29.12.07
Aviso
Estou em férias. Por isso, o próximo texto deve ser publicado no dia 27 de janeiro. Sim, é preciso parar um pouco com a rotina para renovar as forças. Que você tenha um Feliz Ano Novo!
Julio Scarparo.
Estou em férias. Por isso, o próximo texto deve ser publicado no dia 27 de janeiro. Sim, é preciso parar um pouco com a rotina para renovar as forças. Que você tenha um Feliz Ano Novo!
Julio Scarparo.
“A pior coisa que existe para um autor é quando ele vive mais do que a sua obra”, disse o jornalista veterano Carlos Heitor Cony. Deve ser terrível mesmo. O cara escreve um baita romance que derruba todos os modelos literários de seus antepassados e depois não consegue ir mais além. Lançamento após lançamento, ele percebe que não acrescenta mais nada à literatura. O que fazer?
O meu caso é bem mais simples. Não quebrei nenhum paradigma literário nem acrescentei nada a ninguém. Bastaria deixar de digitar e pronto. Mas a coisa é meio complexa. Se pudesse, jogaria a toalha (ou melhor, o teclado) sem o menor peso na consciência. Conheço as minhas limitações e insignificância. Quero parar com esse sofrimento. O problema é que escrever pra mim é um vício. Não consigo parar, até porque ganho a vida escrevendo. Em outros termos, digitar é um mal necessário ao escriba.
Encurralado, só vejo há uma saída: tentar escrever bem. Por isso criei o Blog Ficatempo. Ele é uma espécie de laboratório de texto onde me exercito semanalmente. Inventei a palavra ficatempo pra uma legenda duma foto dos Beatles que postei em meu orkut. Evidente que não precisava escrever “The Beatles” embaixo da imagem, a maior parte dos leitores sabe quem são eles. “Eu sei que o cabeludo de óculos redondo é o John Lennon!” Parabéns. Então, no lugar de “The Beatles” escrevi “ficatempo”, como quem diz: “gostaria que o passado permanecesse comigo.” Registrei “ficatempo” tudo junto porque a palavra passatempo também é grudada.
Pois bem. Onde eu estava?
- Naquela história de o escritor não conseguir ir mais além.
- Obrigado.
Eu amo segunda-feira
Com dizia, eu sofro com o garrancho do meu texto. E não posso parar de escrever porque sou viciado nisso. Ao digitar, fico angustiado por causa da mediocridade do que sai. Pior: estou enjoado de mim mesmo. Mas há um fato que levo em conta pra não deixar de escrever. Tenho leitores. Não sei a razão, mas há um pequeno grupo que criou o hábito de me ler. Engraçado, né? Tem uma pessoa que acessa o blog todas as segundas-feiras de manhã. Só dá ele. Imagino esse leitor chegando ao trabalho: ele liga o computador, checa os e-mails e, antes começar a trabalhar, dá uma lida no Ficatempo. Tem outro que entra no blog aos sábados à tarde pra ver se já tá atualizado. Sinto que é impaciente. Tenta uma, tenta duas, tenta três vezes: “Julio, caramba, não vai atualizar esta droga?” O restante visita o Ficatempo aos domingos, principalmente depois do meio-dia.
Feliz Natal
O que realmente importa na crônica de hoje é que eu desejo a todos os gatos-pingados que passam por aqui Boas Festas! (Prometo que me esforçarei pra escrever melhor no próximo ano). Grande abraço!
—
Nota: o texto foi publicado com atraso em razão de problemas no servidor Terra.
Fazia tempo que não o encontrava. Marcos continua o mesmo: baixinho, narigudo e dono de olheiras federais. Combinamos de nos encontrar no shopping center dos pobres, aquele perto do terminal de ônibus. Ele está sentado à mesa de um café. É um cara que desistiu de enriquecer. Não quer saber de mais nada. Até aí beleza. Eu também apenas vou vivendo, já não me curvo diante das exigências do mercado de trabalho. Se tivesse três idiomas, nunca os usaria para comprar mercadorias no exterior. Passaria fome, mas leria Proust, Homero e Goethe no original.
