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Contos e crônicas como passatempo

15.9.07

A gente nunca vai dar certo

 

“A gente nunca vai dar certo”, disse ela, depois de bater a porta do carro. Assimilo o golpe e saio cantando pneu. Ao fazer uma ultrapassagem forçada pela contramão, um farol alto me engole. Até agora não sei como escapei da colisão. Pensava que com Fernanda as coisas seriam diferentes, porque além de linda era intelectual. A conheci num congresso de jornalismo, realizado no Rio de Janeiro. No geral, os palestrantes são uns chatos de galocha. Principalmente quando contam cases pra ilustrar obviedades: “porque o jornalista tem de ser ético; porque o jornalista tem de saber apurar sem ingenuidade; porque a tiragem dos jornais impressos está diminuindo; porque o assessor de imprensa não é um mero fazedor de releases…” Que maçada, meu Deus do céu!

Minha cota de paciência termina no meio da exposição do grande jornalista que trabalhou no New York Times, no Financial Times e em outros tantos Times da vida. Não que eu saiba mais do que o camarada, nada disso. O problema é que me canso fácil de alguns autores e oradores. Além disso, as informações a respeito dos assuntos que julgo fundamentais não entraram na pauta dos gloriosos jornalistas. Levanto-me pra tomar um ar lá fora. Reparo que ao meu lado está uma linda garota ruiva. Também se entediara, só que minutos antes de mim. Sem ter o que fazer, ela acende um cigarro. Essa foi a primeira vez que vi Fernanda.

- O cara manja muito, não? – puxo conversa.

- Manja, manja muito. Mas por que você se levantou no meio da palestra?

- Sei que o orador sabe tudo, só que não dou bola pra nada disso.

- Então por que veio?

- Porque gosto de ficar de bobeira por aí, conhecer gente nova… Você sabia que esse seu jeito de segurar o cigarro é idêntico ao da atriz Rita Hayworth em Gilda?

Foi com esse xaveco furado que consegui o telefone dela. No fim de semana seguinte, saíamos pela primeira vez. Assistimos em São Paulo ao filme Santiago, do cineasta João Moreira Salles. Naquela ocasião, dei-me conta de que Fernanda teria de passar pela minha vida. Ela só não tinha aparecido antes porque ainda não era hora de entrar em cena. Mas que faria parte da minha história, isso faria. Nosso entrosamento era total e intensa a nossa paixão.

Do outro lado

Eu a perdi para sempre depois daquela discussão noturna. “A gente nunca vai dar certo.” Essa afirmação não sai da minha cabeça. Após entrar na luz alta, chego rapidamente ao meu apartamento, em Perdizes, São Paulo. No estreito corredor do apê, noto uma porta a mais. Há um cômodo que eu nunca tinha visto antes. “Que porta é esta? Só posso estar sonhando.” Infelizmente, não estava. O diabo é que a maçaneta se encontra no pé da porta. De cócoras, faço o que qualquer um faria.

Para o meu espanto, em vez de um quarto, vejo uma avenida onde é realizada uma espécie de desfile em carro aberto. A multidão que assiste à passagem do carro mantém um cortante silêncio. No banco de trás, entre dois soldados, está um dos homens mais ricos e famosos do mundo, com um semblante totalmente desfigurado. O automóvel pára diante da forca. Colocam o camarada no cadafalso, ajeitam a corda, e ele faz a sua última dança.

Silêncio

Ninguém aplaude. Todos estão apreensivos. Não acreditam que chegariam a ver tal coisa. “Como um bilionário poderia acabar assim?”, perguntam entre si. Agora, um triste carro alegórico se aproxima. O silêncio continua. Meu coração dispara ao ver Fernanda nua em cima daquela porcaria. “Fernanda!” Reparo que o sangue que brota de seus pulsos escorre pelas pernas, formando listras irregulares. Enfim, o ritual se repete. Ela também sobe o cadafalso e se perde para sempre.

Alguém anuncia o meu nome. Tento dar o fora dali, mas já é tarde. Dois brutamontes me pegam pelo braço. Na maldita avenida, ambos caminham ao meu lado em direção à forca. Mesmo na presença de uma multidão, parece que estou num deserto. Choro desesperadamente, mal consigo enxergar direito. Como o mordomo da família Moreira Salles, Santiago, começo a falar sobre o meu passado aos carrascos que me arrastam. Agora é a minha vez. Enquanto me enfeitam com a corda, busco Fernanda em minhas lembranças.

criado por Julio Scarparo    21:04 — Arquivado em: Sem categoria

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