ficatempo

Contos e crônicas como passatempo

17.11.07

Em direção ao céu

 

No escuro e com má vontade, cada um de meus pés busca o seu respectivo chinelo. É difícil levantar da cama, principalmente com esta garoa horrível lá fora. Do mesmo jeito que a mala é levada pela esteira do aeroporto, o esquerdo e o direito me levam ao banheiro. De súbito, paro de escovar os dentes, mesmo com a boca cheia de espuma. Meu rosto está diferente. Nem tinha notado, mas quem está dentro do espelho não sou eu. “Qual será a minha verdadeira imagem?” Por mais maluco que possa parecer, não lembro da minha própria aparência. “Ou será que sou realmente aquele que o espelho mostra que sou?”

Que diferença faz? O importante é que hoje tenho de levar meu neto ao playground, logo após o café da manhã. Promessa é dívida. O menino anda meio triste por causa da separação dos pais. Sabia que o relacionamento do casal não terminaria bem. “Filha, o cara é um vagabundo, quer apenas o nosso dinheiro”, alertava. Mas ela estava cega… A paixão havia extirpado a razão.

- Vovô, posso levar a bola?

- Tá garoando, Gustavo.

- Mas eu quero jogar futebol. Quero ser o Pelé quando crescer!

- Quando o Pelé era pequeno, o avô dele também dizia que a garoa poderia deixá-lo doente. E, se isso acontecesse, ele ficaria sem jogar bola por um tempão.

Balanço do playground

O chuvisco não espanta as pessoas do parque. Vêem que o Sol se esforça pra ganhar espaço. Enquanto as nuvens não dão o braço a torcer, preciso fazer o menino gastar energia sem se molhar. Vejo um antigo balanço ao lado de uma imensa árvore. Como a garoa não está forte, folhas e galhos podem servir de guarda-chuva natural.

- Gustavo, olha que balanço lindo ali na frente! Vamos lá?

- Não.

- Vem com o vovô.

- Não quero.

Pego a mão do meu netinho e o levo ao brinquedo. Ele nem quer olhá-lo. Pra convencê-lo, finjo que me divirto no balanço. Nem dou bola para a placa que proíbe os “grandinhos” de brincar no balanço infantil. Durante toda a minha vida, tomei gosto de burlar regras. Quando jovem, por exemplo, entrei num famoso hotel do Rio de Janeiro pra cuspir no presidente da República, bem no meio de uma coletiva de imprensa. Não preciso dizer que apanhei dos seguranças, longe dos holofotes, é claro. Hoje faria o mesmo, porém já estou velho e enfadado. De qualquer forma, placas de advertência não significam nada para mim.

Metamorfose

A sensação do corpo balançando é prazerosa. Dou impulso e aumento a velocidade. Vou e volto, vou e volto, vou e volto. Nessas idas e vindas, vejo o céu e o chão, o céu e o chão, o céu e o chão. O céu com os seus mistérios e o chão com os seus vermes, como eu.

Mais uma vez a metamorfose se inicia. Assim como no espelho, diante do céu ele não sabe mais quem é. “Sou uma criança?” “Por que me deixaram aqui sozinho?” “Pai, cadê você?” “Pai, estou com medo!” “Eu estou perdido!” “Alguém me ajude!” A corrente do balanço se comove com o velho. Por isso, resolve libertá-lo de vez. Ela se solta do assento para deixar o ser humano seguir o seu caminho em direção ao céu.

 

criado por Julio Scarparo    9:10 — Arquivado em: Sem categoria

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