27.1.08
Dorian e Doris
O Sol reina absoluto no céu azul, ao contrário de mim, que não passo de mais um transeunte na calçada. Para piorar o cenário, estou aqui de uniforme verde. “Um Dorian Gray não se veste assim”, sopra a moça fashion enquanto me ultrapassa. Não sei quem é Dorian Gray, mas parece que fui elogiado, pelo menos em parte.
Volta e meia as mulheres me param por aí. Verdade. Os que andam comigo sabem. Acho que é o Diabo querendo sempre me tentar. Outro dia, num supermercado em São Paulo, fui fisgado por uma garota parecida com a ex-apresentadora de TV, famosa nos anos de 1980, Doris Giesse - só que de cabelo comprido. Seríamos um casal muito bacana: Dorian e Doris.
Ela pára do meu lado e pergunta:
- Você sabe onde estão os desodorantes sem perfume?
- Olha, tem este aqui, serve?
- Não, esse mancha a roupa… Nossa… estou enganada ou é barulho de chuva? Acho que lá fora está caindo um temporal…
- Está de carro? – pergunto.
- Não.
- Eu te deixo no ponto de ônibus.
LSD
Eu realmente a deixei no ponto. Bem no ponto. Viajo dentro de seus olhos. Ela seria a “Lucy no Céu com Diamantes”? Resolvo perguntar. “Você é a versão brasileira da ‘Lucy in the Sky with Diamonds?’” “Não sei quem é Lucy”, ela responde secamente – é assim que fala quando tenta esconder a ignorância. A fumaça do quarto sufoca. Tudo gira, gira, gira. “Mas a Lucy Ball você conhece, não conhece?”
Cubro o tempo com gargalhada pra ele machucar menos. Quanto mais dou risada, mais pesado ela dorme. O piercing dela, no nariz, perde a graça sem o auxílio dos olhos verdes. O da língua acho que já engoli. No teto há uma lâmpada que me esmaga. Ou melhor, a luz que sai da lâmpada me afoga. A falta de ar é insuportável, porém não consigo levantar pra abrir a janela ou ligar o ar-condicionado. Seres invisíveis congestionam o ambiente. Ouço vozes num idioma estranhíssimo. Alguém coloca os pés no meu peito. Outro (a) se diverte com a minha orelha. Acho que vou ser despedaçado.
Tentação
“Infelizmente chega a hora de nos juntarmos aos mortos”, diz uma voz feminina. A multidão que está no quarto parece que me puxa, me invoca. A experiência passa dos limites, sinto-me na obrigação de dizer algo: “sumam daqui seus desgraçados, ainda não é a hora!” No entanto, a ira não funciona, afundo de abismo em abismo. De repente, Lucy desce do céu pra me salvar, posso senti-la sobre mim.
Ela gruda seu nariz ao meu e diz:
- Você tá passando bem?
- Só sei que seus cabelos estão me sufocando…
- Desculpe, seu mal-educado!
Por que será que me lembrei da Doris? “Um Dorian Gray não se veste assim.” Cadê ela? Preciso apertar o passo.
- Moça! Espere um pouco! Quem é Dorian Gray?
criado por Julio Scarparo
11:08 — Arquivado em: 
