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Contos e crônicas como passatempo

1.9.07

JOÃO E RAQUEL Parte 1

 

A emboscada da polícia foi perfeita, o casal de criminosos caiu como um patinho. Na hora, lembrei-me do triste fim de outro casal de assaltantes que pintou e bordou na década de 30: Bonnie Parker e Clyde Barrow. O filme mostra bem a cena. As balas transformaram o automóvel em que estavam num queijo suíço. E a dupla, em presunto. Assim como Bonnie e Clyde, os primos começaram a assaltar bancos na casa dos 20 anos de idade.

Os ciganos João e Raquel entraram no mundo do crime por acaso. Não, por acaso, não. Simplesmente resolveram usar seus poderes para enriquecer a qualquer custo. Raquel tem os olhos totalmente transparentes. Até a pupila é incolor. Incrível. Dá arrepios só de olhar. Foi aos dez anos de idade que ela percebeu que essa diferença lhe dava poderes de “vasculhar a alma dos outros” sempre que encarava alguém. “Ao fitar os olhos de uma pessoa, consigo ler o pensamento dela”, teria dito a uma jornalista, no dia em que foi presa.

Quiromancia

João é fascinado pela quiromancia desde criança. Movido pelo afã de ser o melhor do planeta nesta arte de adivinhação, aos 18 anos de idade viaja ao Egito pra encontrar a bisavó, talvez a maior autoridade sobre a “leitura das linhas presentes na palma da mão.” À medida que a velha se esforça pra conversar com o afoito bisneto, ela parece que vai diminuindo de tamanho, derretendo mesmo, feito lesma temperada com bastante sal. De voz trêmula, diz: “Joãozinho, meu querido, os acontecimentos da vida estão subordinados à palma da mão dos seres humanos. Ou seja, o que está para acontecer aguarda autorização pra surgir. E digo mais: as linhas são a forma dessa autorização, que é apresentada ao tempo e ao espaço no momento certo.”

Durante o vôo de volta, João tem uma sacada legal: “se as autorizações estão na palma da mão, as digitais também são importantes porque contêm informações preciosas!” Mal desfez as malas, correu para a mesa, com diversos livros debaixo do braço, e iniciou a maratona de 72 horas de estudo. O resultado não poderia ser melhor. Naquele período, descobriu que se colocar a mão sobre a marca digital deixada por alguém em um determinado objeto, ele consegue baixar todos os dados do indivíduo, como se fizesse um potente download.

O reencontro

Num fim de semana ensolarado, em São Paulo, João encontrou a prima de Minas Gerais:

- Não acredito! Raquel!

- João! Que coincidência! Como você está? E seus pais?

- Estamos todos bem. Saímos de Minas em 1999. De lá pra cá, ganhamos a vida comprando e vendendo carros.

- Eu vim passar as férias aqui em SP, estou na casa de uma amiga.

Bastou esse curto diálogo pra se desnudarem. Raquel fita profundamente os olhos de João e saca tudo: “é um cara ambicioso que deseja completar um milhão de reais antes dos 30.” Por sua vez, João pega a mão da prima e baixa a ficha completa: “conversa com gerentes de banco pra conseguir todas as senhas do sistema. Já desviou um dinheirão.”

- Sabe de uma coisa, nós poderíamos trabalhar juntos, diz ele.

- Que tipo de trabalho?

- Um que seja bem lucrativo, entende?

- É, pode ser.

Pararam pra almoçar em um tradicional restaurante da região. Raquel foi quem resolveu tomar a iniciativa de abrir o jogo:

- João, a gente se conhece faz um bom tempo. Sei que domina a arte da adivinhação e sei também que meus olhos não são nenhum segredo pra você. Topo a parceria se fizermos algo grande, como aquele casal Bonnie e Clyde, que virou filme de cinema.

- OK. Tá vendo aquela agência bancária? Vamos limpá-la, pegaremos tudo, tudo, tudo. O banco ficará sem um centavo. E então?

- Fechado.

criado por Julio Scarparo    11:12 — Arquivado em: Sem categoria

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