ficatempo

Contos e crônicas como passatempo

16.12.07

Temos toda a vida pela frente

 

Fazia tempo que não o encontrava. Marcos continua o mesmo: baixinho, narigudo e dono de olheiras federais. Combinamos de nos encontrar no shopping center dos pobres, aquele perto do terminal de ônibus. Ele está sentado à mesa de um café. É um cara que desistiu de enriquecer. Não quer saber de mais nada. Até aí beleza. Eu também apenas vou vivendo, já não me curvo diante das exigências do mercado de trabalho. Se tivesse três idiomas, nunca os usaria para comprar mercadorias no exterior. Passaria fome, mas leria Proust, Homero e Goethe no original.

Bato os olhos em Marcos e noto que ele carrega uma baixa auto-estima dos infernos. Todos são superiores a ele. São mais bonitos, inteligentes, felizes, mais tudo:

- Marcos, o que você fez pra colocar tanta minhoca na cabeça?

- Sei lá. Agora no Natal sinto-me pior ainda. Todos felizes e eu assim…

Dissimulação

- Cara, a maior parte das pessoas finge que é feliz. Até porque elas acham que não têm escolha. Ou demonstram que estão bem, com dinheiro no bolso, ou o povo irá se afastar delas. Por que você acha que muitos adquirem um carnê gigante para comprar um carro novo? Em alguns casos, trata-se de um disfarce para se aproximar dos endinheirados e, de alguma maneira, obter vantagens, seja um empréstimo, seja um emprego.

- Eu não tenho forças para continuar neste jogo insano. Não sirvo para machucar ou enganar os outros.

- Concordo com você. É preciso ter estômago para jogar. Mas assim caminha a humanidade, infelizmente. Olhe aquele grupo que vai tirar foto em frente do Papai Noel. Repara. Eles armam um sorrido forçado, o que é ridículo. No futuro, nossos descendentes olharão para essas imagens e dirão: “como as fotos eram patéticas… em todas as imagens os antigos mostram os dentes…” Ainda se tivéssemos motivos para rir à toa… Mas há centenas e centenas de famílias que vivem sem saneamento básico, água encanada ou energia elétrica. Isso sem falar no tema da prostituição infantil ou nos idosos que são tratados como pragas infectadas por vírus contagioso.

E agora?

- Então o que fazer? – pergunta Marcos.

- O que você deve fazer eu não sei. O que eu faço é o seguinte: não visto roupas de marca; faço revisão em meu carro antigo (de 1998) para não ter de comprar um mais novo sem necessidade; não dou risinho diante das câmeras; não fico puxando assuntos interessantes para demonstrar que sou inteligente e agradável - se quero conversar, converso, se não quero fico na minha como quase sempre -; só ando de celular no carro para chamar o guincho quando ele quebrar; faço doações a entidades que conheço como a palma de minha mão; procuro tratar os pobres com a mesma educação que trataria um rico, e assim por diante. Além disso, acompanho de perto os projetos e as votações dos políticos. Por isso, volta e meia, os mando às favas. Eu sei que, no fundo, eles sabem que não me representam. Mas faz parte do ofício deles ouvir a plebe.

Colapso do capitalismo

- Gostaria de ser livre. Poder viver tranqüilamente apenas usando as minhas aptidões em benefício da sociedade. Eu faço música, outros levantam prédios, outros escrevem notícias e outros fazem contas. Se cada função é importante, não seria mais justo todo mundo sair ganhando? O ideal é que todos ganhassem o suficiente para viver com dignidade.

- Concordo, Marcos. No entanto, não sei se um dia veremos tal sistema. Hoje, nas escadas do metrô, li na camiseta de uma jovem o seguinte: "Temos toda a vida pela frente." Ao ler essa frase confesso que me emocionei. Ela é muito positiva porque ressalta a vida que pulsa nos jovens. Arrisco dizer que a mudança passará por essa pulsação da vida. Um dia, em todas as partes do mundo, se levantará uma geração que se recusará a manter o capitalismo. Nesse dia, os jovens deixarão de ser bunda moles como eu e você. Terão cansado de colocar o rabo no meio das pernas para alcançar o posto de escravo bem-sucedido. Quando se tem toda a vida pela frente, a gente cai, se levanta e segue em frente, aprendendo com os erros e acertos, sem acomodação. Há anciãos que também se comportam assim. Talvez, por isso, os olhos desses velhos nunca envelhecerão.

criado por Julio Scarparo    10:54 — Arquivado em: Sem categoria

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