Bato os olhos em Marcos e noto que ele carrega uma baixa auto-estima dos infernos. Todos são superiores a ele. São mais bonitos, inteligentes, felizes, mais tudo:
- Marcos, o que você fez pra colocar tanta minhoca na cabeça?
- Sei lá. Agora no Natal sinto-me pior ainda. Todos felizes e eu assim…
Dissimulação
- Cara, a maior parte das pessoas finge que é feliz. Até porque elas acham que não têm escolha. Ou demonstram que estão bem, com dinheiro no bolso, ou o povo irá se afastar delas. Por que você acha que muitos adquirem um carnê gigante para comprar um carro novo? Em alguns casos, trata-se de um disfarce para se aproximar dos endinheirados e, de alguma maneira, obter vantagens, seja um empréstimo, seja um emprego.
- Eu não tenho forças para continuar neste jogo insano. Não sirvo para machucar ou enganar os outros.
- Concordo com você. É preciso ter estômago para jogar. Mas assim caminha a humanidade, infelizmente. Olhe aquele grupo que vai tirar foto em frente do Papai Noel. Repara. Eles armam um sorrido forçado, o que é ridículo. No futuro, nossos descendentes olharão para essas imagens e dirão: “como as fotos eram patéticas… em todas as imagens os antigos mostram os dentes…” Ainda se tivéssemos motivos para rir à toa… Mas há centenas e centenas de famílias que vivem sem saneamento básico, água encanada ou energia elétrica. Isso sem falar no tema da prostituição infantil ou nos idosos que são tratados como pragas infectadas por vírus contagioso.
E agora?
- Então o que fazer? – pergunta Marcos.
- O que você deve fazer eu não sei. O que eu faço é o seguinte: não visto roupas de marca; faço revisão em meu carro antigo (de 1998) para não ter de comprar um mais novo sem necessidade; não dou risinho diante das câmeras; não fico puxando assuntos interessantes para demonstrar que sou inteligente e agradável - se quero conversar, converso, se não quero fico na minha como quase sempre -; só ando de celular no carro para chamar o guincho quando ele quebrar; faço doações a entidades que conheço como a palma de minha mão; procuro tratar os pobres com a mesma educação que trataria um rico, e assim por diante. Além disso, acompanho de perto os projetos e as votações dos políticos. Por isso, volta e meia, os mando às favas. Eu sei que, no fundo, eles sabem que não me representam. Mas faz parte do ofício deles ouvir a plebe.
Colapso do capitalismo
- Gostaria de ser livre. Poder viver tranqüilamente apenas usando as minhas aptidões em benefício da sociedade. Eu faço música, outros levantam prédios, outros escrevem notícias e outros fazem contas. Se cada função é importante, não seria mais justo todo mundo sair ganhando? O ideal é que todos ganhassem o suficiente para viver com dignidade.
- Concordo, Marcos. No entanto, não sei se um dia veremos tal sistema. Hoje, nas escadas do metrô, li na camiseta de uma jovem o seguinte: "Temos toda a vida pela frente." Ao ler essa frase confesso que me emocionei. Ela é muito positiva porque ressalta a vida que pulsa nos jovens. Arrisco dizer que a mudança passará por essa pulsação da vida. Um dia, em todas as partes do mundo, se levantará uma geração que se recusará a manter o capitalismo. Nesse dia, os jovens deixarão de ser bunda moles como eu e você. Terão cansado de colocar o rabo no meio das pernas para alcançar o posto de escravo bem-sucedido. Quando se tem toda a vida pela frente, a gente cai, se levanta e segue em frente, aprendendo com os erros e acertos, sem acomodação. Há anciãos que também se comportam assim. Talvez, por isso, os olhos desses velhos nunca envelhecerão.
Como todos os mortais, também sou afetado pelo período das festas de fim de ano. De repente, por necessidade, me pego a lutar por uma vaga no estacionamento do shopping. O gongo toca outra vez e saio do carro pro segundo round. A escada rolante está a favor do adversário, assim como o ar condicionado, a limpeza do ambiente e a iluminação. O piso é brilhante e as vitrines são sedutoras. Todo o conforto pra eu usar o cartão de crédito.
