ficatempo

Contos e crônicas como passatempo

24.2.08

Paredes vermelhas

 

Vovô comprou a casa de um senhor que não batia bem da cabeça, nos anos de 1950. Com o passar do tempo, vários detalhes entraram no relato da “conquista” dessa casa própria. O velho gabava-se de ter, segundo ele, comprado a casa pela metade do preço de mercado e a demolido a fim de construir tudo do jeito que sempre quisera. “Mas você não trocou somente o portão?”, contradizia vovó. Seja como for, descobri que um fato não entrou em nenhuma das versões contadas pelos familiares. As paredes do interior da casa eram todas vermelhas.

Eu tinha 8 anos de idade quando disseram pra minha total surpresa:

- Filho, a partir de agora teremos de trancar a porta da frente toda vez que entrarmos ou sairmos de casa. Ontem assaltaram o vizinho, levaram a TV em cores e o Três Em Um da Gradiente. Esta é a sua chave, cuidado para não perdê-la!

- Que coisa doida… Já não basta trancarmos a porta todas as noites antes de dormir?, resmungo eu, enquanto ouço o LP Thriller, de Michael Jackson. Mas ordens são ordens. Arrumo um chaveiro amarelo em forma de colar, feito daquele fio encaracolado do aparelho de telefone. Pronto. Jamais perderia a chave jogando bola, brincando de esconde-esconde ou de polícia e ladrão.

Túnel do tempo

Numa noite, acordo com dor de garganta. Levanto da cama e noto que a casa está diferente. Um aspirador de pó, que mais parece vassoura, se encontra no meio da sala. Também vejo um rádio do tamanho de uma televisão, acredite se quiser. Sobre a mesinha, um relógio de bolso da marca Mecum. Dou corda no relógio e o tique-taque dispara: ele corre para mostrar cada um dos 60 segundos que se diluem por aí. Há mais coisas interessantes sobre a mesa. A moeda dourada, por exemplo, leva o rosto de alguém de óculos, barba e bigode. Leio o seu nome: Machado de Assis. O outro lado da moeda indica que ela vale 500 réis. Pequeno, embaixo do número 500, vem o ano de 1939.

Ouço passos, só dá tempo de me esconder atrás da cortina. Vejo um quarentão de face perturbada, meio tantã. Ele gesticula muito e seus pensamentos são confusos. A bagunça mental é constatada pela falta de objetividade dos olhos. Ficam pra lá e pra cá sem descansar nalgum objeto, nem ao menos nos olhos do interlocutor, um homem negro vestido de branco.

Cada vez que o perturbado fala, tenho a impressão de que tenta colocar a orelha no ombro direito, depois no esquerdo e assim sucessivamente. Ele diz:

- Vamos enterrá-la no quarto das crianças, bem embaixo da cama do menino que está atrás… desta cortina!

Fugir

Quando ouço o perturbado dizer “desta cortina!” saio correndo para saltar do meu sonho. Acordo onde seria o “quarto das crianças.” “Será que existe uma criança enterrada neste cômodo?”, pergunto a mim mesmo. Antes de buscar a pá dum amigo pedreiro, preciso tirar a prova real. Pego a chave pendurada no pescoço e raspo a tinta da parede. Arranco facilmente a parte que está descascada. A chave vai abrindo o tempo à medida que revela camadas. Brancas, verde, algo misturado, parece cinza, e finalmente rosa, ou melhor, vermelha.

criado por Julio Scarparo    15:13 — Arquivado em: Sem categoria

17.2.08

A imaginação

 

“Nem vem que não tem”, disse ao colega após a sugestão de imitarmos o camarada que, naquele instante, enfrenta a pé todos os carros da Avenida Paulista, na hora do rush. Em vez de andar pela calçada, o jovem anda no meio da avenida tal qual um veículo. Sem dar seta, o rapaz de terno, gravata, gel e de mala esportiva nas costas, muda de faixa até se transformar em um pedestre de novo.

Confesso que me diverti com a visão surreal, apesar de não aprovar, evidentemente, tal comportamento. Mas andar sem olhar para trás, no meio da avenida, com a naturalidade de quem manda todo mundo às favas, foi tremendo, reconheçamos. Na hora, lembrei-me do Cristo caminhando sobre o mar agitado. Jesus segue em direção ao barco onde estão seus discípulos, que não acreditam na aparição. “Sou eu, não temais”, afirma o Filho de Deus.

Deveríamos respeitar mais o estilo de vida dos outros, o que não significa aceitar ou aprová-lo. Um caminha no meio da rua, outro anda sobre as águas, há também o que toma banho de chapéu para depois discutir Carlos Gardel e outro ainda acredita que é mais bonito do que Alain Delon. E daí? O que menos importa nisso tudo é o nosso glorioso conceito de certo e errado. É preciso ter imaginação para compensar o que os sentidos nos trazem.

Amuleto do amor

Pensando nisso, continuo a caminhar na avenida, sem prestar atenção no que diz o meu colega. De súbito, avisto uma flor murcha. Aposto que a mulher deve ter uns 80 anos de idade, porém a aura da beleza não a abandonou. Ao contemplá-la, sei que estou diante de uma pessoa que foi assustadoramente bela na juventude. Sem dúvida a princesa de antanho teve poderes de enfeitiçar qualquer homem, todos os homens, desde que não tivessem o amuleto do amor pendurado no coração.

