ficatempo

Contos e crônicas como passatempo

3.2.08

O jardim não existe mais

 

Após o último encontro do grupo, cada um seguiu o seu caminho. O meu era em direção à linha verde do metrô de São Paulo. Na plataforma, vejo que uma antiga amiga se aproxima de mim, sem me reconhecer. “Não é possível, seria muita coincidência…” Trabalhei com ela há dez anos numa agência de comunicação. Além de publicitária, a mulher é escritora espírita, costumava comentar sobre o que um nobre falecido teria dito a respeito dum assunto qualquer. Uma noite, ela quis me iniciar na coisa:

- Querido, me ajude. Apague a luz e acenda a vela, por favor. Toma aqui o fósforo.

- Mas esta vela não é de macumba?

- É, e daí?

- Mas hoje não vamos jantar?

- Não. Segura a fome. Chegou o momento de você ter as suas próprias experiências espirituais. Nada de teoria, nada de livros, nada de acreditar no que os outros lhe dizem.

- Olha, você é linda como um jardim de flores, porém esse papo de falar com espírito não combina com você. Na boa: a entidade pode até afirmar que é Machado de Assis ou Gandhi. No entanto, serei mal-educado, darei as costas ao desencarnado, ou melhor, acenderei a luz pra terminar a sessão.

- Deixa de bobagem… Acenda logo a vela!

Serpente

Risco o palito sem vontade. Mesmo assim o fogo surge, como num passe de mágica, para envolver lentamente o pavio, tornando o ambiente tenebroso. A cortina balança sem vento e, não sei por que, o microondas faz um sinal sonoro, talvez saiba que é meia-noite.

De súbito, ela se transforma. Não a reconheço mais. Lança-se no chão e rasteja feito cobra. Com as pernas, derruba cadeiras, empurra o sofá e vira de ponta-cabeça a mesa de centro. “Gênesis revela que o diabo encarnou numa serpente para a raça humana cair”, lembro. Saio correndo do apartamento dela pra nunca mais encontrá-la (foi despedida do serviço no dia seguinte, noutro texto eu explico a razão, agora deu preguiça de falar sobre isso).

Metrô 

Na estação, a mulher se aproxima. “Tem de ser ela, tem de ser ela, tem de ser ela. Mas parece que não é, acho que não é. Infelizmente não é…” A mulher passa e pára bem atrás de mim. Sinto o perfume tradicional da escritora espírita. Resolvo olhar para trás, mas não encontro ninguém. O jardim não existe mais.

criado por Julio Scarparo    11:37 — Arquivado em: Sem categoria

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