Perco a noção do tempo. Os relógios são proibidos em shoppings. Apenas sei que ainda é sábado e que sou obrigado a consumir. Se não ficar atento, acabarei nocauteado como os meus colegas. Mas não posso estressar, por isso tomo um café tranqüilamente e almoço na praça de alimentação. Na mesa ao lado da nossa, a criança come um hambúrguer, enquanto o pai olha pro nada.
Entro na dança
De barriga cheia, começo a entrar na dança: a cada dez passos um rodopio que termina numa loja. Meio tonto, os olhos engolem todos os objetos num frenesi alucinante. Aliás, não faço outra coisa senão contemplar tudo. Noto que, sem contar as pessoas que estão comigo, eu não vejo os olhos de ninguém. Por isso, miro as pupilas da vendedora. Sim, ela é alguém. Seus olhos são tristes, apesar do sorriso. Concluo que os vendedores não são os meus adversários reais. Sofrem como eu. O problema está em mim.
O canto das sereias
O terceiro round é o mais difícil porque entendo que a batalha é contra a minha medíocre natureza. Incapaz de valorizar-me pelo que sou, busco roupas mágicas para aumentar a auto-estima. Infelizmente, não sou prudente como Ulisses, que pediu para ser amarrado num mastro pra não cair nas garras das sereias:
- Aproxima-se, ó famoso Ulisses, glória imensa dos gregos! (…) Ninguém, até agora, passou com sua escura nau sem ter escutado o melífluo canto que sai de nossos lábios. Quem o ouve parte mais alegre e mais instruído.
Vaso sanitário
Eu quero partir mais alegre. Indefeso, curvo-me diante da beleza dos produtos, afinal desejo ficar atraente como a maior parte dos trabalhadores que está no local. Gasto o que tenho e o que não tenho. Vale tudo para ouvir o canto das fêmeas, mas após a consumação do ato, tenho náuseas. Corro ao banheiro e vomito sem parar. O vaso sanitário é o único portador da verdade. À queima-roupa, ele me diz: “tu és uma besta!” Saio de lá com a certeza de que preciso me desintoxicar das etiquetas. Devo comprar pela utilidade do produto, não pelo status. Ser feio no Natal me faria bem.
[Texto inédito de meu pai, Julio Scarparo.]
Quando o telefone tocou, Abel entrou em pânico e teve um princípio de taquicardia. Na mesa, lhe fazendo companhia, uma pilha de contas vencidas. Apavorado, não teve dúvida, desconectou os fios do telefone pra ficar livre de cobradores. Desempregado há mais de 18 meses, separado da mulher e do filho de dez anos, vivia sozinho há um ano numa casa emprestada por Adão, seu único amigo.
Sem nenhuma perspectiva à frente, estressado e cada vez mais deprimido, Abel tomou uma decisão definitiva: ia se matar. Ele estava convencido de que era a melhor solução. Pensou em várias formas de suicídio e como não chegou a nenhuma que lhe parecesse viável, resolveu pesquisar na internet. Navegou por mais de duas horas e nada. Cansou, desligou o micro e foi dormir, ficando de retomar a busca no dia seguinte.
O dia nem havia clareado e lá estava Abel no computador. Foi então que encontrou um site que tinha como título: “Se você quer viver, o problema é seu, mas se você quer morrer, o problema é nosso.” Logo abaixo desse slogan, se encontrou o seguinte texto: “para morrer tranqüilamente, siga as orientações do Doutor Caim.”
Kit 23
Abel imediatamente mandou um e-mail ao Doutor pedindo mais informações. A resposta não tardou a chegar. Nela, o Doutor pedia um breve relato de sua vida para atendê-lo da melhor maneira. Abel ressaltou que gostaria que a sua morte não parecesse suicídio.
Três dias depois, chegou o e-mail tão esperado. Doutor Caim dava explicações detalhadas sobre os procedimentos a serem seguidos. O “paciente” deveria ir à loja indicada no e-mail, procurar pela sra. Eva e comprar o kit 23. Era entrar, comprar, pagar e não fazer nenhum comentário.