A mulher espeta-me com os olhos porque nota a minha lamentação. Na realidade eu a encaro como um turista fascinado pelas ruínas do Império Romano. Ela abre totalmente os olhos, ergue a cabeça e diz de espírito para espírito:

- Não me venha com dó nem piedade. Eu sei quem sou e quem fui. Sorte a sua nos encontrarmos somente agora. Décadas atrás e você entregaria a tua alma na minha mão. Afaste-se de mim, pimpolho.

criado por Julio Scarparo    12:04 — Arquivado em: Sem categoria

10.2.08

Zorba

 

Bastaria uma simples passagem de câmera pelo local para revelar os horrores presentes no boteco onde almoço, de segunda a sexta-feira. Veja as imagens: um senhor palita os dentes com fúria; a moça da última mesa mexe o gelo do copo com o cabo do garfo; e no balcão, o rapaz que arruma o esgoto da avenida come sem lavar as mãos. Nem dá bola quando ele mesmo, por acidente, derrama refrigerante no prato, na mão direita e na calça. Com a mão pingando e o feijão boiando na coca-cola, continua a comer como se nada tivesse acontecido.

E para ajudar a compor o ambiente, uma velha puxa a fita dental da bolsa para usá-la na frente de todos, com a maior naturalidade do mundo. Mas isso não é o suficiente. Ela caminha em direção à calçada com a intenção de colocar, de novo, aquele troço sujo na boca. “Pela estrada afora eu vou bem sozinha levar essa fita para a boquinha.” Um charme, coisa linda.

No “restaurante”, o que mais me chama a atenção é um senhor gordo e careca. Só não o rotulo de mendigo porque ele tem uma força incomum nos olhos. Talvez força não seja a palavra certa. Quero dizer que ele possui um semblante que pensa, reflete. A maior parte dos mendigos é alienada, preocupa-se em levantar grana pro cigarro, pra bebida e o mais é lucro. No entanto, esse cara de óculos fabricados em 1970, que veste uma aberração de colete verde sobre uma camisa social amarela, transborda lucidez. Ou alto grau de insanidade.

Curiosidade

Diante do caixa do estabelecimento, o senhor gordo usa o antebraço para segurar guarda-chuva e livro, enquanto tira da carteira uma nota de cinco reais. “Qual será o título da obra?”, penso com muita curiosidade. Interrompo a minha refeição e também corro pro caixa. Tinha que descobrir o nome do livro. “Um homem que se alimenta aqui se interessaria por qual tipo de leitura?”

Para a minha sorte, o camarada permanece no local para tomar café. Ainda próximo do caixa, com uma das mãos na cintura, ele saboreia o cafezinho gostoso. Sobre o balcão, guarda-chuva e livro aguardam sem pressa o dono terminar o ritual. Assim fica fácil demais. Nem dono, nem guarda-chuva, nem mesmo o livro percebem a secada que eu dou no título: “Zorba, o grego.” É mole? Jamais imaginaria tamanha violência. Esperava, no máximo, um Paulo Coelho da vida.

“Mas Zorba não é marca de cueca?”, certamente diria uma das madames que forram a barriga num restaurante chique, perto dali. “Claro que é cueca!”, responderia a ilustríssima amiga. No fim das contas, cada um paga o preço de ser o que é.

 

criado por Julio Scarparo    8:38 — Arquivado em: Sem categoria

3.2.08

O jardim não existe mais

 

Após o último encontro do grupo, cada um seguiu o seu caminho. O meu era em direção à linha verde do metrô de São Paulo. Na plataforma, vejo que uma antiga amiga se aproxima de mim, sem me reconhecer. “Não é possível, seria muita coincidência…” Trabalhei com ela há dez anos numa agência de comunicação. Além de publicitária, a mulher é escritora espírita, costumava comentar sobre o que um nobre falecido teria dito a respeito dum assunto qualquer. Uma noite, ela quis me iniciar na coisa:

- Querido, me ajude. Apague a luz e acenda a vela, por favor. Toma aqui o fósforo.

- Mas esta vela não é de macumba?

- É, e daí?

- Mas hoje não vamos jantar?

- Não. Segura a fome. Chegou o momento de você ter as suas próprias experiências espirituais. Nada de teoria, nada de livros, nada de acreditar no que os outros lhe dizem.

- Olha, você é linda como um jardim de flores, porém esse papo de falar com espírito não combina com você. Na boa: a entidade pode até afirmar que é Machado de Assis ou Gandhi. No entanto, serei mal-educado, darei as costas ao desencarnado, ou melhor, acenderei a luz pra terminar a sessão.

- Deixa de bobagem… Acenda logo a vela!

Serpente

Risco o palito sem vontade. Mesmo assim o fogo surge, como num passe de mágica, para envolver lentamente o pavio, tornando o ambiente tenebroso. A cortina balança sem vento e, não sei por que, o microondas faz um sinal sonoro, talvez saiba que é meia-noite.

De súbito, ela se transforma. Não a reconheço mais. Lança-se no chão e rasteja feito cobra. Com as pernas, derruba cadeiras, empurra o sofá e vira de ponta-cabeça a mesa de centro. “Gênesis revela que o diabo encarnou numa serpente para a raça humana cair”, lembro. Saio correndo do apartamento dela pra nunca mais encontrá-la (foi despedida do serviço no dia seguinte, noutro texto eu explico a razão, agora deu preguiça de falar sobre isso).

Metrô 

Na estação, a mulher se aproxima. “Tem de ser ela, tem de ser ela, tem de ser ela. Mas parece que não é, acho que não é. Infelizmente não é…” A mulher passa e pára bem atrás de mim. Sinto o perfume tradicional da escritora espírita. Resolvo olhar para trás, mas não encontro ninguém. O jardim não existe mais.

criado por Julio Scarparo    11:37 — Arquivado em: Sem categoria

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