ficatempo

Contos e crônicas como passatempo

28.7.07

Surpreendido pela alegria

 

Fui surpreendido por uma alegria fora do comum enquanto caminhava na Av. Paulista, bem no meio da reforma da calçada. De repente, me senti feliz. E, pela primeira vez na vida, tal sensação não veio por causa da conquista de uma mulher. Não era o caso, eu tinha acabado de ser traído naquele dia. Um vizinho me contou por telefone. Também ficava radiante quando avançava nos estudos, porém as coisas nessa área iam de mal a pior: minha tese de doutorado tinha sido recusada em uma pré-banca no dia anterior. Além disso, faltava grana. Jornalista trabalha muito e ganha pouco.

Mas a alegria não me deixava em paz. Achava tudo engraçado e curioso. A guerra nos estacionamentos, as filas nos caixas, um dia de chuva, o individualismo esticado até as últimas conseqüências, os boçais que me cercam diariamente. Outro sintoma estranho: comecei a andar de ônibus em vez de dirigir. É bom estar ao lado de meus semelhantes, ver como se vestem, se comportam, o que dizem, a maldade, a fofoca, tudo presente no cotidiano. Destaco a figura do engravatado de celular na cintura. Isso eu acho o máximo! O cara está acorrentado ao trabalho, não passa de um soldadinho do patrão, e ainda faz pose com o aparelho!

Bebê a bordo

De cabeça tranqüila e contente, meus olhos de escritor ficam bem mais poderosos. Vejo um bebê sentado no banco de trás dum carro a brincar com uma bexiga. “Vamos ver em que consiste a brincadeira.” O nenê abre as duas mãozinhas fofas e começa a esbofetear, sem parar, o inocente brinquedo. Tóim, tóim, tóim, TÓIM. Depois de receber o quarto tóim no nariz, a bexiga foge pro banco da frente. No entanto, a luz vermelha surge no semáforo. O pai puxa o freio de mão e agarra o brinquedo pelas orelhas. Novamente humilhada, a bexiga volta a desempenhar as funções de um joão-bobo. Sem dar-se por vencida, segue o exemplo dos camicases: “vou quebrar tudo, vou mostrar com quantos paus se faz uma canoaaaa!” Poff! Estoura na cara da criança, que começa a chorar. Depois do choro, ela coloca na boca os restos mortais da falecida, em uma horrenda demonstração de canibalismo e vingança. A falta de dentes atrapalha um pouco, é verdade, porém a saliva faz as vezes do veneno. É um bebezinho do século 21.

Por que estava mais feliz do que um bebê? Não sei. Era um desgraçado como todos. Desde que comecei a trabalhar, aos 15 anos, nunca tive 35 dias de liberdade. Convivo com medíocres e loucos diariamente e falta dinheiro pra tudo. Com não bastasse, o tempo voou dos 17 aos 47 e agora as doenças não param de bater em minha porta. Dói aqui, ali, nem sabia que tinha um monte de órgãos que antes funcionavam perfeitamente.

O arrebatamento pela alegria deve ter algum motivo. O que aconteceu? Existe algo especial naquela reforma da Av. Paulista que, de alguma maneira, me coloca na freqüência da felicidade? Preciso conversar com Marcel Proust. Mas não falo francês. E mesmo que falasse, ele já está morto e enterrado há muito tempo, pertence aos séculos 19 e 20.

Outros melhores

Eureca! Já sei o que houve! Escuta só. Apenas senti que era uma parte do mosaico preto e branco da calçada que está em reforma. Doido, né? No momento, piso e mosaico estão sendo substituídos por outros melhores. De acordo com a prefeitura de São Paulo “o novo piso será feito com o que há de mais moderno em tecnologia de construção: pavimento de concreto moldado no local, com juntas de dilatação em latão. Além do padrão estético - destacado pelo contraste das tonalidades do concreto, grafite e natural, com o dourado das juntas metálicas -, a opção por este material levou em conta a durabilidade, a facilidade de manutenção e o conforto para caminhar.” Estou alegre porque outros melhores ocuparão o meu lugar.

