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Contos e crônicas como passatempo

11.8.07

Anjos negros

 

Com a câmera na mão, dá um clique. Agora não tem mais jeito. A luz agrediu o sensível filme e a marca, deixada por ela, se tornará fotografia. Bem verdade que, com o passar dos anos, a foto irá amarelar para depois, finalmente, desaparecer. Dentro de cada um de nós também existe essa marca, que sumirá quando a data de nossa validade vencer ou se estragarmos antes do tempo.

Pois bem. Digo isso porque andei pensando no passado. Mais especificamente em sua influência sobre nós. Nada de pesquisa. Apenas pensei. Cheguei à modesta conclusão de que ele sempre nos envolverá. As impressões deixadas na sensível alma serão indeléveis enquanto durarmos aqui na Terra. Há teólogos que arriscam ir mais longe. Segundo a afirmação de um, que está no bico do corvo, quase em processo de putrefação, nós levaremos a marca para o porvir.

Seja como for, as cordas do passado envolvem o presente com força. Se não reparou, repara. O passado é um tipo de mola que, volta e meia, nos impulsiona para o bem ou para o mal. Ou simplesmente para a compra de algo. Ou para ir ao encontro de uma mulher. Ou para uma determinada profissão, ou para uma cidade ou país. Ou para a bebida ou para as drogas, ou, ou, ou, ou, ou.

Peso do passado

O filósofo francês Gaston Bachelard disse mais ou menos o seguinte: o presente cede ao peso do passado. Em outras palavras, ele não se extingue nunca. Que o diga o pintor norueguês Edvard Munch. Aos cinco anos perde a mãe e, aos 13, a irmã predileta, entre outras desgraças. “Doença, loucura e morte foram os anjos negros que ficavam de vigília sobre meu berço e me acompanharam pela vida afora”, disse Munch. Impotente para se livrar das trágicas recordações, o pintor arremessa nas telas as desgraças que atormentam o seu peito. Além do famoso quadro intitulado “O Grito” (sim, é dele); gosto muito de “Nu junto à cadeira de vime” e “A dança da vida.”

O escritor francês Marcel Proust, na última fatia da vida, se encafuou em casa para escrever o “Em busca do tempo perdido.” São páginas arrancadas da memória. Ele cava o passado com a atenção de um arqueólogo que procura cerâmicas do primeiro século. No entanto, as melhores descobertas vêm à tona inesperadamente: “acho muito razoável a crença céltica de que as almas daqueles a quem perdemos se acham cativas em algum ser inferior, em um animal, um vegetal, uma coisa inanimada, efetivamente perdidas para nós até o dia - que para muitos nunca chega - em que nos sucede passar por perto da árvore, entrar na posse do objeto que lhe serve de prisão. Então elas palpitam, nos chamam, e, logo que as reconhecemos, está quebrado o encanto. Libertadas por nós, venceram a morte e voltam a viver conosco. É assim com nosso passado. Trabalho perdido procurar evocá-lo, todos os esforços de nossa inteligência permanecem em algum objeto material (na sensação que nos daria esse objeto material) que nós nem suspeitamos. Esse objeto, só do acaso depende que o encontremos antes de morrer, ou que não o encontremos nunca.” Trecho está registrado no primeiro volume do “Em busca.”

O que fazer?

Ainda sobre o tema da influência do passado, o filósofo francês Jean Paul Sartre acrescenta mais ou menos o seguinte: “o mais importante de tudo não é o que fizeram de você, mas o que você vai fazer com o que fizeram de você.” E o que você vai fazer? Eu nada. Acredito que essa influência faça parte da condenação, da brincadeira, da disciplina, do aprendizado, da alegria de cada um, sei lá. O negócio é continuar a peregrinação e aguardar. Talvez um dia compreendamos tudo. Talvez nunca. Na verdade, não importa muito, pelo menos para mim.

criado por Julio Scarparo    17:06 — Arquivado em: Sem categoria

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