22.7.07
Tosse crônica
Conheço um cara que, ao tossir, coloca toda a língua pra fora da boca. É feio demais. Curiosamente, ele faz essa careta sempre que se encontra em um ambiente com pessoas. Explico: quando entra num ônibus, tosse. O mesmo acontece quando pisa em um parque ou coloca os pés no restaurante. Segundos depois, melhora. Um psicólogo lhe disse que o incômodo tem a ver com a sua desesperança no ser humano. “Vejo pessoas desajustadas vivendo em um mundo incompreensível.” Então, inconscientemente, em vez de falar sobre os absurdos constatados, tosse.
Houve uma época em que falava pelos cotovelos. Não tinha papas na língua. Tarado por um belo par de orelhas, ele perseguia a cabeça dos colegas como um predador. Pertinho das presas, jorrava abobrinha. As vítimas saíam da conversa com a impressão de estarem lambuzadas de vômito. Volta e meia ouvia alguém dizer: “cala a boca!” Mas ele era forte e persistente. Debaixo do céu, não havia homem capaz de estancar a sua verborragia.
Velório
Começou a tossir no dia em que perdeu a esposa. Parece que foi ontem. No velório, limita-se a chorar. Pela primeira vez na vida, as palavras o abandonam. Mas o que falar neste momento? Chega até a articular pensamentos, que julga meio bobos para a ocasião:
“Há culturas que festejam a morte de um ente querido como a gente celebra um casamento. Grande porcaria. Não me serve de consolo. Danem-se os orientais. Quero a minha mulher de volta. Devo me resignar e deixar a natureza no comando? Segundo o escritor Fernando Bonassi, a gente nasce pelado e morre sozinho. Quer saber? Não aceito que me separem daqueles que amo.”
Diante do caixão, se irrita com um ensinamento que aprendera na quarta série do primário. E fica intrigado com outras tantas lembranças que borbulham: “os seres vivos nascem, crescem, se reproduzem e morrem. Cadê o meu cachorro de estimação? A idosa, minha vizinha, que costumava contar histórias pra mim? O meu bisavô. O pai, a mãe. Cadê eles? Quem foi que jogou cimento sobre a árvore que havia no quintal de minha antiga residência?”
Hoje
Agora mesmo está meditando. Tomou gosto pelo silêncio desde que enviuvara. Para não atrapalhá-lo, a tosse resolveu, há anos, ir embora também. Curado, pode entrar à vontade em ambientes com pessoas. Continua achando os outros estúpidos, mas finalmente enxerga a própria estupidez. Levanta-se, vai ao banheiro, limpa a dentadura. Toma um banho demorado. A lâmina desliza em seu rosto. Veste-se como se fosse fazer uma longa viagem. De maneira aleatória, puxa um livro da estante: seus dedos escolhem um de Albert Camus. Naquela noite, após refletir sobre a grande questão filosófica apresentada por Camus, resolve agir de uma vez por todas. A conseqüência imediata foi o retorno da tosse.
criado por Julio Scarparo
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