ficatempo

Contos e crônicas como passatempo

13.10.07

Poço dos Desejos

 

Gosto de caminhar em parques. A sombra das árvores e o som das folhas me alegram. Quando inicio a caminhada, batata. Lembro-me do sorriso de Raimundo, um dos personagens criados pelo cronista Paulo Mendes Campos. O sorridente dá a impressão de dizer exatamente isto: “acabaram de inaugurar o mundo. O sol faz luz. O mar é cheio de peixes. Há montanhas, rios, lagos, árvores, há cores e sons, bichos de todas as formas.”

Pelo menos duas vezes por semana, depois de almoçar, dou uma volta olímpica no Parque da Luz, um dos mais antigos da cidade de São Paulo. Nessas andanças, percebo que um negro, que de tão negro é azul, costuma sentar-se no banco ao lado da gruta com cascata. Deve ter mais ou menos 45 anos de idade. Ávido por uma boa história, como todos os jornalistas, puxo conversa:

- E aí, tranqüilo?

- Tudo bem.

- Reparei que o senhor vem sempre aqui.

- Gosto do ritmo da natureza. Esse negócio de ficar correndo o dia inteiro é bobagem. Cê acha normal ficar preso no trânsito, em um escritório ou em qualquer fila? Eu gosto mesmo é do ritmo dos animais e das árvores.

Para arrancar mais palavras do negro embriagado, dou outra cutucada:

- E qual é o ritmo da natureza, dos animais e das árvores?

- Por que você não pergunta praquela aranha? Ela vive naquele galho há anos. Viu? Naquela árvore, lá. Achou? Então, só eu sei que ela se esconde ali. Pergunta pra ela.

Nunca na minha vida eu tinha visto uma aranha tão grande. Parece ter o tamanho da minha mão. As pernas peludas grudam no meio da imensa teia, que vai até o velho tronco da árvore.

- Pergunta pra ela qual é o ritmo da natureza – insistiu o negro, dando risada. Depois de rir, falou em nome do aracnídeo:

- Ela apenas vive. Só que, ultimamente, tenho notado que as moedas que as pessoas jogam neste Poço dos Desejos têm mexido com ela. Eu sei porque quando cato as moedas dou uma olhada nela. Vejo que se move de um jeito estranho.

Neste instante, aparece uma gorda que come um cachorro-quente feito porca. Ela tira um tostão do bolso e o lança no poço. No entanto, a moeda não cai na água. Fica na beirada. Olho para a aranha. Ela usa a teia como mola e salta. Se aproxima da moeda e, com a pata, ou pernas, sei lá, tenta empurrá-la para dentro. “Desejo ser rainha!” Mas não dá tempo. O porco do marido, dando uma de macho, a esmaga com a botina.

criado por Julio Scarparo    9:57 — Arquivado em: Sem categoria

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