O kit era numa caixa pequena, lacrada, sem nenhuma informação externa. Assim que chegou em casa, abriu a caixa e verificou que havia quatro itens: um saco plástico de 20 litros super-resistente, um par de algemas, um rolo de fita adesiva larga e um cordão de 80 cm. Conforme as instruções do Doutor, Abel deveria sentar-se no chão, passar umas seis voltas de fita nos tornozelos. Em seguida, deveria colocar a algema apenas na mão esquerda. Na seqüência deveria colocar o saco plástico na cabeça e teria que amarrar o cordão bem forte na altura do pescoço, por cima do saco plástico. A partir desse momento, o ar ia começar a faltar. Então deveria colocar as duas mãos para trás do corpo e fechar a algema na mão direita. Em questão de minutos, estaria morto por asfixia e jamais alguém poderia dizer que ele havia se suicidado. Tudo levaria a crer que havia sido vítima de um crime.
Via-crúcis
Faltava um pequeno detalhe para completar a via-crúcis: Abel deveria se matar de manhã, por volta da oito horas para que desse tempo de seu corpo ser encontrado ainda no período vespertino. Doutor Caim sugeriu ainda que, uma vez que não ele tinha o hábito de receber visitas, ligasse para o seu amigo Adão, convidando-o pra almoçar. Era só deixar a porta entreaberta, pois assim que entrasse, encontraria seu corpo.
Com o almoço acertado para o dia seguinte, Abel sentou-se no sofá da sala e correu o olho pela casa. Era a sua última noite naquele ambiente. O que mais impressionava era a sua calma. Fez uma alimentação leve, releu algumas notícias no jornal e foi deitar.
Assim que acordou, lavou o rosto, escovou os dentes, desistiu do banho e sentou-se na cozinha. Mantinha a mesma calma da noite anterior. Com um copo de leite na mão, olhou para o relógio em cima da geladeira e viu que marcava 7h30. Agora só tinha que aguardar mais 30 minutos. Resolveu que morreria de pijama, pois assim não levantaria suspeita. Certificou-se que estava tudo em ordem. Ligou o micro, deletou todos os e-mails que havia recebido do Doutor, esvaziou a lixeira e desligou o PC.
Começa o ritual
Tinha chegado a hora. Caminhou até a entrada da casa, destravou a fechadura e deixou a porta encostada. Passou pela sala, pegou a caixa que estava sobre a mesa e foi para a cozinha. Abel já começava a ficar nervoso. Suas mãos estavam trêmulas e suadas, o coração disparava.
Sentou no chão e começou o ritual. Passou a fita adesiva pelos tornozelos várias vezes, colocou a algema na mão esquerda, enfiou o saco plástico na cabeça, amarrou bem forte o cordão no pescoço, e com os braços para trás do corpo fechou a algema na mão direita. Estava deitado no chão, imobilizado. Assim que começou a ficar sem ar, várias imagens passavam pela sua cabeça, principalmente a do filho, que ele jamais veria crescer. Depois de 90 segundos, sufocando e desesperado, percebeu a besteira que estava fazendo.
Começou a se debater no chão e pediu a Deus que lhe desse força pra se soltar. Numa última tentativa, fez um esforço sobre-humano e, sem saber como, conseguiu romper as algemas. Imediatamente, rasgou o saco plástico da cabeça e, respirando com dificuldade, retirou a fita adesiva das pernas. Ao se levantar, não acreditava na loucura pela qual acabava de passar. Enquanto se recuperava, o telefone tocou. Curiosamente não entrou em pânico. Só agradecia a Deus por estar vivo. Nada poderia ser pior do que a tentativa de suicídio. Resolveu atender.
Novo emprego
A ligação era de uma empresa que convocava Abel a se apresentar na manhã seguinte para uma entrevista, pois precisavam com urgência de uma pessoa com as suas qualificações. Ele não acreditava no que estava acontecendo. Mandou uma mensagem para o Doutor Caim informando que havia desistido daquela loucura e se desculpou.
Assim que Doutor Caim leu o e-mail, olhou para a sua esposa, sra. Eva, e disse: “conseguimos salvar mais uma vida, preciso indicar mais vezes esse kit 23 que possui algemas frágeis e falsas, além do saco plástico com microfuros que se rompem em, no máximo, dois minutos.” Ela respondeu: “tem razão Caim, aliás, já ia me esquecendo, o Abel começa a trabalhar na segunda-feira em uma de nossas empresas.”
Julio Scarparo (pai)