ficatempo

Contos e crônicas como passatempo

30.6.07

O interpretador de sonhos

 

O pai não escondia a preferência por José. Os mimos e privilégios que o garoto de 17 anos recebia eram impossíveis de ser ignorados. Outra coisa que saltava aos olhos era a beleza que José herdara da mãe - Raquel era linda. É fácil imaginar que tal personagem matava de inveja os irmãos.

Certa vez, José teve um sonho tão impressionante que saiu a contá-lo a torto e a direito. Sonhou que o Sol, a Lua e onze estrelas (número de irmãos) curvavam-se diante dele. Essa foi a gota d’água para as estrelas, que resolveram lançá-lo num poço seco. “Morra, desgraçado!”

“Os Pássaros”, de Alfred Hitchcock

Mas a experiência com os sonhos continuaria. Do fundo do poço, escapa da morte ao ser vendido como escravo. Ao exercer essa função é condenado injustamente de abuso sexual. Na cadeia, faz novas amizades que lhe rendem sonhos curiosos. O copeiro sonhou com três galhos de parreira que se metamorfosearam em vinho, no copo do rei. José explica: “daqui a três dias o rei irá soltá-lo e tudo voltará a ser como antes.”

 Já o padeiro teve um pesadelo no estilo à Hitchcock. Sonhou que aves comiam os alimentos que estavam dentro de três cestos sobre sua cabeça. Mais uma vez, José explica: “daqui a três dias você será decapitado e aves comerão a sua carne.” Em ambos os casos, batata.

Sonho real

No palácio, o rei está perturbado, intui que seus sonhos têm de ser rapidamente interpretados, por isso não se cansa de narrá-los milhares de vezes - sente essa necessidade, e a vez de ouvir é de José. “Sete vacas magníficas, jamais vistas na região, saem do rio. Em seguida, surgem outras sete vacas, porém eram anêmicas, magras, feias. O chocante é que elas comem as magníficas. O mesmo acontece com o sonho das espigas, as ruins engolem as boas.”

Depois de ouvir calmamente a narração do rei, José explica que é necessário tomar medidas urgentes contra a grande fome que assolará o país, logo após os sete anos de bonança. O rei gosta da interpretação, que é confirmada pelo tempo, e o torna primeiro-ministro do Egito, cargo inferior somente ao de soberano. De quebra, muda o nome do filho de Jacó para Zafenate Panéia, que, por sinal, tinha acabado de completar 30 anos de idade.

criado por Julio Scarparo    10:55 — Arquivado em: Sem categoria

23.6.07

22 horas de sonhos

 

“Se me disserem: restam-lhe vinte anos de vida, o que quer fazer das 24 horas de cada um dos dias que vai viver? Eu responderia: quero duas horas de vida ativa e 22 horas de sonhos.” A afirmação é do cineasta espanhol Luis Buñuel (morto em 1983). Ele era tão apaixonado por sonhos que resolveu filmá-los. A primeira cena de “Um Cão Andaluz”, de 1929, por exemplo, aparece um olho sendo cortado por uma navalha, do mesmo jeito que a nuvem rasga a Lua.

O amigo e colaborador de Buñuel, Salvador Dalí, era outro alucinado pelo assunto. Pintou obras nomeadas de “retratos de sonhos pintados à mão.” Talvez o quadro mais conhecido desse conjunto seja “A Persistência da Memória”, de 1931, que mostra vários relógios derretidos. Em 1938, Dalí realiza em Londres um grande desejo ao conhecer Sigmund Freud, que fugia da Alemanha de Hitler.

E já que London foi citada, vale a pena lembrar Yesterday, dos Beatles. É a música mais regravada da história do pop-rock. O que pouca gente sabe é que a melodia nasceu num sonho de Paul McCartney, em 1965. A letra da canção foi salva por John Lennon, que impediu o baixista de falar sobre ovos mexidos. Em vez da omelete, compôs sobre um amor que se perde. Nessa situação, só resta acreditar no dia de ontem: “I believe in yesterday.”

Gibi

Os quadrinhos também lançam mão dos sonhos. Em 1905, o norte-americano Winsor McCay cria "Little Nemo in Slumberland." Todas as historietas revelam as viagens de Nemo ao país dos sonhos, com exceção da última vinheta, que sempre o mostra acordando. Numa dessas odisséias, a criança está a bordo de um dirigível e vai até Marte. Ali, descobre que as pessoas comercializam o ar e vendem a terra a preço de banana.

Quando adormece, é comum Nemo colocar os pés em território bíblico. Certa vez, se divertia com uma pequena arca de madeira, repleta de bichinhos de brinquedo. Acontece que os animais, tanto machos quanto fêmeas, tornaram-se reais e bagunçaram toda a casa. Só faltou a presença de Noé. Acorda gritando: “ei, mamãe! Olhe o que esses animais estão fazendo!” E, ao perceber que fora somente mais um sonho, diz: “fui eu, mamãe!” A mãe responde: “eu sei que foi você, mas não faça tanto barulho, Nemo!”

