1.9.07
JOÃO E RAQUEL Parte 2
Retrato falado
Planejaram o assalto durante dois meses. Depois, levaram mais três pra levantar todas as informações necessárias. Bem verdade que Raquel teve que sair com o gerente e o subgerente. João se infiltrou no banco disfarçado de “homem da manutenção.” Tocou em tudo: mesa, telefone, porta, caneta, papel, parede, casaco, etc. A sorte estava nas digitais deixadas em um computador. Foi assim que soube que um funcionário já planejava aplicar um golpe naquela agência. Ambos aproveitaram a planta do local que era de conhecimento desse funcionário e… batata! Conforme programado, o banco ficou sem um centavo sequer.
Mas as câmeras de segurança fizeram um bom trabalho. E os policiais também. Rapidamente, os tiras colocaram o homem da manutenção “que ficava pondo a mão em tudo” na lista de suspeitos:
- Chefe, este é o suspeito, aqui ó, na parte inferior do vídeo. Presta atenção. Depois de colocar a mão na mesa, ele vai ficar parado feito estátua! Falei? O mesmo acontece quando pega outros objetos”, enfatiza o estagiário.
Os funcionários do banco estavam chocados com a ousadia dos bandidos. No entanto, continuavam a jogar conversa fora, como sempre. Quando o gerente comentou ao subgerente que saíra com uma linda garota de olhos transparentes, ouviu surpreso: “eu também saí com ela!”, disse o subordinado. Retrato falado de Raquel e imagens de João aproximaram a polícia do casal.
Desabafo
As bancas de jornal do País inteiro chacoalham a população com a seguinte manchete: “Os ladrões ‘Bonnie e Clyde’ estão de volta!” Embaixo do título, as fotos do casal. O baque é muito violento pra bisavó, recém-chegada das pirâmides. Lágrimas de raiva se encaixam nas rugas da velha. Sem saber exatamente por que, ela bate a porta com força. É neste instante que a lesma se transforma num leão:
- Não vim de tão longe pra ver a minha família ser caluniada deste jeito!
A bisavó liga pra polícia e desabafa:
- Escute aqui, meus bisnetos não assaltaram aquele banco coisa nenhuma. E se chamam João e Raquel, não Bonnie e Clyde, como está na mídia. Pra começar, estou cansada de preconceito contra as famílias ciganas. Cigano não é sinônimo de assaltante, de assassino ou de sujeira. Somos dignos de respeito! Eu sou egípcia e me orgulho da cultura que herdei de meus antepassados. Vão todos pro inferno seus desgraçados! Eu amaldiçôo o Brasil e todos os brasileiros!
A velha bate o telefone no gancho, cospe no chão, bebe água com açúcar e cai no sofá. Quando resolve ligar a TV, pelo controle remoto, a polícia bate à porta. Mais por curiosidade do que por dever, ela atende os guardas:
- O que vocês querem? O estrago já não foi suficiente?
- A senhora conhece mesmo o casal? – perguntou o tira.
Ela começa a falar mais do que a boca. Diz tudo o que sabe e inventa o que não sabe. Chega ao cúmulo de revelar detalhes dos superpoderes de cada um…
Emboscada
João e Raquel estão rindo à toa. Acham o máximo estarem nos jornais e telejornais. Agora fazem parte da galeria dos famosos bandidos do Brasil. “Talvez façam um filme sobre nós”, pensa a bela Raquel, enquanto espreme a única espinha do rosto. O casal já estava de malas prontas pra Inglaterra quando dois caras tocam a campainha. “A gente atende?”, perguntou João. “Podemos atender, não vejo nada nos olhos deles.”
- Olá, bom dia! Os senhores não gostariam de assinar a nova Revista Brasil Cigano? É lançamento. A publicação foi elaborada pelo legítimo grupo cigano Rom.
Eles entram na casa e versam sobre a revista. Raquel começa a ficar preocupada. Pela primeira vez na vida, tenta ler os pensamentos de alguém e não consegue. Olha pro lado e vê que João também está tenso. Assim como ela, o adivinho passa por dificuldades, não consegue fazer download dos “vendedores”. Com a mão ensopada de suor, só lhe resta abrir a pequena gaveta e apanhar o revólver. Mas não dá tempo. Os visitantes disparam o seguinte:
- Não se mexa rapaz! Parado! Vocês estão presos por assaltarem o banco da Av. Paulista!
Em segundos, a casa está cercada. Sem acreditar no que está acontecendo, Raquel pergunta:
- Como nos descobriram?
- A sua bisavó passou o nome de vocês. Daí pra localizar este esconderijo foi um pulo. Como ela também revelou os poderes de cada um, usamos um tipo de lente de contato especial que dá à córnea um formato de prisma. E, como o prisma “transforma a luz”, achamos que isso poderia enganar ou pelo menos dificultar a leitura do pensamento que você faz. Acertamos na mosca! Para neutralizar as habilidades do João, vestimos luvas produzidas a vácuo, sem nenhum contato humano. Nunca ouviram falar que o crime não compensa?
“Parente” dos ciganos
Em frente da casa, os jornalistas se engalfinham a fim de conseguir uma palavra do casal. Se falharem, sabem que terão de enfrentar a fúria do editor. Uma jovem repórter pensa rápido. Veste-se de cigana e começa a chorar na delegacia. “Meus primos não fizeram nada!” Em raro momento de compaixão, o delegado gordo deixa a “parente” falar com os presos.
- É verdade que vocês têm poderes sobrenaturais?
- Ao fitar os olhos de uma pessoa, consigo ler o pensamento dela – diz Raquel.
- E você, também lê a mente? – pergunta a João.
- Não. Mas conheço o destino de todos. Pode escrever: daqui a duas semanas fugiremos da cadeia.
João coça a cabeça, arruma os óculos, e faz a última revelação:
- Parabéns, você está grávida. E o pai não é o seu namorado.
criado por Julio Scarparo
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