17.6.07
É mais tarde do que supões
Sabe aquele cachorrinho de O Mágico de Oz? Ele está morando na Rua Vergueiro, em São Paulo. Como não emplaca um filminho sequer, Totó está na pior. Aliás, está na pior desde os tempos da Lassie, que fez muito sucesso ao lado da menina Elizabeth Taylor. Em vez de pedirem um Totó de aniversário, as crianças começaram a pedir Lassie. A partir daí a carreira afundou. Um parêntese: você sabia que, na verdade, a Lassie era macho? Pois é. Botaram um macho pra fazer papel de fêmea. Vale tudo pra ser campeão de bilheteria. Mas deixe-me voltar ao Totó, que não recebeu o carinho da Liz Taylor, mas em compensação ganhou o colo de Judy Garland, a Dorothy Gale dos sapatinhos vermelhos. Só mais uma curiosidade: as drogas e o álcool não permitiram que Judy entrasse nos anos de 1970. Morreu em Londres em 1969, como os Beatles.
Como dizia, Totó está em São Paulo. Na Rua Vergueiro. E é o dono do pedaço, na cabeça dele. Nesse sentido, até parece aqueles empresários bem-sucedidos que se acham os donos do mundo. Viajam nessa paranóia porque não se ligaram que em breve morrerão. Breve mesmo. “É mais tarde do que supões”, estava escrito no relógio de parede da falecida escritora Hilda Hilst. O que são dez, vinte anos? Quem já passou dos trinta sabe que uma década passa num estalar de dedos, e que a brincadeira de ser empreendedor de sucesso é uma insanidade tremenda.
Pelo que li, os animais não sabem que morrerão. O melhor amigo do homem pensa que viverá eternamente no quintal de seus donos. E os donos pensam que viverão eternamente dando piruetas na sala, no trabalho e nos estudos. Cada um vive a sua ilusão, ou melhor, a sua loucura. A maluquice dos cachorros são os postes. Se pudessem falar, diriam que o céu está cheio de postes de ouro para esguicharem à vontade.
Amanheceu o dia
Totó nunca faz xixi às oito da manhã. Nesse horário ele está muito ocupado. Abre as lojas com todos os comerciantes dum trecho da rua. Um por um. Quando os vê chegar, corre de alegria abanando o rabo. E você não tem idéia da beleza daqueles olhos caninos. Tal beleza só fica atrás da visão do astronauta quando vê a Terra. Com os olhinhos diz “consegui estar aqui, nada mais importa.” Tudo ao redor do cão desaparece. Carros e ônibus somem e os pedestres se transformam em poeira. A própria calçada nada é. Poderia ser areia movediça, areia de praia, barro, mato, o que fosse. Ele nem saberia a diferença. O importante é estar ali, bem perto da pessoa na hora de abrir o estabelecimento.
Um empreendedor da rua ignora o cãozinho. A indiferença é tanta que o Totó, mesmo se curvando em sinal de reverência, se torna invisível diante desse camarada. “Você quer que eu cumprimente o animal? Só faltava eu ter que dar bom-dia a um bicho.” “Não, não quero nada. Mas bem que poderia fazer mais do que girar a bendita chave e levantar a droga da porta de ferro.”
criado por Julio Scarparo
10:24 — Arquivado em: 

Comentário por FOX — 17.6.07 @ 12:32
Adorei a parte do céu cheio de postes…
Bjs