25.8.07
Todos os sonhos do mundo
Pelo menos ele foi sincero. “Prefiro o cheiro de cavalo a cheiro de povo.” A frase, politicamente incorreta, é do falecido presidente João Figueiredo. Não coloquei o ex na frente da palavra “presidente” porque rezam os manuais de redação que, quando alguém morre, não é mais ex de nada. Nesse caso, basta colocar antes do nome a maior função que o camarada ocupou em vida. O mesmo ocorrerá com o Lula. Em vez de “sindicalista Lula morre aos 62 anos”, por exemplo, os jornalistas escreverão: “presidente Lula morre aos 62 anos.”
Quanto a mim, não me sinto ex de coisa alguma. Talvez porque nunca cheguei a ser algo com todas as letras. Talvez porque nunca levei a sério os rótulos que colocaram em mim. Mas o que sou sempre serei: um brasileiro decepcionado. Mesmo que Lula seja, de fato, o messias da nação, os políticos que o antecederam já esculhambaram meus anos 80 e 90.
Manchetes
Semanalmente, leio tristes manchetes, como a deste sábado: “Estudante leva tiro e morre em tentativa de assalto na Prestes Maia.” O rapaz estava parado no trânsito às 20 horas, em Santo André, quando foi abordado pelos assaltantes. Poderia ter acontecido com qualquer um de nós. Troque a profissão da manchete e veja como fica. “Jornalista leva tiro e morre”, “Engenheiro leva tiro e morre”, “Enfermeira leva tiro e morre”, “Comerciante leva tiro e morre.” A gota d’água seria “presidente Lula leva tiro e morre.” Não suportaria ler isso em letras garrafais na Folha de S. Paulo ou no Estadão. Aos prantos, abraçaria meus conterrâneos na Av. Paulista em total consternação. Mas nada aconteceu com o presidente, graças ao bom Deus. Porque o presidente ainda vive, posso crer no amanhã.
Ando meio pessimista
Não sou ex nada nem ex de ninguém, porque todos os dias passo a régua e começo do zero, o que deveria me causar, no mínimo, paz de espírito. O problema é que ando meio pessimista. Concordo com a frase do escritor Carlos Heitor Cony: “otimista é o desinformado.” Acho que é por aí.
Apesar de tanta falcatrua no cenário político, compartilho dos sonhos apresentados pelo poeta Fernando Pessoa:
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
criado por Julio Scarparo
20:53 — Arquivado em: 

Comentário por rute — 10.9.07 @ 23:20
Entre o pessimismo e o otimismo.
Cito Ariano Suassuna :” Como me defino? Bem…. não sou otimista pois o mundo que ai está não permite esta engenuidade. Também não me defino pessimista pois ser assim, é ver um mundo de maneira muito amarga. Então me declaro um “realista esperançoso”.