23.6.07
22 horas de sonhos
“Se me disserem: restam-lhe vinte anos de vida, o que quer fazer das 24 horas de cada um dos dias que vai viver? Eu responderia: quero duas horas de vida ativa e 22 horas de sonhos.” A afirmação é do cineasta espanhol Luis Buñuel (morto em 1983). Ele era tão apaixonado por sonhos que resolveu filmá-los. A primeira cena de “Um Cão Andaluz”, de 1929, por exemplo, aparece um olho sendo cortado por uma navalha, do mesmo jeito que a nuvem rasga a Lua.
O amigo e colaborador de Buñuel, Salvador Dalí, era outro alucinado pelo assunto. Pintou obras nomeadas de “retratos de sonhos pintados à mão.” Talvez o quadro mais conhecido desse conjunto seja “A Persistência da Memória”, de 1931, que mostra vários relógios derretidos. Em 1938, Dalí realiza em Londres um grande desejo ao conhecer Sigmund Freud, que fugia da Alemanha de Hitler.
E já que London foi citada, vale a pena lembrar Yesterday, dos Beatles. É a música mais regravada da história do pop-rock. O que pouca gente sabe é que a melodia nasceu num sonho de Paul McCartney, em 1965. A letra da canção foi salva por John Lennon, que impediu o baixista de falar sobre ovos mexidos. Em vez da omelete, compôs sobre um amor que se perde. Nessa situação, só resta acreditar no dia de ontem: “I believe in yesterday.”
Gibi
Os quadrinhos também lançam mão dos sonhos. Em 1905, o norte-americano Winsor McCay cria "Little Nemo in Slumberland." Todas as historietas revelam as viagens de Nemo ao país dos sonhos, com exceção da última vinheta, que sempre o mostra acordando. Numa dessas odisséias, a criança está a bordo de um dirigível e vai até Marte. Ali, descobre que as pessoas comercializam o ar e vendem a terra a preço de banana.
Quando adormece, é comum Nemo colocar os pés em território bíblico. Certa vez, se divertia com uma pequena arca de madeira, repleta de bichinhos de brinquedo. Acontece que os animais, tanto machos quanto fêmeas, tornaram-se reais e bagunçaram toda a casa. Só faltou a presença de Noé. Acorda gritando: “ei, mamãe! Olhe o que esses animais estão fazendo!” E, ao perceber que fora somente mais um sonho, diz: “fui eu, mamãe!” A mãe responde: “eu sei que foi você, mas não faça tanto barulho, Nemo!”
Pai da Alice, aquela do País das Maravilhas
Entre as passagens oníricas da literatura universal, pode ser que a maior de todas tenha saído da caneta do escritor Lewis Carroll - que se encantava, sobretudo, com as crianças. Em uma de suas aventuras no País do Espelho, a menina de cabelos pretos semelhantes às penas de um corvo (e não loira, como desenhou Walt Disney) encontra um rei dormindo e, diante da cena, é desafiada por Dee a adivinhar qual é o sonho do soberano. Ela responde que é impossível alguém adivinhar o sonho dos outros. "Não, nem eu, nem ninguém no mundo consegue fazer isso", diz Alice.
criado por Julio Scarparo
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