Pai da Alice, aquela do País das Maravilhas

Entre as passagens oníricas da literatura universal, pode ser que a maior de todas tenha saído da caneta do escritor Lewis Carroll - que se encantava, sobretudo, com as crianças. Em uma de suas aventuras no País do Espelho, a menina de cabelos pretos semelhantes às penas de um corvo (e não loira, como desenhou Walt Disney) encontra um rei dormindo e, diante da cena, é desafiada por Dee a adivinhar qual é o sonho do soberano. Ela responde que é impossível alguém adivinhar o sonho dos outros. "Não, nem eu, nem ninguém no mundo consegue fazer isso", diz Alice.

criado por Julio Scarparo    13:15 — Arquivado em: Sem categoria

17.6.07

É mais tarde do que supões

 

Sabe aquele cachorrinho de O Mágico de Oz? Ele está morando na Rua Vergueiro, em São Paulo. Como não emplaca um filminho sequer, Totó está na pior. Aliás, está na pior desde os tempos da Lassie, que fez muito sucesso ao lado da menina Elizabeth Taylor. Em vez de pedirem um Totó de aniversário, as crianças começaram a pedir Lassie. A partir daí a carreira afundou. Um parêntese: você sabia que, na verdade, a Lassie era macho? Pois é. Botaram um macho pra fazer papel de fêmea. Vale tudo pra ser campeão de bilheteria. Mas deixe-me voltar ao Totó, que não recebeu o carinho da Liz Taylor, mas em compensação ganhou o colo de Judy Garland, a Dorothy Gale dos sapatinhos vermelhos. Só mais uma curiosidade: as drogas e o álcool não permitiram que Judy entrasse nos anos de 1970. Morreu em Londres em 1969, como os Beatles.

Como dizia, Totó está em São Paulo. Na Rua Vergueiro. E é o dono do pedaço, na cabeça dele. Nesse sentido, até parece aqueles empresários bem-sucedidos que se acham os donos do mundo. Viajam nessa paranóia porque não se ligaram que em breve morrerão. Breve mesmo. “É mais tarde do que supões”, estava escrito no relógio de parede da falecida escritora Hilda Hilst. O que são dez, vinte anos? Quem já passou dos trinta sabe que uma década passa num estalar de dedos, e que a brincadeira de ser empreendedor de sucesso é uma insanidade tremenda.

Pelo que li, os animais não sabem que morrerão. O melhor amigo do homem pensa que viverá eternamente no quintal de seus donos. E os donos pensam que viverão eternamente dando piruetas na sala, no trabalho e nos estudos. Cada um vive a sua ilusão, ou melhor, a sua loucura. A maluquice dos cachorros são os postes. Se pudessem falar, diriam que o céu está cheio de postes de ouro para esguicharem à vontade.

Amanheceu o dia

Totó nunca faz xixi às oito da manhã. Nesse horário ele está muito ocupado. Abre as lojas com todos os comerciantes dum trecho da rua. Um por um. Quando os vê chegar, corre de alegria abanando o rabo. E você não tem idéia da beleza daqueles olhos caninos.  Tal beleza só fica atrás da visão do astronauta quando vê a Terra. Com os olhinhos diz “consegui estar aqui, nada mais importa.” Tudo ao redor do cão desaparece. Carros e ônibus somem e os pedestres se transformam em poeira. A própria calçada nada é. Poderia ser areia movediça, areia de praia, barro, mato, o que fosse. Ele nem saberia a diferença. O importante é estar ali, bem perto da pessoa na hora de abrir o estabelecimento.

Um empreendedor da rua ignora o cãozinho. A indiferença é tanta que o Totó, mesmo se curvando em sinal de reverência, se torna invisível diante desse camarada. “Você quer que eu cumprimente o animal? Só faltava eu ter que dar bom-dia a um bicho.” “Não, não quero nada. Mas bem que poderia fazer mais do que girar a bendita chave e levantar a droga da porta de ferro.”

criado por Julio Scarparo    10:24 — Arquivado em: Sem categoria

10.6.07

O nascimento de um gênio

 

Sei que estou fora de moda, mas acredito na existência de dom. Pegue alguém que tenha o dom de escrever crônicas, por exemplo. Ele lança palavras numa página em branco com charme e categoria. Parece que possui teclado mágico, com poderes de nos colocar dentro da história. Mas o segredo não está no teclado. Está em acessar o conteúdo de um Portal que o escritor comum, mesmo esforçado e inteligente, não tem acesso.

