3.6.07
O vampiro de Düsseldorf
Saio de um restaurante em Berlim e um babaca tromba comigo. Não se desculpa e continua correndo. O acompanho com os olhos e reparo que, no paletó, a letra “A” está escrita a giz. É perseguido por uns dez caras. Lembro que sou jornalista e começo a segui-lo. Ou melhor: lembro que meu dinheiro acabou e que preciso de uns trocados para completar o aluguel. “Talvez comprem a notícia.”
O homem gordinho entra numa empresa, com os caras na sua cola. Demoram uma eternidade lá dentro. “O gordinho deve estar bem escondido.” Enquanto aguardo em frente da empresa, noto que há outros olhos interessados na mesma cena: os de um mendigo.
- Noite agitada, hein? Falo para extrair alguma informação.
- Agora ele não escapa!
- Ele quem?
- O assassino de crianças, ora bolas!
- E quem são aqueles caras atrás dele?
- São os mafiosos da região. As mortes estão enchendo este lugar de polícia, o que estraga o negócio dos bandidos. Por isso querem matá-lo. Você tem uma moeda?
Estava com uma notícia quentíssima na mão. Não perderia aquilo por nada. De repente, todos saem. Ligo o carro e continuo seguindo. Param numa fábrica abandonada. A grande movimentação do local facilita a minha entrada. Há perto de duzentos criminosos reunidos, acho que são chefes de quadrilha. Diante de todos, jogam o gordinho no chão.
Sem controle
De joelhos, parece invocar alguma entidade que o abandonou neste momento de nudez. Embora o grandalhão de chapéu atrapalhasse um pouco a minha visão, vi quando ele começou a grunhir tal qual uma pessoa que acaba de ser atropelada. Olha para os braços erguidos, sem perceber que a ponta dos dedos tenta tocar a palma da mão. O serial killer sabe que não tem escapatória. Serão as últimas palavras. Talvez, por isso, escancara a própria debilidade, pela primeira vez na vida:
- Não posso ajudar a mim mesmo! Não tenho controle sobre isso, essa coisa diabólica entrou em mim, o fogo, as vozes, o tormento! Está lá o tempo todo, controlando os meus desejos pelas ruas, seguindo-me silenciosamente, porém não posso parar. Isso me possui. Quero escapar, quero fugir de mim mesmo, mas não consigo escapar, tenho que obedecer. E saio pelas ruas perdido. Quero fugir disso, mas como?
No Brasil, o assassino foi chamado de “O vampiro de Düsseldorf.”
criado por Julio Scarparo
10:34 — Arquivado em: 
