ficatempo

Contos e crônicas como passatempo

14.7.07

Anatomia do tormento

 

A casa está malconservada, mas ele chegou aos 50 sem nenhum dano significativo. Os cabelos continuam longos, dentição perfeita e, principalmente, está sem barriga. Eu era o seu antônimo, em carne e osso: careca, gordo e desdentado. Dava de ombros para o contraste porque isso não afetava em nada o nosso interesse comum: a literatura. Sou capaz de jurar que Ricardo poderia colocar qualquer crítico literário do mundo no bolso. Não é exagero não. Em nome das letras, ele abriu mão da família, das mulheres, do dinheiro, da fama, de tudo. Vivia na base de uma herança deixada por um tio. Eu limitava-me a ganhar uns trocos como jornalista numa conceituada revista literária.

Depois que peguei a xícara de café, Ricardo revelou um segredo:

- Vou lhe contar algo que talvez não devesse.

- Eu sei que tenho chifres.

- Não é nada disso. Passei a vida buscando um livro e, por acaso, o achei. Somente dez pessoas no mundo conhecem a obra, mais ou menos. Trata-se do maior romance já escrito na face da Terra.

- Como é que é?

- Carlos, o negócio é o seguinte: sabe o biólogo José Ribeiro? Então, nós descobrimos uma vela acesa no fundo do Oceano Atlântico, em águas cariocas.

- Que papo é esse cara?

- Calma. Você vai entender. José pesquisava aquele tipo de peixe que possui uma espécie de lanterna na cabeça. Como ele é amigo de um almirante que comanda os quatro submarinos que defendem a fronteira brasileira, conseguiu dar uma voltinha nas profundezas dos mares, onde a luz do Sol não penetra, pra ver se achava o tal peixe. Eu fiz parte da tripulação.

- E?

- E aí que, em vez de encontrarmos uma lanterna na testa ou na antena de um peixe, avistamos uma claridade saindo de uma caverna que, por algum fenômeno da natureza, não permite a entrada de água em seu interior.

- Bicho, onde é que entra a literatura no meio disso tudo?

- A caverna é habitada por escritores. Ali é que se encontra o livro.

- Continue.

- Prometi a eles não divulgar o enredo, assim como os três críticos literários que estiveram ali antes de mim, 40 anos atrás.

- Me passa o telefone do almirante.

Vinte mil léguas submarinas

A passagem pra embarcar no Submarino Amarelo custou os olhos da cara. Tive um medo enorme quando coloquei os pés naquela cápsula. Morrer já é uma dor dos infernos. E afogado então, nem se fala. Tremia só de pensar. Mas o almirante conhecia aquelas águas como a palma da mão. Além disso, Posseidon jamais o abandonara.

Vamos ao encontro da luz. Ao vestir a roupa de mergulho, lembro-me de Julio Verne. Olho através da janela redonda pra ver se há algum polvo gigante ou qualquer monstro dos mares. Barra-limpa. A entrada pra caverna é pequena, nado um pouco e entro sem dificuldades. Eles estão olhando para mim.

- Olá. Não quero atrapalhar o processo de criação literária dos senhores…

- Você quer morrer?

- Escute, sou jornalista. Escrevo na principal revista brasileira de literatura. Soube por uma fonte segura que há uma obra fantástica aqui, acho que produzida por vocês, não sei…

Meu Deus! Meu Deus! Meu Deus! Se não estou enganado, estou diante de Shakespeare, Marcel Proust, Tolstói e Machado de Assis. Também vejo alguém no ponto mais distante da caverna. Não consigo enxergá-lo direito. Nossa! Está bem ali! O maior livro de todos os tempos descansa embaixo de uma imensa vela!

- Caro peregrino. Para a sua informação, desta vela depende a vida na Terra. Se ela apagar, tudo acaba.

Divindade romana

Nesse momento, sem saber de onde vem o som, começo a ouvir “Carmina Burana, Fortuna”, composta em latim no século 13. Por estudar teologia, domino o idioma. A canção fala sobre Fortuna, uma divindade romana que determina a sorte e o azar na vida das pessoas. Entendo o recado do acaso. Sei que armei uma roleta-russa. Só resta apertar o gatilho:

- Senhores, quero saber tudo sobre a obra!

A música está mais alta, porém não impede que ouça perfeitamente a explicação de um dos autores:

- O livro aborda a questão do amor entre os homens. Mas não falamos acerca das paixões, namoros, casamentos, sexo, crimes passionais, nada disso. Nestas páginas está a descrição do incomensurável tormento que se inicia quando corações imperfeitos, que são intrínsecos à raça humana, se unem de forma perfeita e absoluta. Aparentemente estaria tudo certo. No entanto, o tormento começa justamente aí: o imperfeito começa a repelir o perfeito. Por conseguinte, a anatomia do tormento demonstrada no romance desnuda, em parte, a miséria da condição humana.

O cara no ponto mais distante da caverna se aproxima de mim. Ele tem um machado na mão. Pelos sapatos respingados de sangue o reconheço. Seu nome é Raskólnikov.

criado por Julio Scarparo    18:09 — Arquivado em: Sem categoria

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