ficatempo

Contos e crônicas como passatempo

24.11.07

O ratinho Ben

 

Era uma vez um ratinho chamado Ben. Cansado de viver na escuridão, ele sonhava com a companhia do Sol. Nada boba, a mãe o advertia: “jamais saia durante o dia, os seres humanos são maus e cruéis. Se pegarem você, não terão dó nem piedade. Lembre-se do que a coruja nos contou. Eles têm o hábito de nos usar em experiências terríveis. Além de arrancarem a pele dos roedores, também cortam o cérebro deles. A última moda é mexerem em nossos hormônios, ou sei lá no que, para fazerem as fêmeas se comportarem como machos e vice-versa.” Mas tudo entrava por um ouvido e saía pelo outro. Bichos humanos não o assustam. Quanto mais é alertado, mais ele deseja o Sol.

Estratégia

Numa manhã ensolarada, acorda mais confiante do que nunca. “Hoje conhecerei o Sol. Vou lavar o rosto e dar um giro por aí. Já escapei de gatos enormes, de aves de rapina e de cães ferozes. Sei que driblarei os malvados seres humanos.” Para a odisséia, Ben usará a estratégia de sempre: andar rápido pelos cantos. O quintal mais próximo da toca é ideal para a missão. Conhece o local como a palma da mão, ou melhor, da pata. “Até farei uma boquinha na cozinha após me bronzear.” Antes de sair beija a mãe adormecida.

O Sol

“Que gostoso! Então o Sol é um cobertor quentinho?” Ben está radiante porque, além de aquecê-lo, o Sol deixa tudo mais bonito e brilhante. As roupas estão molhadas no varal e há diversos brinquedos barulhentos espalhados pela grama. Com tantas imagens coloridas pra absorver, seus olhinhos não sabem pra onde mirar. No entanto, uma sensação de medo reina em seu coração. “Sinto que estou desprotegido, parece que a qualquer momento algo me atacará. Estou incrivelmente apavorado, algo dentro de mim diz que corro risco de morte. Mas sou ágil e esperto. Sou invisível quando quero, jamais me apanharão.”

Perfume da morte

As luzes de um carrinho lhe chamam a atenção. Ele se aproxima do brinquedo e o cheira. “Que barato! Plástico quente com luz embutida! E ainda por cima se mexe sozinho!” Diante dele a porta da cozinha se encontra aberta. “Será que lá dentro as coisas também estão diferentes?”

Como de hábito, escolhe um dos cantos da cozinha e dispara feito relâmpago. Mas o sonho acabou. “Droga! O que aconteceu? Não consigo me mexer! Droga! Droga!” Ele está preso num papel de cola especial para camundongos. “Minhas patas não se movem! Ai! Meu nariz e… meu olho… não desgrudam do chão! Eu vou morrer! Eu vou morrer! Preciso sair daqui agora, agora, agora, agora, agora!”

- Papai! Tem um ratinho na cozinha! Ele é bem bonitinho, parece de pelúcia. Gostei do narizinho cor-de-rosa dele.

Ben ouve passos pesados vindos em sua direção. Ele está nu na presença de todos. O coração só não pula do corpo porque metade da boca está colada no papel.

- Filha, o rato é perigoso. Vá brincar no seu quarto porque o papai vai jogá-lo no lixo. De cócoras, a mão gigante chega bem perto do ratinho, que sente o cheiro de sabonete barato.

- Então este é o perfume da morte? O que o homem está fazendo?

O grito

O pai dobra o papel sobre o rato. Ergue-se e fica parado durante cinco segundos. O silêncio mortal que antecede as tragédias é o mais profundo de todos. O silêncio mortal que antecede as tragédias é o mais profundo. O silêncio mortal que antecede as tragédias. O silêncio da onda gigante é assustador. O silêncio da onda gigante. O silêncio da onda. O silêncio e a ausência de seus antepassados são perturbadores. O silêncio e a ausência de seus antepassados. O silêncio e a ausência. Onda, silêncio, tragédia, ausência, você, onda, silêncio, tragédia, ausência, eu acendi uma vela pra você.

