6.7.07
Diante dos raios
Trabalhava no centro de São Paulo. Após o plantão de sábado, combinei de encontrar um amigo, o Zóio. Eu tinha quinze anos de idade, ele uns treze ou catorze. O guri nunca tinha saído sozinho da região do Grande ABC. A caminho da Galeria do Rock, paramos na calçada pra comer um cachorro-quente. A boca cheia não me atrapalha. Tenho a impressão de que os olhos do Zóio estão mais redondos e brilhantes, parece que disparam um raio que vai em direção ao outro lado da rua. Quero ver também. Ele está encantado com o imenso trólebus que contorna a Praça da República. De tanto olhar, a haste do coletivo se rompe da energia elétrica, bem na curva. Faíscas e barulho alegram o imberbe. Reconheci que a mágica foi tremenda. “Será que consegue fazer isso de novo?”, brinquei.
Meses depois, passei em frente à casa dele. “O Zóio está?” “O Zóio morreu durante uma partida de vôlei, teve problema no coração”, lamentou a mãe, enquanto lavava o carro zero-quilômetro. Continuei a andar e, não sei como, lembrei-me da notícia do Jornal da Tarde, publicada no fim dos anos de 1980: um raio cai numa árvore no campo de futebol do Centro Social de Carapicuíba, matando seis pessoas que se protegiam da chuva.
Destino, Sorte, Azar, Providência Divina, Acaso - que diabo age sobre nós? Seja como for, aprendi desde cedo que a segurança almejada por todos é tão real quanto o tesouro localizado no fim do arco-íris ou a história da carochinha.
Soberania vs. Acaso
E não adianta tentar driblar o “azar” buscando prever o futuro. Segundo o jornalista Paulo Francis, quem acredita em astrologia tem mingau na cabeça. Calma Francis. Nem tanto. A gente só quer explicações. Queremos harmonizar o sistema que nos rodeia. Gostamos de tudo explicado, certinho, sem dúvidas nem mistérios, como as lojas de um shopping, os departamentos da empresa onde trabalhamos, os boletos bancários e as prateleiras do supermercado.
O teólogo João Calvino (século 16) abraçou a doutrina da predestinação com unhas e dentes. Para ele, a vontade de Deus prevalecia sobre todas as coisas e fim de papo. Quando o filho dele nasceu prematuramente, morrendo ainda bebê, escreveu: “certamente, na morte de nosso filho amado o Senhor afligiu-nos com uma profunda e dolorosa ferida. Mas ele é nosso Pai: ele sabe o que é melhor para seus filhos.” De acordo com Calvino, a soberania de Deus espanta a idéia da Sorte e Azar, do Destino e Acaso. O reformador não tem dúvida de que Alguém coordena todas as contingências da vida.
Bem antes de Calvino, o profeta Jeremias (que viveu uns 600 anos antes de Cristo) escreveu o seguinte: “eu sei, ó Senhor, que não cabe ao homem determinar o seu caminho, nem ao que caminha o dirigir os seus passos.” Para um bom entendedor, poucas palavras bastam: nem tudo sairá como planejamos. Volta e meia haverá surpresas boas ou ruins.
Dois problemas
Por que resolvi escrever sobre o assunto? Porque ao sair de uma oficina mecânica bateram no meu carro. Sem mais nem menos, a menina surgiu como um raio, impressionante. Talvez eu tenha parcela de culpa no ocorrido. Mas o fato é que saí de casa com um problema (o carro “morrendo” em marcha-lenta) e voltei com dois…
criado por Julio Scarparo
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