10.6.07
O nascimento de um gênio
Sei que estou fora de moda, mas acredito na existência de dom. Pegue alguém que tenha o dom de escrever crônicas, por exemplo. Ele lança palavras numa página em branco com charme e categoria. Parece que possui teclado mágico, com poderes de nos colocar dentro da história. Mas o segredo não está no teclado. Está em acessar o conteúdo de um Portal que o escritor comum, mesmo esforçado e inteligente, não tem acesso.
Contaram que a coisa funciona mais ou menos assim: do Portal, o escritor recebe uma avalanche de idéias. Avalanche é uma palavra muito sensacionalista, reconheço. Vou usar uma ilustração mais moderada. O escritor que tem o dom escreve como quem colhe uma fruta qualquer. Sobe na árvore e pronto. Ele simplesmente pega do Portal. As idéias estão no ar. Quem pegar, pegou. A história está madura. Bom apetite.
Não posso fazer nada
O idiota da objetividade (como diria Nelson Rodrigues) provocará: “então você está anulando a participação do escritor na criação?” Não, absolutamente, não. Seria muita ingenuidade da minha parte. Evidente que as impressões vindas do Portal se misturam à bagagem do escritor. Se ele desconhece a norma culta da língua portuguesa, escreverá errado. Caso não goste de pêra, ela possivelmente será a fruta predileta do vilão, e por aí vai, deu pra entender? Lá vem o idiota da objetividade outra vez. “Mas o fulano, que é um dos maiores escritores do Brasil, disse que tudo é pura técnica.” Claro que existe técnica também. No entanto, se ele não provou o fruto, não posso fazer nada.
Uma das frases mais ridículas da face da Terra é esta: “é só se esforçar que você chega lá.” Chega nada. Jamais você alcançará o nível de alguém que tenha recebido - e desenvolva - o dom numa determinada área. Para não entristecê-lo, digo que você pode até caminhar bastante sem a dádiva. Mas nunca colocará os pés onde o cara privilegiado colocaria. Muito elitista? Não. Segundo a Bíblia, todos têm, no mínimo, um dom. Oba! Como descobrir o seu? Meu caro leitor (um dos 40 corajosos que me lêem semanalmente), fórmulas são desnecessárias no descobrimento da paixão.
Eles chegaram lá
Permita-me somente mais este parágrafo. Quando desponta alguém que seja praticamente a encarnação de um ou vários dons, vemos o nascimento de um gênio. Passam agora pela minha cabeça: Pelé, Machado de Assis, Nelson Rodrigues (de novo), Leonardo da Vinci, Albert Einstein, Sigmund Freud, Charles Chaplin, Ingmar Bergman, Friedrich Nietzsche e, para finalizar a lista, que não é exaustiva, cito os eternos garotos de Liverpool, John, Paul, George e Ringo.
criado por Julio Scarparo
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