ficatempo

Contos e crônicas como passatempo

1.12.07

Doutor Caim e Abel

[Texto inédito de meu pai, Julio Scarparo.]

Quando o telefone tocou, Abel entrou em pânico e teve um princípio de taquicardia. Na mesa, lhe fazendo companhia, uma pilha de contas vencidas. Apavorado, não teve dúvida, desconectou os fios do telefone pra ficar livre de cobradores. Desempregado há mais de 18 meses, separado da mulher e do filho de dez anos, vivia sozinho há um ano numa casa emprestada por Adão, seu único amigo.

Sem nenhuma perspectiva à frente, estressado e cada vez mais deprimido, Abel tomou uma decisão definitiva: ia se matar. Ele estava convencido de que era a melhor solução. Pensou em várias formas de suicídio e como não chegou a nenhuma que lhe parecesse viável, resolveu pesquisar na internet. Navegou por mais de duas horas e nada. Cansou, desligou o micro e foi dormir, ficando de retomar a busca no dia seguinte.

O dia nem havia clareado e lá estava Abel no computador. Foi então que encontrou um site que tinha como título: “Se você quer viver, o problema é seu, mas se você quer morrer, o problema é nosso.” Logo abaixo desse slogan, se encontrou o seguinte texto: “para morrer tranqüilamente, siga as orientações do Doutor Caim.”

Kit 23

Abel imediatamente mandou um e-mail ao Doutor pedindo mais informações. A resposta não tardou a chegar. Nela, o Doutor pedia um breve relato de sua vida para atendê-lo da melhor maneira. Abel ressaltou que gostaria que a sua morte não parecesse suicídio.

Três dias depois, chegou o e-mail tão esperado. Doutor Caim dava explicações detalhadas sobre os procedimentos a serem seguidos. O “paciente” deveria ir à loja indicada no e-mail, procurar pela sra. Eva e comprar o kit 23. Era entrar, comprar, pagar e não fazer nenhum comentário.

O kit era numa caixa pequena, lacrada, sem nenhuma informação externa. Assim que chegou em casa, abriu a caixa e verificou que havia quatro itens: um saco plástico de 20 litros super-resistente, um par de algemas, um rolo de fita adesiva larga e um cordão de 80 cm. Conforme as instruções do Doutor, Abel deveria sentar-se no chão, passar umas seis voltas de fita nos tornozelos. Em seguida, deveria colocar a algema apenas na mão esquerda. Na seqüência deveria colocar o saco plástico na cabeça e teria que amarrar o cordão bem forte na altura do pescoço, por cima do saco plástico. A partir desse momento, o ar ia começar a faltar. Então deveria colocar as duas mãos para trás do corpo e fechar a algema na mão direita. Em questão de minutos, estaria morto por asfixia e jamais alguém poderia dizer que ele havia se suicidado. Tudo levaria a crer que havia sido vítima de um crime.

Via-crúcis

Faltava um pequeno detalhe para completar a via-crúcis: Abel deveria se matar de manhã, por volta da oito horas para que desse tempo de seu corpo ser encontrado ainda no período vespertino. Doutor Caim sugeriu ainda que, uma vez que não ele tinha o hábito de receber visitas, ligasse para o seu amigo Adão, convidando-o pra almoçar. Era só deixar a porta entreaberta, pois assim que entrasse, encontraria seu corpo.

Com o almoço acertado para o dia seguinte, Abel sentou-se no sofá da sala e correu o olho pela casa. Era a sua última noite naquele ambiente. O que mais impressionava era a sua calma. Fez uma alimentação leve, releu algumas notícias no jornal e foi deitar.

Assim que acordou, lavou o rosto, escovou os dentes, desistiu do banho e sentou-se na cozinha. Mantinha a mesma calma da noite anterior. Com um copo de leite na mão, olhou para o relógio em cima da geladeira e viu que marcava 7h30. Agora só tinha que aguardar mais 30 minutos. Resolveu que morreria de pijama, pois assim não levantaria suspeita. Certificou-se que estava tudo em ordem. Ligou o micro, deletou todos os e-mails que havia recebido do Doutor, esvaziou a lixeira e desligou o PC.

Começa o ritual

Tinha chegado a hora. Caminhou até a entrada da casa, destravou a fechadura e deixou a porta encostada. Passou pela sala, pegou a caixa que estava sobre a mesa e foi para a cozinha. Abel já começava a ficar nervoso. Suas mãos estavam trêmulas e suadas, o coração disparava.

Sentou no chão e começou o ritual. Passou a fita adesiva pelos tornozelos várias vezes, colocou a algema na mão esquerda, enfiou o saco plástico na cabeça, amarrou bem forte o cordão no pescoço, e com os braços para trás do corpo fechou a algema na mão direita. Estava deitado no chão, imobilizado. Assim que começou a ficar sem ar, várias imagens passavam pela sua cabeça, principalmente a do filho, que ele jamais veria crescer. Depois de 90 segundos, sufocando e desesperado, percebeu a besteira que estava fazendo.

Começou a se debater no chão e pediu a Deus que lhe desse força pra se soltar. Numa última tentativa, fez um esforço sobre-humano e, sem saber como, conseguiu romper as algemas. Imediatamente, rasgou o saco plástico da cabeça e, respirando com dificuldade, retirou a fita adesiva das pernas. Ao se levantar, não acreditava na loucura pela qual acabava de passar. Enquanto se recuperava, o telefone tocou. Curiosamente não entrou em pânico. Só agradecia a Deus por estar vivo. Nada poderia ser pior do que a tentativa de suicídio. Resolveu atender.

Novo emprego

A ligação era de uma empresa que convocava Abel a se apresentar na manhã seguinte para uma entrevista, pois precisavam com urgência de uma pessoa com as suas qualificações. Ele não acreditava no que estava acontecendo. Mandou uma mensagem para o Doutor Caim informando que havia desistido daquela loucura e se desculpou.

Assim que Doutor Caim leu o e-mail, olhou para a sua esposa, sra. Eva, e disse: “conseguimos salvar mais uma vida, preciso indicar mais vezes esse kit 23 que possui algemas frágeis e falsas, além do saco plástico com microfuros que se rompem em, no máximo, dois minutos.” Ela respondeu: “tem razão Caim, aliás, já ia me esquecendo, o Abel começa a trabalhar na segunda-feira em uma de nossas empresas.”

Julio Scarparo (pai)

criado por Julio Scarparo    19:24 — Arquivado em: Sem categoria

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