ficatempo

Contos e crônicas como passatempo

27.10.07

Vitória na hora H

 

Moisés estende as mãos sobre o Mar Vermelho com toda a convicção do mundo. Uma voz interior lhe diz que o escape virá, apesar da violenta perseguição do homem rico, um faraó desonesto e ignorante. Aliás, diga-se de passagem, esse riquinho era um tremendo pé-frio, capaz de azarar a vida de uma nação inteira.

Os milhares de fugitivos grudam os olhos na mão do profeta. Ao olharem a face de Moisés, reparam que ela começa a resplandecer, sem nenhuma explicação. Mas esse brilho não seria suficiente para livrá-los de serem sepultados no mar. De acordo com registros da época, o clima era tão tenso que muitos choravam sem perceber.

Carnificina

De repente, uma nuvem de poeira se levanta no horizonte: é o sinal de que a carnificina ocorrerá em, no máximo, 20 minutos. Em menos de 10, o batalhão já está com a espada desembainhada pronta para cortar a cabeça dos israelitas, sem dó nem piedade.

Justamente nessa hora, um forte vento realiza algo inacreditável: empurra as águas, um tanto para a direita, outro tanto para a esquerda, formando duas paredes colossais e… pernas para que te quero! Agora, os filhos de Israel estão na outra margem do mar. Segundos depois, as paredes caem sobre o exército do faraó.

A sensação de livramento é tão emocionante que Miriam não se contém. A irmã do profeta pega um tamborim e bota pra quebrar: dança, canta, pula e se joga no chão, em uma coreografia muito parecida com a dos Beatles, que foi apresentada no filme A Hard Day’s Night (1964), para a música Can’t by my Love. A multidão vai no embalo da profetisa. Uma festa inesquecível para uma linda vitória na hora H.

criado por Julio Scarparo    15:44 — Arquivado em: Sem categoria

21.10.07

Lennon e Batista

 

Neste mês de outubro, o programa de televisão da BBC de Londres apresentou uma foto rara de John Lennon quando ele era adolescente. O futuro beatle, que já tocava, vestia um casaco de pele de camelo e tinha um topete à moda de Elvis Presley. O garoto de sorriso melancólico, por mais que pudesse sonhar, jamais imaginaria, nem de longe, que seria o que foi. Fiquei contemplando a foto por alguns minutos, como todos os fãs ao redor do mundo. Confesso que procurei um sinal na imagem que revelasse algo do tipo: aguardem, em breve, muito em breve, este menino pobre causará tanto impacto na juventude que chegará a dizer em 1966: “somos mais populares do que Jesus Cristo.”

Não encontrei um sinal sequer, porém de modo virtual, a árvore já estava na semente. A história de que “tudo já se encontra escrito nas estrelas” é verdadeira? Leitor, fique tranqüilo, não vou direcionar o texto para a aniquilação do esforço individual. Na maior parte das vezes, os que chegam ao topo têm de ralar bastante. No entanto, será que existe a predestinação? Digo isso porque apenas o marketing e a genialidade não são suficientes para alguém “acontecer”. É preciso ter sorte, estar “no local certo na hora certa”, etc. Se continuarmos nessa linha de raciocínio, talvez pensemos que, no fim das contas, “o cara tem que ser escolhido.” Mas por quem e para quê? Há uma missão que deve ser desempenhada por nós?

O profeta

Desse John vou para um outro John, mais antigo e tão alucinado quanto Lennon: João Batista, aquele que comia gafanhoto e mel silvestre. Como não há, obviamente, nenhuma foto do profeta, e as pinturas existentes não resolvem o meu problema, fui buscar no texto bíblico algum sinal em Batista que pudesse revelar a sua grande missão: chamar o povo ao arrependimento, preparando-o para o ministério de Jesus. Para a minha surpresa, achei o sinal, ou melhor, a semente.

A gestante Maria visita a prima Isabel, que carrega João no ventre. Quando Maria entra na casa e diz “olá”, Batista, aos seis meses de existência, começa a saltar dentro da barriga da mãe. “Quando você entrou e me cumprimentou, no momento em que ouvi sua voz, de alegria a minha criança se moveu dentro de mim”, revela Isabel. Joãozinho (não me pergunte como) já sabia que iria nascer e morrer pelo Messias.

 

criado por Julio Scarparo    11:37 — Arquivado em: Sem categoria

13.10.07

Poço dos Desejos

 

Gosto de caminhar em parques. A sombra das árvores e o som das folhas me alegram. Quando inicio a caminhada, batata. Lembro-me do sorriso de Raimundo, um dos personagens criados pelo cronista Paulo Mendes Campos. O sorridente dá a impressão de dizer exatamente isto: “acabaram de inaugurar o mundo. O sol faz luz. O mar é cheio de peixes. Há montanhas, rios, lagos, árvores, há cores e sons, bichos de todas as formas.”

Pelo menos duas vezes por semana, depois de almoçar, dou uma volta olímpica no Parque da Luz, um dos mais antigos da cidade de São Paulo. Nessas andanças, percebo que um negro, que de tão negro é azul, costuma sentar-se no banco ao lado da gruta com cascata. Deve ter mais ou menos 45 anos de idade. Ávido por uma boa história, como todos os jornalistas, puxo conversa:

- E aí, tranqüilo?

- Tudo bem.

- Reparei que o senhor vem sempre aqui.

