ficatempo

Contos e crônicas como passatempo

6.10.07

O pulo do gato

 

- Que cheiro estranho é este? – Amanda pergunta para si mesma, assim que abre a porta. “Parece que o fogão está vazan…”

- Meu Deus!

Um enorme gato preto está sentado em cima da geladeira. De olhar sereno e soberano, o felino encara a dona da casa. As penas verdes espalhadas pelo chão revelam que o papagaio não existe mais. As frases ridículas que a ave aprendera durante anos foram absorvidas pelo estômago do gato. Já o peixinho dourado, à moda de Walt Disney, não deixa vestígios no feio aquário de água suja.

- Meu Deus!

Para enfrentar o invasor, Amanda pega a vassoura que está de folga no quintal. Ela fecha os olhos e… Acerta sem querer a velha e inocente geladeira. O impacto foi tão violento que o ventre do eletrodoméstico se abre, para desespero de dois ovos, que se espatifam no chão.

- Meu Deus!

A peste tinha de morrer. “Mas como?” Pensa em ratoeira, no veneno das baratas, em chamar seu cachorro pulguento…CADÊ MEU CACHORRO?

- Meu Deus!

O coitado está traumatizado, diria em estado de choque. Treme muito. Está na cara que o pinscher acabara de levar uma baita surra do bichano. “Sai de trás da porta, vem no colo da mamãe”, diz Amanda, com lágrimas nos olhos.

Capacete mágico

Quando se ergue, sente um frio na espinha. Olha pra trás e vê o enorme gato preto diante dela. Ela sabe que será a próxima vítima. O fato de seus braços estarem enrolados no cãozinho a coloca em desvantagem. “Como me defenderei desse jeito?”, avalia. Já a peste negra se agiganta, seus pêlos estão arrepiados, o que o torna ainda mais amedrontador.

Nem dá tempo de gritar “Meu Deus!” O pulo do gato é rápido e preciso. Com a velocidade da luz, ele se encaixa na cabeça dela. As patas dianteiras apertam os olhos da mulher com uma força sobrenatural, enquanto o órgão genital unge os cabelos ondulados, cumprindo uma espécie de ritual macabro. Se alguém estivesse assistindo à luta, dependendo do ângulo, diria que a balzaquiana rodopiava com um capacete preto ou dançava alguma música folclórica portuguesa.

- Socorro!

Tão logo o capacete começa a funcionar, seus olhos viram do avesso. Nocaute no início do primeiro round. Pela primeira vez na vida, Amanda olha para dentro de si. “Não pode ser…”, lamenta a dona da casa, ao vasculhar seu interior cuidadosamente. “Só encontro castelos de carta… Ei, quem foi que colocou uma estátua de Belzebu aqui? Duendes? Por que diabo eles correm de língua de fora, dando piruetas e cambalhotas sem parar de rir?” Nas densas trevas, à esquerda de Amanda, um par de olhos flutuantes se aproxima. “Meu Deus!”

O par de olhos sentencia:

- Notou como você transborda egoísmo, avareza, amargura, individualismo, ganância, inveja, fofoca, vingança, maldade, soberba e lascívia?

Por incrível que pareça, Amanda passara a vida inteira sem ter a menor noção de sua monumental, repito, monumental insanidade. As poucas coisas boas que viu, tipo conselhos e caridades, estavam tão misturadas com motivações duvidosas que nem pesaram na balança… Na escuridão, selando a sua ruína, ela descobre que o cheiro estranho é de enxofre. “Meu Deus!”

criado por Julio Scarparo    11:40 — Arquivado em: Sem categoria

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