criado por Julio Scarparo    17:58 — Arquivado em: Sem categoria

22.7.07

Tosse crônica

 

Conheço um cara que, ao tossir, coloca toda a língua pra fora da boca. É feio demais. Curiosamente, ele faz essa careta sempre que se encontra em um ambiente com pessoas. Explico: quando entra num ônibus, tosse. O mesmo acontece quando pisa em um parque ou coloca os pés no restaurante. Segundos depois, melhora. Um psicólogo lhe disse que o incômodo tem a ver com a sua desesperança no ser humano. “Vejo pessoas desajustadas vivendo em um mundo incompreensível.” Então, inconscientemente, em vez de falar sobre os absurdos constatados, tosse.

Houve uma época em que falava pelos cotovelos. Não tinha papas na língua. Tarado por um belo par de orelhas, ele perseguia a cabeça dos colegas como um predador. Pertinho das presas, jorrava abobrinha. As vítimas saíam da conversa com a impressão de estarem lambuzadas de vômito. Volta e meia ouvia alguém dizer: “cala a boca!” Mas ele era forte e persistente. Debaixo do céu, não havia homem capaz de estancar a sua verborragia.

Velório

Começou a tossir no dia em que perdeu a esposa. Parece que foi ontem. No velório, limita-se a chorar. Pela primeira vez na vida, as palavras o abandonam. Mas o que falar neste momento? Chega até a articular pensamentos, que julga meio bobos para a ocasião:

“Há culturas que festejam a morte de um ente querido como a gente celebra um casamento. Grande porcaria. Não me serve de consolo. Danem-se os orientais. Quero a minha mulher de volta. Devo me resignar e deixar a natureza no comando? Segundo o escritor Fernando Bonassi, a gente nasce pelado e morre sozinho. Quer saber? Não aceito que me separem daqueles que amo.”

Diante do caixão, se irrita com um ensinamento que aprendera na quarta série do primário. E fica intrigado com outras tantas lembranças que borbulham: “os seres vivos nascem, crescem, se reproduzem e morrem. Cadê o meu cachorro de estimação? A idosa, minha vizinha, que costumava contar histórias pra mim? O meu bisavô. O pai, a mãe. Cadê eles? Quem foi que jogou cimento sobre a árvore que havia no quintal de minha antiga residência?”

Hoje

Agora mesmo está meditando. Tomou gosto pelo silêncio desde que enviuvara. Para não atrapalhá-lo, a tosse resolveu, há anos, ir embora também. Curado, pode entrar à vontade em ambientes com pessoas. Continua achando os outros estúpidos, mas finalmente enxerga a própria estupidez. Levanta-se, vai ao banheiro, limpa a dentadura. Toma um banho demorado. A lâmina desliza em seu rosto. Veste-se como se fosse fazer uma longa viagem. De maneira aleatória, puxa um livro da estante: seus dedos escolhem um de Albert Camus. Naquela noite, após refletir sobre a grande questão filosófica apresentada por Camus, resolve agir de uma vez por todas. A conseqüência imediata foi o retorno da tosse.

 

criado por Julio Scarparo    7:45 — Arquivado em: Sem categoria

14.7.07

Anatomia do tormento

 

A casa está malconservada, mas ele chegou aos 50 sem nenhum dano significativo. Os cabelos continuam longos, dentição perfeita e, principalmente, está sem barriga. Eu era o seu antônimo, em carne e osso: careca, gordo e desdentado. Dava de ombros para o contraste porque isso não afetava em nada o nosso interesse comum: a literatura. Sou capaz de jurar que Ricardo poderia colocar qualquer crítico literário do mundo no bolso. Não é exagero não. Em nome das letras, ele abriu mão da família, das mulheres, do dinheiro, da fama, de tudo. Vivia na base de uma herança deixada por um tio. Eu limitava-me a ganhar uns trocos como jornalista numa conceituada revista literária.

Depois que peguei a xícara de café, Ricardo revelou um segredo:

- Vou lhe contar algo que talvez não devesse.

- Eu sei que tenho chifres.

