camisa social amarela, transborda lucidez. Ou alto grau de insanidade.

Curiosidade

Diante do caixa do estabelecimento, o senhor gordo usa o antebraço para segurar guarda-chuva e livro, enquanto tira da carteira uma nota de cinco reais. “Qual será o título da obra?”, penso com muita curiosidade. Interrompo a minha refeição e também corro pro caixa. Tinha que descobrir o nome do livro. “Um homem que se alimenta aqui se interessaria por qual tipo de leitura?”

Para a minha sorte, o camarada permanece no local para tomar café. Ainda próximo do caixa, com uma das mãos na cintura, ele saboreia o cafezinho gostoso. Sobre o balcão, guarda-chuva e livro aguardam sem pressa o dono terminar o ritual. Assim fica fácil demais. Nem dono, nem guarda-chuva, nem mesmo o livro percebem a secada que eu dou no título: “Zorba, o grego.” É mole? Jamais imaginaria tamanha violência. Esperava, no máximo, um Paulo Coelho da vida.

“Mas Zorba não é marca de cueca?”, certamente diria uma das madames que forram a barriga num restaurante chique, perto dali. “Claro que é cueca!”, responderia a ilustríssima amiga. No fim das contas, cada um paga o preço de ser o que é.

 

criado por Julio Scarparo    8:38 — Arquivado em: Sem categoria

1 Comentário »

  1. Comentário por saci bola — 13.2.08 @ 11:51

    zorba, grego ou cueca, certamente não são conhecidas dessas madames. mas seus maridos ou são donos da editora ou da fábrica dessa peça íntima masculina. pagam, dinheiro, por isto, para serem o que têm.
    ré, ré, ré.

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