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Contos e crônicas como passatempo

29.9.07

Freqüência de Lúcifer

 

A mulher mais linda da cidade era minha amiga. Nos conhecemos num parque próximo de casa. Ela corria pra manter a forma e eu, pra perder a barriga. Um dia criei coragem e emparelhei do seu lado. Quando ela olhou pra mim, eu disse: “tá vendo aquele cachorro? Fica vendo. Todos os domingos ele esfrega o corpo naquela grade de metal. Repara.” Paramos de correr pra observar o cão bege, de estatura mediana, digo, de médio porte. Dito e feito. O cãozinho parecia um pincel. Todo alegre e exibido, lambuzava a grade com o corpo, primeiro com a parte esquerda, depois se virava e voltava em sentido contrário fazendo o mesmo.

Em vez de dizer “que lindinho” ou qualquer coisa que o valha, Fernanda afirmou:

- Este cão foi pintor em outra vida.

“Putz, vai ser difícil sustentar o diálogo”, pensei. Me recompus e falei a primeira coisa que geralmente passa pela minha cabeça nessas situações:

- É verdade.

- Tá me gozando?

- Não, não, de forma alguma. Estudei os ensinamentos de Allan Kardec. Li “O Evangelho Segundo o Espiritismo” - lembrei à queima-roupa.

- Sério? Pra mim Kardec é o máximo, está no mesmo nível de Buda e Jesus.

Mesmo sendo protestante, dei corda no assunto pra ela continuar a falar - costumo ser paciente com mulheres de beleza especial:

- Pelo que li, esse espírita francês era um cara muito inteligente, não era? Vivia com obras de filosofia debaixo do braço.

- Ele lia muito sim – ela respondeu. Aí começou a falar pelos cotovelos. A essa altura da conversa já estávamos sentados num banco, chupando sorvete. Se quisesse, daria tempo de eu tomar um pote de dois litros… Escuta só.

Revelações

Eu me interessei pelo espiritismo ao participar de uma pesquisa. O grupo queria provar que os objetos, tipo garfo, moeda e copo, se moviam sozinhos, geralmente sem ninguém por perto. Não apenas isso. Queria provar que, assim como nós, eles teriam personalidade. Isso porque os seres desencarnados, segundo uma linha do espiritismo, têm a capacidade de fazer dos objetos a sua morada. Para conseguir provas, compramos um monte de quinquilharias e as jogamos no quarto dum pequeno castelo em Ribeirão Pires, que alugamos por uma noite. Miramos a filmadora na cama, onde estavam todos os objetos e fomos embora.

Na manhã seguinte, as imagens nos deixaram perplexos. Bexigas se enchiam sozinhas e bolas de tênis atacavam a parede. Teve até caneta se equilibrando no travesseiro. Uma farra generalizada! Levamos a gravação para os entendidos no assunto. Nem precisaram repassar o DVD. De primeira, constataram a farsa. Um idiota da nossa equipe nos fez de palhaços…

Perseguição

O assunto teria morrido ali se, três dias depois, eu não começasse a ser atacada pelos benditos objetos. Vou dar exemplos. Ao abrir o guarda-chuva, uma vareta penetrou a minha carne, o que causou sangramento. Também houve o caso da janela que tentou me decepar. Ela foi mais rápida do que eu e esmagou meus finos dedos, causando enorme marca de sangue pisado, que demorou bastante pra desaparecer. Até meus óculos estavam violentos. Ao pegá-lo, a dobra da armação me mordeu.

Fiquei meditando pra descobrir a razão das agressões. Repassei em minha mente tudo o que aconteceu, antes de cada atentado. Dois meses depois, achei a resposta. Era óbvio. Cada vez que eu pensava: “sou a mulher mais bela de todos os tempos”, imediatamente, no mesmo instante, o objeto mais próximo me atacava. Não por mal, apenas pra me conscientizar de que sou humana, de beleza efêmera, e que de maneira alguma poderia me considerar superior aos meus semelhantes. A ficha caiu e os ataques terminaram.

Conclusão

Após ouvir o relato, eu disse que, a meu ver, os espíritos não estavam na jogada. O que existe é uma energia da própria natureza a serviço da preservação das pessoas. Essa força deseja nos livrar do perigo. Quando alguém se ensoberbece ou deseja coisas ruins, cedo ou tarde entra na freqüência de Lúcifer. Daí a importância de prestar atenção aos sinais, porém se o camarada insiste em permanecer na onda maligna, deve ter peito pra agüentar as conseqüências de trilhar o caminho da perdição.

criado por Julio Scarparo    17:30 — Arquivado em: Sem categoria

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