4.8.07
O profeta e o monstro
Sofonias é um profeta musculoso e bronzeado. Não tem barba nem aquelas roupas de sacerdote. O grande barato dele é ficar olhando as estrelas. Aliás, absorve tudo por meio daqueles enormes olhos pretos. Aprisiona a beleza em sua mente pra sentir de perto o perfume da esperança.
Em cima do telhado, o negro também gosta de contemplar as pessoas. Acha divertido olhar o povo indo e vindo feito ioiô. Estar no meio dessa multidão, nem pensar. O pai, escravo etíope, sempre lhe ensinou a ficar longe das aglomerações. O conselho variava nas palavras e entonação, mas a moral da história era sempre a mesma: a massa é imprevisível e louca. “Talvez por isso eu me sinta desconfortável diante de mais de três pessoas”, dizia o profeta.
Com o tempo, as sábias palavras do etíope foram reunidas em uma cartilha, tornando-se best seller entre os conterrâneos. Logo no capítulo um, o patriarca aconselha os pais a oferecerem amor aos filhos, em vez de os amaldiçoarem com cusparadas do tipo: “você nunca será nada na vida”, “você não presta”, “não passa de um verme”, expressões que, segundo ele, os lançariam “de bandeja no fogo da perdição.”
Cabeça de touro
Numa tarde, ao empinar pipa – pretexto pra continuar olhando o céu – Sofonias ouve gritos de criança. “Um animal selvagem deve ter encurralado o menino ou ele caiu nalgum buraco, só pode ser.” Corre em direção aos pedidos de socorro. O papagaio fica à mercê do vento, que usa toda a sua força pra elevá-lo às alturas. “A pipa subirá até se queimar no Sol, será um fim glorioso!”
Já sem fôlego, Sofonias abaixa o mato e vê o que jamais gostaria de ter visto, o monstro Milcom. Era a estátua de um homem com a cabeça de touro. De braços estendidos, Milcom recebe a criança – que passa pelas suas mãos e cai numa fornalha. O som dos tambores e das trombetas abafa os gritos. Rapidamente, o cheiro de carne humana se mistura ao barulho. Sofonias pula o mato alto e dá um soco em quem julga ser o pai. É linchado pelos integrantes do ritual. Recupera os sentidos à noite, na presença das estrelas.
criado por Julio Scarparo
13:20 — Arquivado em: 