Ben sabe que será atacado “sem dó nem piedade” no próximo instante. Por isso grita desesperadamente, antes de o gigante esmagá-lo com os pés. O grito agudo faz todos os moradores da casa correrem à cozinha pra ver o que está acontecendo.

criado por Julio Scarparo    21:15 — Arquivado em: Sem categoria

17.11.07

Em direção ao céu

 

No escuro e com má vontade, cada um de meus pés busca o seu respectivo chinelo. É difícil levantar da cama, principalmente com esta garoa horrível lá fora. Do mesmo jeito que a mala é levada pela esteira do aeroporto, o esquerdo e o direito me levam ao banheiro. De súbito, paro de escovar os dentes, mesmo com a boca cheia de espuma. Meu rosto está diferente. Nem tinha notado, mas quem está dentro do espelho não sou eu. “Qual será a minha verdadeira imagem?” Por mais maluco que possa parecer, não lembro da minha própria aparência. “Ou será que sou realmente aquele que o espelho mostra que sou?”

Que diferença faz? O importante é que hoje tenho de levar meu neto ao playground, logo após o café da manhã. Promessa é dívida. O menino anda meio triste por causa da separação dos pais. Sabia que o relacionamento do casal não terminaria bem. “Filha, o cara é um vagabundo, quer apenas o nosso dinheiro”, alertava. Mas ela estava cega… A paixão havia extirpado a razão.

- Vovô, posso levar a bola?

- Tá garoando, Gustavo.

- Mas eu quero jogar futebol. Quero ser o Pelé quando crescer!

- Quando o Pelé era pequeno, o avô dele também dizia que a garoa poderia deixá-lo doente. E, se isso acontecesse, ele ficaria sem jogar bola por um tempão.

Balanço do playground

O chuvisco não espanta as pessoas do parque. Vêem que o Sol se esforça pra ganhar espaço. Enquanto as nuvens não dão o braço a torcer, preciso fazer o menino gastar energia sem se molhar. Vejo um antigo balanço ao lado de uma imensa árvore. Como a garoa não está forte, folhas e galhos podem servir de guarda-chuva natural.

- Gustavo, olha que balanço lindo ali na frente! Vamos lá?

- Não.

- Vem com o vovô.

- Não quero.

Pego a mão do meu netinho e o levo ao brinquedo. Ele nem quer olhá-lo. Pra convencê-lo, finjo que me divirto no balanço. Nem dou bola para a placa que proíbe os “grandinhos” de brincar no balanço infantil. Durante toda a minha vida, tomei gosto de burlar regras. Quando jovem, por exemplo, entrei num famoso hotel do Rio de Janeiro pra cuspir no presidente da República, bem no meio de uma coletiva de imprensa. Não preciso dizer que apanhei dos seguranças, longe dos holofotes, é claro. Hoje faria o mesmo, porém já estou velho e enfadado. De qualquer forma, placas de advertência não significam nada para mim.

Metamorfose

A sensação do corpo balançando é prazerosa. Dou impulso e aumento a velocidade. Vou e volto, vou e volto, vou e volto. Nessas idas e vindas, vejo o céu e o chão, o céu e o chão, o céu e o chão. O céu com os seus mistérios e o chão com os seus vermes, como eu.

Mais uma vez a metamorfose se inicia. Assim como no espelho, diante do céu ele não sabe mais quem é. “Sou uma criança?” “Por que me deixaram aqui sozinho?” “Pai, cadê você?” “Pai, estou com medo!” “Eu estou perdido!” “Alguém me ajude!” A corrente do balanço se comove com o velho. Por isso, resolve libertá-lo de vez. Ela se solta do assento para deixar o ser humano seguir o seu caminho em direção ao céu.