- Gosto do ritmo da natureza. Esse negócio de ficar correndo o dia inteiro é bobagem. Cê acha normal ficar preso no trânsito, em um escritório ou em qualquer fila? Eu gosto mesmo é do ritmo dos animais e das árvores.

Para arrancar mais palavras do negro embriagado, dou outra cutucada:

- E qual é o ritmo da natureza, dos animais e das árvores?

- Por que você não pergunta praquela aranha? Ela vive naquele galho há anos. Viu? Naquela árvore, lá. Achou? Então, só eu sei que ela se esconde ali. Pergunta pra ela.

Nunca na minha vida eu tinha visto uma aranha tão grande. Parece ter o tamanho da minha mão. As pernas peludas grudam no meio da imensa teia, que vai até o velho tronco da árvore.

- Pergunta pra ela qual é o ritmo da natureza – insistiu o negro, dando risada. Depois de rir, falou em nome do aracnídeo:

- Ela apenas vive. Só que, ultimamente, tenho notado que as moedas que as pessoas jogam neste Poço dos Desejos têm mexido com ela. Eu sei porque quando cato as moedas dou uma olhada nela. Vejo que se move de um jeito estranho.

Neste instante, aparece uma gorda que come um cachorro-quente feito porca. Ela tira um tostão do bolso e o lança no poço. No entanto, a moeda não cai na água. Fica na beirada. Olho para a aranha. Ela usa a teia como mola e salta. Se aproxima da moeda e, com a pata, ou pernas, sei lá, tenta empurrá-la para dentro. “Desejo ser rainha!” Mas não dá tempo. O porco do marido, dando uma de macho, a esmaga com a botina.

criado por Julio Scarparo    9:57 — Arquivado em: Sem categoria

6.10.07

O pulo do gato

 

- Que cheiro estranho é este? – Amanda pergunta para si mesma, assim que abre a porta. “Parece que o fogão está vazan…”

- Meu Deus!

Um enorme gato preto está sentado em cima da geladeira. De olhar sereno e soberano, o felino encara a dona da casa. As penas verdes espalhadas pelo chão revelam que o papagaio não existe mais. As frases ridículas que a ave aprendera durante anos foram absorvidas pelo estômago do gato. Já o peixinho dourado, à moda de Walt Disney, não deixa vestígios no feio aquário de água suja.

- Meu Deus!

Para enfrentar o invasor, Amanda pega a vassoura que está de folga no quintal. Ela fecha os olhos e… Acerta sem querer a velha e inocente geladeira. O impacto foi tão violento que o ventre do eletrodoméstico se abre, para desespero de dois ovos, que se espatifam no chão.

- Meu Deus!

A peste tinha de morrer. “Mas como?” Pensa em ratoeira, no veneno das baratas, em chamar seu cachorro pulguento…CADÊ MEU CACHORRO?

- Meu Deus!

O coitado está traumatizado, diria em estado de choque. Treme muito. Está na cara que o pinscher acabara de levar uma baita surra do bichano. “Sai de trás da porta, vem no colo da mamãe”, diz Amanda, com lágrimas nos olhos.

Capacete mágico

Quando se ergue, sente um frio na espinha. Olha pra trás e vê o enorme gato preto diante dela. Ela sabe que será a próxima vítima. O fato de seus braços estarem enrolados no cãozinho a coloca em desvantagem. “Como me defenderei desse jeito?”, avalia. Já a peste negra se agiganta, seus pêlos estão arrepiados, o que o torna ainda mais amedrontador.

Nem dá tempo de gritar “Meu Deus!” O pulo do gato é rápido e preciso. Com a velocidade da luz, ele se encaixa na cabeça dela. As patas dianteiras apertam os olhos da mulher com uma força sobrenatural, enquanto o órgão genital unge os cabelos ondulados, cumprindo uma espécie de ritual macabro. Se alguém estivesse assistindo à luta, dependendo do ângulo, diria que a balzaquiana rodopiava com um capacete preto ou dançava alguma música folclórica portuguesa.

- Socorro!

Tão logo o capacete começa a funcionar, seus olhos viram do avesso. Nocaute no início do primeiro round. Pela primeira vez na vida, Amanda olha para dentro de si. “Não pode ser…”, lamenta a dona da casa, ao vasculhar seu interior cuidadosamente. “Só encontro castelos de carta… Ei, quem foi que colocou uma estátua de Belzebu aqui? Duendes? Por que diabo eles correm de língua de fora, dando piruetas e cambalhotas sem parar de rir?” Nas densas trevas, à esquerda de Amanda, um par de olhos flutuantes se aproxima. “Meu Deus!”

O par de olhos sentencia:

- Notou como você transborda egoísmo, avareza, amargura, individualismo, ganância, inveja, fofoca, vingança, maldade, soberba e lascívia?

Por incrível que pareça, Amanda passara a vida inteira sem ter a menor noção de sua monumental, repito, monumental insanidade. As poucas coisas boas que viu, tipo conselhos e caridades, estavam tão misturadas com motivações duvidosas que nem pesaram na balança… Na escuridão, selando a sua ruína, ela descobre que o cheiro estranho é de enxofre. “Meu Deus!”

criado por Julio Scarparo    11:40 — Arquivado em: Sem categoria

Report abuse Close
Am I a spambot? yes definately
http://ficatempo.blog.terra.com.br
 
 
 
Thank you Close

Sua denúncia foi enviada.

Em breve estaremos processando seu chamado para tomar as providências necessárias. Esperamos que continue aproveitando o serviço e siga participando do Terra Blog.