3.11.07
Robert Johnson e a borboleta
O barulho do helicóptero estoura seus ouvidos. “Se tivesse uma espingarda, dava um tiro nessa droga”, garante a si mesmo. Normalmente o barulho não o incomodaria para escrever. No entanto, faz 48 horas que trabalha sem parar. Pior: tem de entregar, ainda hoje, um texto a respeito do lançamento dum molho de tomate pra uma revista de gastronomia. “Meu Deus, onde anotei a porcaria da entrevista que fiz com o maldito presidente da empresa do molho?” Neste instante, o telefone toca:
- Alô.
- Julio?
- Pois não?
- Delegado Roberto Antunes, tudo bem?
- Tudo jóia Charles Bronson. Quais são as novidades?
- Mortes estranhas estão ocorrendo aqui mesmo em São Caetano.
- Estranhas como?
- Talvez os moradores estejam morrendo por causa de intoxicação alimentar ou envenenamento. O fato é que dez homens, entre 21 e 35 anos, todos com formação na área de humanas, morreram nos últimos dois dias dentro da própria residência. Não há sinal de roubo.
- Você contou a outros jornalistas?
- Não, só pra você. Estava lhe devendo uma, não estava?
- Beleza. Me passa todas as informações dos moradores, com o nome dos hospitais, etc.
- Já passei, tudo está no seu e-mail.
- Obrigado Bronson!
“O tomate terá de esperar até amanhã. Preciso correr atrás dessa notícia.”
Eram duas horas da tarde. Em jejum e sem banho, Julio S. joga os longos cabelos para trás, escova os dentes, veste a desbotada camisa pólo, pega o bloco de anotações, a chave do carro e vai à casa dos familiares.
In loco
- Olá, boa tarde!
- Boa tarde.
- Sou jornalista. Gostaria de saber exatamente o que aconteceu com o professor de letras Fernando Magalhães.
- Entre.
O quarto do professor está de pernas pro ar. Livros e mais livros são vistos por toda parte: sobre a pequena mesa, em cima e embaixo da cama, no meio do quarto e dentro das gavetas, dividindo espaço com cuecas, meias e pijamas. Entre todos os títulos, um se destaca por causa do tamanho. É gigante, faz o Aurélio parecer cartilha infantil. Na capa, uma enorme borboleta amarela busca se desgrudar do fundo preto. Não há título, nem nome do autor ou da editora.
Naquele dia, fala com mais três famílias. Não consegue nenhuma explicação para as mortes. Antes de voltar pra casa, pára num dos bares da Av. Goiás. Como de costume, pede queijo quente e coca-cola. Finaliza com café expresso. Enquanto caminha em direção ao carro, vê um velho com a cara do Karl Marx a vender enciclopédia na calçada, bem ao lado da floricultura. “Já perdi o dia mesmo, vou dar uma olhada.”
Crossroads
Ao aproximar-se, o jornalista Julio S. percebe que todas as obras são iguais. “Nossa, é o livro da borboleta!” Movido pela curiosidade, compra um exemplar. Chegando em casa, toma banho, deita-se e dá início à leitura do romance. O sol nasce e ele continua lendo. Celular e campainha são ignorados. Julio lê incessantemente. Termina uma página, vai para a outra. Acaba a outra e vai para a seguinte. Começa um parágrafo e devora o que vem depois. Passa a língua no dedo e segue adiante na leitura. Está livre dos alimentos e do banheiro. Do emprego e dos colegas. Julio não sabe, mas lerá até a morte.
Eu sou o “Karl Marx”. Os interessados podem adquirir a obra na Av. Goiás, na altura do shopping da cidade, de segunda a sexta-feira, das 15 às 19 horas. O livro da borboleta custa 120 reais. Trata-se do melhor romance já escrito na face da Terra, sem exagero. Escrevo de um jeito completamente novo. O estilo é perfeito e único. Machado de Assis é pinto perto de mim. Confesso que não o escrevi sozinho. Para que a obra fosse inigualável, recebi uma mãozinha do mesmo empresário de Robert Johnson.
criado por Julio Scarparo
17:26 — Arquivado em: 