 

criado por Julio Scarparo    9:10 — Arquivado em: Sem categoria

11.11.07

Happy hour cabeça

 

Foi uma revelação e tanto pra uma conversa de happy hour. Como todos os escravos pós-modernos, estava no barzinho apenas pra espairecer um pouco e, de alguma maneira, limpar-me do cotidiano profissional. A conhecida dum colega se aproxima de nós. “Gente, esta aqui é a Fernanda.” Ela tem uma beleza comum, nada de mais. O que salva um pouco são os olhos bem azuis e o corpo em bom estado, nem gorda, nem magra. Entra no bate-papo para mudar a minha percepção da realidade:

- Está provado que usamos, no máximo, apenas dez por cento da nossa capacidade cerebral.

- E qual é o problema, Fernanda? Isso não é suficiente pra gente trabalhar e compreender o que se passa na TV? – ironiza o filósofo da turma.

- O que é ce-re-bral? – pergunto brincando, enquanto tento bater palmas com os dedos das mãos esticados em forma de garra.

O papo-cabeça é cortado de supetão por causa dum corintiano bêbado que se encontra noutro grupo. “Segunda divisão é coisa do Palmeiras! E são-paulino é tudo bambi. O Corinthians é time de macho! Viva o Timão!”

Links da mente

Por Fernanda se encontrar em bom estado, nem gorda nem magra, e ter um oceano nos olhos, ofereço carona quando se despede.

- Mas você vai pra onde? - ela pergunta.

- No mesmo sentido que você, passarei por aquela porta e depois cairei na rua em frente.

No carro, após colocar um CD dos Beatles pra tocar, sinto-me na obrigação de ser o primeiro a puxar conversa, não sei por quê. Então começo pelo único tema que ouvi sair da boca dela:

- Aquela história da capacidade cerebral é verdadeira mesmo? – pergunto, mesmo já tendo escrito uma reportagem de 14 mil caracteres a respeito do assunto.

- É sim! Tudo o que os olhos captam, por exemplo, é armazenado em tempo real no cérebro e linkado às outras informações existentes (cores, cheiros, etc.). Os insights emergem dessa correlação. A maior parte “das vozes interiores” e “sacadas” que temos é formada assim. A loucura é que tudo se faz inconscientemente, sem a nossa vontade. Você dá comandos para o coração bater? Infelizmente, as pessoas se acomodam com os aproximadamente dez por cento.

Elementar, meu caro leitor

Durante a semana faço testes e mais testes voltados pra esse autoconhecimento. Cada vez que um pensamento diferente brota na minha cabeça, tento achar o que poderia tê-lo feito vir à tona. Quero saber mais: qual é o nascedouro da criatividade? O resultado da experiência é fantástico. Coloquei os pés num novo mundo, cheio de novidades para explorar. 
 
Entre centenas e centenas de casos, vou contar o da semana passada. Eu dirigia tranqüilamente quando, sem mais nem menos, o hino nacional surge na minha cabeça. “Que ridículo! De que forma esta besteira entrou na minha mente?” Lembro-me de Fernanda e de suas palavras. Reduzo a marcha e jogo o carro pra faixa da direita.

Busco pistas com avidez. Segundos depois, descubro o cenário que meus olhos engoliram pra iniciar o hino: um senhor estava parado na calçada com os braços pra trás, olhando o movimento. Ao lado dele, um bar fechado, que tinha uma porta de ferro toda verde. Além disso, um camarada passava em frente do bar vestindo camiseta amarela, tipo da seleção brasileira de futebol. A junção do verde e amarelo, mais a postura de reverência do senhor, iniciou o hino.

criado por Julio Scarparo    7:36 — Arquivado em: Sem categoria

3.11.07

Robert Johnson e a borboleta

 

O barulho do helicóptero estoura seus ouvidos. “Se tivesse uma espingarda, dava um tiro nessa droga”, garante a si mesmo. Normalmente o barulho não o incomodaria para escrever. No entanto, faz 48 horas que trabalha sem parar. Pior: tem de entregar, ainda hoje, um texto a respeito do lançamento dum molho de tomate pra uma revista de gastronomia. “Meu Deus, onde anotei a porcaria da entrevista que fiz com o maldito presidente da empresa do molho?” Neste instante, o telefone toca:

- Alô.

