ficatempo

Contos e crônicas como passatempo

22.9.07

Fonte da Juventude

 

Gastei a vida inteira atrás da imortalidade. Jamais aceitei a idéia de morrer ou de perder meus entes queridos. Estudei Einstein, Freud, Jung, as pirâmides e o diabo. Torci a Bíblia a fim de conseguir respostas. Falei com Deus e o mundo. Li no original as principais obras de todos os tempos. Virei do avesso e raspei até mesmo títulos de menor fôlego, como o Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde. Concluí que a maior parte dos estudiosos e escritores está desolada. Nós sentimos as mesmas dores.

À medida que o tempo ia passando, mais aflito eu ficava, pois em breve me transformaria em foto, vídeo, gravação, lembrança, memória. Mais duas gerações pra frente e meus vestígios desapareceriam, somente as palavras que emiti continuariam a navegar pelos ares, até a freqüência ser capturada, num futuro distante, por um imbecil qualquer. Aos sessenta anos de idade, desisti de procurar respostas. Com sorte, teria ainda mais 20, talvez 30 anos. Chegou o momento de eu me conformar com o ciclo da natureza, tal qual o leopardo que busca uma sombra bem escondida para se despedir de tudo, sem grilo algum, de maneira simples e natural. Admiti que jamais encontraria Cocanha, lendário país francês onde está localizada a Fonte da Juventude.

Quando a Morte vier jogar xadrez comigo, como fez em O Sétimo Selo, de Bergman, vou esparramar as peças no tabuleiro, a caveira de capuz vencerá por WO. A vitória não virá por meio de um xeque-mate. Vou me entregar de bandeja: o camundongo já estará preso num papel de cola ou em uma ratoeira, na hora eu vejo. Restará somente o último grito antes de eu ser lançado nalgum entulho.

Lá vem o trem

Ao completar seis décadas de vida compreendi o caminhar daquele velho, que todos os dias, enquanto esperava o trem chegar, ficava andando tranqüilamente na plataforma, de uma ponta a outra, olhando tudo calmamente: o cachorro preto que sempre corria atrás do trem, sentido Mauá, que partia minutos antes do nosso; o fino poste de iluminação, a brincadeira dos pássaros, as cores das roupas dos passageiros, a beleza das jovens, a ansiedade dos imberbes. Um dia ele afundou os olhos em mim, na época um adolescente.  Viu tudo. Os sonhos, a incerteza, a perdição. Viu um camundongo a espernear num labirinto em busca do queijo que nunca aparece. Ou do escape que nunca vem. Envergonhado, desviei o olhar para os trilhos.

Então é assim?

Finalmente tudo está se apagando. Na escuridão profunda, ouço apenas a voz de meus familiares: “ele está morrendo!” Quero dizer a todos: “não, estou bem, estou ouvindo tudo, já não sinto dor!” Mas não dá tempo. Começo a não ouvir direito. O último dos cinco sentidos, que ainda funciona, começa a entrar em pane. Um som abafado, grave, tipo do bumbo da bateria - porém sem definição - vai tampando meus ouvidos. “Será que é a batida do meu coração?” Segundos depois me distancio deles, e eles de mim… “Então é assim após a morte? Totó! O que você está fazendo aqui com essa bolinha na boca?”

criado por Julio Scarparo    8:29 — Arquivado em: Sem categoria

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