9.12.07
Ser feio no Natal
Como todos os mortais, também sou afetado pelo período das festas de fim de ano. De repente, por necessidade, me pego a lutar por uma vaga no estacionamento do shopping. O gongo toca outra vez e saio do carro pro segundo round. A escada rolante está a favor do adversário, assim como o ar condicionado, a limpeza do ambiente e a iluminação. O piso é brilhante e as vitrines são sedutoras. Todo o conforto pra eu usar o cartão de crédito.
Perco a noção do tempo. Os relógios são proibidos em shoppings. Apenas sei que ainda é sábado e que sou obrigado a consumir. Se não ficar atento, acabarei nocauteado como os meus colegas. Mas não posso estressar, por isso tomo um café tranqüilamente e almoço na praça de alimentação. Na mesa ao lado da nossa, a criança come um hambúrguer, enquanto o pai olha pro nada.
Entro na dança
De barriga cheia, começo a entrar na dança: a cada dez passos um rodopio que termina numa loja. Meio tonto, os olhos engolem todos os objetos num frenesi alucinante. Aliás, não faço outra coisa senão contemplar tudo. Noto que, sem contar as pessoas que estão comigo, eu não vejo os olhos de ninguém. Por isso, miro as pupilas da vendedora. Sim, ela é alguém. Seus olhos são tristes, apesar do sorriso. Concluo que os vendedores não são os meus adversários reais. Sofrem como eu. O problema está em mim.
O canto das sereias
O terceiro round é o mais difícil porque entendo que a batalha é contra a minha medíocre natureza. Incapaz de valorizar-me pelo que sou, busco roupas mágicas para aumentar a auto-estima. Infelizmente, não sou prudente como Ulisses, que pediu para ser amarrado num mastro pra não cair nas garras das sereias:
- Aproxima-se, ó famoso Ulisses, glória imensa dos gregos! (…) Ninguém, até agora, passou com sua escura nau sem ter escutado o melífluo canto que sai de nossos lábios. Quem o ouve parte mais alegre e mais instruído.
Vaso sanitário
Eu quero partir mais alegre. Indefeso, curvo-me diante da beleza dos produtos, afinal desejo ficar atraente como a maior parte dos trabalhadores que está no local. Gasto o que tenho e o que não tenho. Vale tudo para ouvir o canto das fêmeas, mas após a consumação do ato, tenho náuseas. Corro ao banheiro e vomito sem parar. O vaso sanitário é o único portador da verdade. À queima-roupa, ele me diz: “tu és uma besta!” Saio de lá com a certeza de que preciso me desintoxicar das etiquetas. Devo comprar pela utilidade do produto, não pelo status. Ser feio no Natal me faria bem.
criado por Julio Scarparo
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