- Julio?

- Pois não?

- Delegado Roberto Antunes, tudo bem?

- Tudo jóia Charles Bronson. Quais são as novidades?

- Mortes estranhas estão ocorrendo aqui mesmo em São Caetano.

- Estranhas como?

- Talvez os moradores estejam morrendo por causa de intoxicação alimentar ou envenenamento. O fato é que dez homens, entre 21 e 35 anos, todos com formação na área de humanas, morreram nos últimos dois dias dentro da própria residência. Não há sinal de roubo.

- Você contou a outros jornalistas?

- Não, só pra você. Estava lhe devendo uma, não estava?

- Beleza. Me passa todas as informações dos moradores, com o nome dos hospitais, etc.

- Já passei, tudo está no seu e-mail.

- Obrigado Bronson!

“O tomate terá de esperar até amanhã. Preciso correr atrás dessa notícia.”

Eram duas horas da tarde. Em jejum e sem banho, Julio S. joga os longos cabelos para trás, escova os dentes, veste a desbotada camisa pólo, pega o bloco de anotações, a chave do carro e vai à casa dos familiares.

In loco

- Olá, boa tarde!

- Boa tarde.

- Sou jornalista. Gostaria de saber exatamente o que aconteceu com o professor de letras Fernando Magalhães.

- Entre.

O quarto do professor está de pernas pro ar. Livros e mais livros são vistos por toda parte: sobre a pequena mesa, em cima e embaixo da cama, no meio do quarto e dentro das gavetas, dividindo espaço com cuecas, meias e pijamas. Entre todos os títulos, um se destaca por causa do tamanho. É gigante, faz o Aurélio parecer cartilha infantil. Na capa, uma enorme borboleta amarela busca se desgrudar do fundo preto. Não há título, nem nome do autor ou da editora.

Naquele dia, fala com mais três famílias. Não consegue nenhuma explicação para as mortes. Antes de voltar pra casa, pára num dos bares da Av. Goiás. Como de costume, pede queijo quente e coca-cola. Finaliza com café expresso. Enquanto caminha em direção ao carro, vê um velho com a cara do Karl Marx a vender enciclopédia na calçada, bem ao lado da floricultura. “Já perdi o dia mesmo, vou dar uma olhada.”

Crossroads

Ao aproximar-se, o jornalista Julio S. percebe que todas as obras são iguais. “Nossa, é o livro da borboleta!” Movido pela curiosidade, compra um exemplar. Chegando em casa, toma banho, deita-se e dá início à leitura do romance. O sol nasce e ele continua lendo. Celular e campainha são ignorados. Julio lê incessantemente. Termina uma página, vai para a outra. Acaba a outra e vai para a seguinte. Começa um parágrafo e devora o que vem depois. Passa a língua no dedo e segue adiante na leitura. Está livre dos alimentos e do banheiro. Do emprego e dos colegas. Julio não sabe, mas lerá até a morte.

Eu sou o “Karl Marx”. Os interessados podem adquirir a obra na Av. Goiás, na altura do shopping da cidade, de segunda a sexta-feira, das 15 às 19 horas. O livro da borboleta custa 120 reais. Trata-se do melhor romance já escrito na face da Terra, sem exagero. Escrevo de um jeito completamente novo. O estilo é perfeito e único. Machado de Assis é pinto perto de mim. Confesso que não o escrevi sozinho. Para que a obra fosse inigualável, recebi uma mãozinha do mesmo empresário de Robert Johnson.

criado por Julio Scarparo    17:26 — Arquivado em: Sem categoria

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