11.11.07
Happy hour cabeça
Foi uma revelação e tanto pra uma conversa de happy hour. Como todos os escravos pós-modernos, estava no barzinho apenas pra espairecer um pouco e, de alguma maneira, limpar-me do cotidiano profissional. A conhecida dum colega se aproxima de nós. “Gente, esta aqui é a Fernanda.” Ela tem uma beleza comum, nada de mais. O que salva um pouco são os olhos bem azuis e o corpo em bom estado, nem gorda, nem magra. Entra no bate-papo para mudar a minha percepção da realidade:
- Está provado que usamos, no máximo, apenas dez por cento da nossa capacidade cerebral.
- E qual é o problema, Fernanda? Isso não é suficiente pra gente trabalhar e compreender o que se passa na TV? – ironiza o filósofo da turma.
- O que é ce-re-bral? – pergunto brincando, enquanto tento bater palmas com os dedos das mãos esticados em forma de garra.
O papo-cabeça é cortado de supetão por causa dum corintiano bêbado que se encontra noutro grupo. “Segunda divisão é coisa do Palmeiras! E são-paulino é tudo bambi. O Corinthians é time de macho! Viva o Timão!”
Links da mente
Por Fernanda se encontrar em bom estado, nem gorda nem magra, e ter um oceano nos olhos, ofereço carona quando se despede.
- Mas você vai pra onde? - ela pergunta.
- No mesmo sentido que você, passarei por aquela porta e depois cairei na rua em frente.
No carro, após colocar um CD dos Beatles pra tocar, sinto-me na obrigação de ser o primeiro a puxar conversa, não sei por quê. Então começo pelo único tema que ouvi sair da boca dela:
- Aquela história da capacidade cerebral é verdadeira mesmo? – pergunto, mesmo já tendo escrito uma reportagem de 14 mil caracteres a respeito do assunto.
- É sim! Tudo o que os olhos captam, por exemplo, é armazenado em tempo real no cérebro e linkado às outras informações existentes (cores, cheiros, etc.). Os insights emergem dessa correlação. A maior parte “das vozes interiores” e “sacadas” que temos é formada assim. A loucura é que tudo se faz inconscientemente, sem a nossa vontade. Você dá comandos para o coração bater? Infelizmente, as pessoas se acomodam com os aproximadamente dez por cento.
Elementar, meu caro leitor
Durante a semana faço testes e mais testes voltados pra esse autoconhecimento. Cada vez que um pensamento diferente brota na minha cabeça, tento achar o que poderia tê-lo feito vir à tona. Quero saber mais: qual é o nascedouro da criatividade? O resultado da experiência é fantástico. Coloquei os pés num novo mundo, cheio de novidades para explorar.
Entre centenas e centenas de casos, vou contar o da semana passada. Eu dirigia tranqüilamente quando, sem mais nem menos, o hino nacional surge na minha cabeça. “Que ridículo! De que forma esta besteira entrou na minha mente?” Lembro-me de Fernanda e de suas palavras. Reduzo a marcha e jogo o carro pra faixa da direita.
Busco pistas com avidez. Segundos depois, descubro o cenário que meus olhos engoliram pra iniciar o hino: um senhor estava parado na calçada com os braços pra trás, olhando o movimento. Ao lado dele, um bar fechado, que tinha uma porta de ferro toda verde. Além disso, um camarada passava em frente do bar vestindo camiseta amarela, tipo da seleção brasileira de futebol. A junção do verde e amarelo, mais a postura de reverência do senhor, iniciou o hino.
criado por Julio Scarparo
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