Contaram que a coisa funciona mais ou menos assim: do Portal, o escritor recebe uma avalanche de idéias. Avalanche é uma palavra muito sensacionalista, reconheço. Vou usar uma ilustração mais moderada. O escritor que tem o dom escreve como quem colhe uma fruta qualquer. Sobe na árvore e pronto. Ele simplesmente pega do Portal. As idéias estão no ar. Quem pegar, pegou. A história está madura. Bom apetite.

Não posso fazer nada

O idiota da objetividade (como diria Nelson Rodrigues) provocará: “então você está anulando a participação do escritor na criação?” Não, absolutamente, não. Seria muita ingenuidade da minha parte. Evidente que as impressões vindas do Portal se misturam à bagagem do escritor. Se ele desconhece a norma culta da língua portuguesa, escreverá errado. Caso não goste de pêra, ela possivelmente será a fruta predileta do vilão, e por aí vai, deu pra entender? Lá vem o idiota da objetividade outra vez. “Mas o fulano, que é um dos maiores escritores do Brasil, disse que tudo é pura técnica.” Claro que existe técnica também. No entanto, se ele não provou o fruto, não posso fazer nada.

Uma das frases mais ridículas da face da Terra é esta: “é só se esforçar que você chega lá.” Chega nada. Jamais você alcançará o nível de alguém que tenha recebido - e desenvolva - o dom numa determinada área. Para não entristecê-lo, digo que você pode até caminhar bastante sem a dádiva. Mas nunca colocará os pés onde o cara privilegiado colocaria. Muito elitista? Não. Segundo a Bíblia, todos têm, no mínimo, um dom. Oba! Como descobrir o seu? Meu caro leitor (um dos 40 corajosos que me lêem semanalmente), fórmulas são desnecessárias no descobrimento da paixão.

Eles chegaram lá

Permita-me somente mais este parágrafo. Quando desponta alguém que seja praticamente a encarnação de um ou vários dons, vemos o nascimento de um gênio. Passam agora pela minha cabeça: Pelé, Machado de Assis, Nelson Rodrigues (de novo), Leonardo da Vinci, Albert Einstein, Sigmund Freud, Charles Chaplin, Ingmar Bergman, Friedrich Nietzsche e, para finalizar a lista, que não é exaustiva, cito os eternos garotos de Liverpool, John, Paul, George e Ringo.

criado por Julio Scarparo    0:16 — Arquivado em: Sem categoria

3.6.07

O vampiro de Düsseldorf

 

Saio de um restaurante em Berlim e um babaca tromba comigo. Não se desculpa e continua correndo. O acompanho com os olhos e reparo que, no paletó, a letra “A” está escrita a giz. É perseguido por uns dez caras. Lembro que sou jornalista e começo a segui-lo. Ou melhor: lembro que meu dinheiro acabou e que preciso de uns trocados para completar o aluguel. “Talvez comprem a notícia.”

O homem gordinho entra numa empresa, com os caras na sua cola. Demoram uma eternidade lá dentro. “O gordinho deve estar bem escondido.” Enquanto aguardo em frente da empresa, noto que há outros olhos interessados na mesma cena: os de um mendigo.

- Noite agitada, hein? Falo para extrair alguma informação.

- Agora ele não escapa!

- Ele quem?

- O assassino de crianças, ora bolas!

- E quem são aqueles caras atrás dele?

- São os mafiosos da região. As mortes estão enchendo este lugar de polícia, o que estraga o negócio dos bandidos. Por isso querem matá-lo. Você tem uma moeda?

Estava com uma notícia quentíssima na mão. Não perderia aquilo por nada. De repente, todos saem. Ligo o carro e continuo seguindo. Param numa fábrica abandonada. A grande movimentação do local facilita a minha entrada. Há perto de duzentos criminosos reunidos, acho que são chefes de quadrilha. Diante de todos, jogam o gordinho no chão.

Sem controle

De joelhos, parece invocar alguma entidade que o abandonou neste momento de nudez. Embora o grandalhão de chapéu atrapalhasse um pouco a minha visão, vi quando ele começou a grunhir tal qual uma pessoa que acaba de ser atropelada. Olha para os braços erguidos, sem perceber que a ponta dos dedos tenta tocar a palma da mão. O serial killer sabe que não tem escapatória. Serão as últimas palavras. Talvez, por isso, escancara a própria debilidade, pela primeira vez na vida:

- Não posso ajudar a mim mesmo! Não tenho controle sobre isso, essa coisa diabólica entrou em mim, o fogo, as vozes, o tormento! Está lá o tempo todo, controlando os meus desejos pelas ruas, seguindo-me silenciosamente, porém não posso parar. Isso me possui. Quero escapar, quero fugir de mim mesmo, mas não consigo escapar, tenho que obedecer. E saio pelas ruas perdido. Quero fugir disso, mas como?

No Brasil, o assassino foi chamado de “O vampiro de Düsseldorf.”

criado por Julio Scarparo    10:34 — Arquivado em: Sem categoria

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