- Não é nada disso. Passei a vida buscando um livro e, por acaso, o achei. Somente dez pessoas no mundo conhecem a obra, mais ou menos. Trata-se do maior romance já escrito na face da Terra.

- Como é que é?

- Carlos, o negócio é o seguinte: sabe o biólogo José Ribeiro? Então, nós descobrimos uma vela acesa no fundo do Oceano Atlântico, em águas cariocas.

- Que papo é esse cara?

- Calma. Você vai entender. José pesquisava aquele tipo de peixe que possui uma espécie de lanterna na cabeça. Como ele é amigo de um almirante que comanda os quatro submarinos que defendem a fronteira brasileira, conseguiu dar uma voltinha nas profundezas dos mares, onde a luz do Sol não penetra, pra ver se achava o tal peixe. Eu fiz parte da tripulação.

- E?

- E aí que, em vez de encontrarmos uma lanterna na testa ou na antena de um peixe, avistamos uma claridade saindo de uma caverna que, por algum fenômeno da natureza, não permite a entrada de água em seu interior.

- Bicho, onde é que entra a literatura no meio disso tudo?

- A caverna é habitada por escritores. Ali é que se encontra o livro.

- Continue.

- Prometi a eles não divulgar o enredo, assim como os três críticos literários que estiveram ali antes de mim, 40 anos atrás.

- Me passa o telefone do almirante.

Vinte mil léguas submarinas

A passagem pra embarcar no Submarino Amarelo custou os olhos da cara. Tive um medo enorme quando coloquei os pés naquela cápsula. Morrer já é uma dor dos infernos. E afogado então, nem se fala. Tremia só de pensar. Mas o almirante conhecia aquelas águas como a palma da mão. Além disso, Posseidon jamais o abandonara.

Vamos ao encontro da luz. Ao vestir a roupa de mergulho, lembro-me de Julio Verne. Olho através da janela redonda pra ver se há algum polvo gigante ou qualquer monstro dos mares. Barra-limpa. A entrada pra caverna é pequena, nado um pouco e entro sem dificuldades. Eles estão olhando para mim.

- Olá. Não quero atrapalhar o processo de criação literária dos senhores…

- Você quer morrer?

- Escute, sou jornalista. Escrevo na principal revista brasileira de literatura. Soube por uma fonte segura que há uma obra fantástica aqui, acho que produzida por vocês, não sei…

Meu Deus! Meu Deus! Meu Deus! Se não estou enganado, estou diante de Shakespeare, Marcel Proust, Tolstói e Machado de Assis. Também vejo alguém no ponto mais distante da caverna. Não consigo enxergá-lo direito. Nossa! Está bem ali! O maior livro de todos os tempos descansa embaixo de uma imensa vela!

- Caro peregrino. Para a sua informação, desta vela depende a vida na Terra. Se ela apagar, tudo acaba.

Divindade romana

Nesse momento, sem saber de onde vem o som, começo a ouvir “Carmina Burana, Fortuna”, composta em latim no século 13. Por estudar teologia, domino o idioma. A canção fala sobre Fortuna, uma divindade romana que determina a sorte e o azar na vida das pessoas. Entendo o recado do acaso. Sei que armei uma roleta-russa. Só resta apertar o gatilho:

- Senhores, quero saber tudo sobre a obra!

A música está mais alta, porém não impede que ouça perfeitamente a explicação de um dos autores:

- O livro aborda a questão do amor entre os homens. Mas não falamos acerca das paixões, namoros, casamentos, sexo, crimes passionais, nada disso. Nestas páginas está a descrição do incomensurável tormento que se inicia quando corações imperfeitos, que são intrínsecos à raça humana, se unem de forma perfeita e absoluta. Aparentemente estaria tudo certo. No entanto, o tormento começa justamente aí: o imperfeito começa a repelir o perfeito. Por conseguinte, a anatomia do tormento demonstrada no romance desnuda, em parte, a miséria da condição humana.

O cara no ponto mais distante da caverna se aproxima de mim. Ele tem um machado na mão. Pelos sapatos respingados de sangue o reconheço. Seu nome é Raskólnikov.

criado por Julio Scarparo    18:09 — Arquivado em: Sem categoria

6.7.07

Diante dos raios

 

Trabalhava no centro de São Paulo. Após o plantão de sábado, combinei de encontrar um amigo, o Zóio. Eu tinha quinze anos de idade, ele uns treze ou catorze. O guri nunca tinha saído sozinho da região do Grande ABC. A caminho da Galeria do Rock, paramos na calçada pra comer um cachorro-quente. A boca cheia não me atrapalha. Tenho a impressão de que os olhos do Zóio estão mais redondos e brilhantes, parece que disparam um raio que vai em direção ao outro lado da rua. Quero ver também. Ele está encantado com o imenso trólebus que contorna a Praça da República. De tanto olhar, a haste do coletivo se rompe da energia elétrica, bem na curva. Faíscas e barulho alegram o imberbe. Reconheci que a mágica foi tremenda. “Será que consegue fazer isso de novo?”, brinquei.

Meses depois, passei em frente à casa dele. “O Zóio está?” “O Zóio morreu durante uma partida de vôlei, teve problema no coração”, lamentou a mãe, enquanto lavava o carro zero-quilômetro. Continuei a andar e, não sei como, lembrei-me da notícia do Jornal da Tarde, publicada no fim dos anos de 1980: um raio cai numa árvore no campo de futebol do Centro Social de Carapicuíba, matando seis pessoas que se protegiam da chuva.

Destino, Sorte, Azar, Providência Divina, Acaso - que diabo age sobre nós? Seja como for, aprendi desde cedo que a segurança almejada por todos é tão real quanto o tesouro localizado no fim do arco-íris ou a história da carochinha.

Soberania vs. Acaso

E não adianta tentar driblar o “azar” buscando prever o futuro. Segundo o jornalista Paulo Francis, quem acredita em astrologia tem mingau na cabeça. Calma Francis. Nem tanto. A gente só quer explicações. Queremos harmonizar o sistema que nos rodeia. Gostamos de tudo explicado, certinho, sem dúvidas nem mistérios, como as lojas de um shopping, os departamentos da empresa onde trabalhamos, os boletos bancários e as prateleiras do supermercado.

O teólogo João Calvino (século 16) abraçou a doutrina da predestinação com unhas e dentes. Para ele, a vontade de Deus prevalecia sobre todas as coisas e fim de papo. Quando o filho dele nasceu prematuramente, morrendo ainda bebê, escreveu: “certamente, na morte de nosso filho amado o Senhor afligiu-nos com uma profunda e dolorosa ferida. Mas ele é nosso Pai: ele sabe o que é melhor para seus filhos.” De acordo com Calvino, a soberania de Deus espanta a idéia da Sorte e Azar, do Destino e Acaso. O reformador não tem dúvida de que Alguém coordena todas as contingências da vida.

Bem antes de Calvino, o profeta Jeremias (que viveu uns 600 anos antes de Cristo) escreveu o seguinte: “eu sei, ó Senhor, que não cabe ao homem determinar o seu caminho, nem ao que caminha o dirigir os seus passos.” Para um bom entendedor, poucas palavras bastam: nem tudo sairá como planejamos. Volta e meia haverá surpresas boas ou ruins.

Dois problemas

Por que resolvi escrever sobre o assunto? Porque ao sair de uma oficina mecânica bateram no meu carro. Sem mais nem menos, a menina surgiu como um raio, impressionante. Talvez eu tenha parcela de culpa no ocorrido. Mas o fato é que saí de casa com um problema (o carro “morrendo” em marcha-lenta) e voltei com dois…

criado por Julio Scarparo    23:15 — Arquivado em: Sem categoria

Report abuse Close
Am I a spambot? yes definately
http://ficatempo.blog.terra.com.br
 
 
 
Thank you Close

Sua denúncia foi enviada.

Em breve estaremos processando seu chamado para tomar as providências necessárias. Esperamos que continue aproveitando o serviço e siga participando do Terra Blog.